Restituição e Reparação na identidade pós-conflito: Porquê discutir Restituição em Moçambique?

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Cerimónia do Regresso dos restos mortais do Imperador de Gaza, Ngungunyane a MoçambiqueJornal Domingo, 16 de junho de 1985, fotografia de Carlos CaladoCortesia do Arquivo Histórico de Moçambique

Desde antes da corrida colonial, uma empresa ideológica – tomando de empréstimo uma expressão do filósofo camaronês Achille Mbembe – com acionistas em vários sectores da sociedade ocidental investiu na construção do discurso de negação da racionalidade das sociedades africanas (moçambicanas). A ignorância mútua entre africanos e europeus no primeiro Cruzamento (que insistem no vocábulo Descoberta) justificou por parte dos segundos a indústria da violência na qual foi fabricada a imposição de uma historiografia que esvazia qualquer possibilidade de nos conhecermos e nos entendermos antes da sua chegada.

Os lucros desse investimento continuam a multiplicar-se quando o imaginário de um jovem moçambicano, forma de ver o mundo, tem como base a lógica ocidental. E a razão é simples, às referências do seu repertório cognitivo são constituídas, por exemplo, por Leonardo Da Vinci, talvez por não ter tido a oportunidade de conhecer artistas ou artesãos africanos seus contemporâneos.

Como defende a escritora Paulina Chiziane, temos de resgatar a nossa dignidade, a nossa humanidade. O que nos parece possível, entre outros caminhos, através da história e de um jornalismo militante que não se foca exclusivamente no actual mas no passado também – o que é urgente no contexto africano. 

Mia Couto, olhando para o facto das literaturas africanas de língua portuguesa feitas por jovens tenderem ao passado, interpreta como uma certa falta de horizonte no futuro, justamente por desconhecimento do passado. 

Neste contexto, precisamos entrar em contacto com arquivos, registos fotográficos, artefactos e objectos de variada espécie que ajudariam a relactivizar a interpretação e percepção que temos de nós mesmos e melhor projectar o futuro. 

A Restituição nos possibilitaria reabilitar e renegociar as narrativas que nos definem como moçambicanos. O resgate de quem fomos pode revelar-nos coisas a nosso respeito que talvez se encontrem na sombra, cobertas pela nossa ignorância.

 Neste momento o país é tomado por uma série de ataques bárbaros em Cabo Delgado e ainda não nos refizemos do conflito que, com os seus intervalos, desde 2012 instalou-se em Manica e Sofala. Atacar Cabo Delgado é antes demais vilipendiar a epopeia fundadora do moderno Estado moçambicano, pois foi o palco do arranque da Guerra de Liberação Nacional. Assim como é, igualmente, colocar em risco o património desse legado e de outros “Moçambiques” que dali poderiam brotar.

É neste contexto que a plataforma Mbenga Artes e Reflexões, a Oficina de História, o antropólogo moçambicano Marilio Wane, Otília Aquino e a artista e investigadora portuguesa Catarina Simão nos juntamos para realizar um Ciclo internacional de conversas RESTITUIÇÃO E REPARAÇÃO NA IDENTIDADE PÓS-CONFLITO e a exposição fotográfica Ngonani mu ta wona: uma viagem no tempo ao Palácio das Colónias. Será um evento híbrido (debates presenciais e online). Refira-se que em 2019 realizamos o PRIMEIRO SEMINÁRIO SOBRE RESTITUIÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL A MOÇAMBIQUE: HISTÓRIA, REALIDADE E UTOPIA.

Os nossos objectivos

Situações difíceis: Conflito/pós-conflito
1. Em Cabo Delgado, no Norte de Moçambique, o primeiro semestre de 2020 foi marcado por uma série de ataques cada vez mais violentos de grupos insurgentes caracterizados pela sabotagem contra aldeias inteiras, famílias, edifícios governamentais, igrejas e outros lugares sagrados. A revelação das causas que conduziram ao conflito de Cabo Delgado levou à necessidade de salvaguardar e reconstruir urgentemente o nosso património histórico e cultural como um todo. À luz do debate sobre “Restituição”, queremos reunir vários agentes que fazem da resposta à emergência do conflito um espaço de investigação: a partilha de informação, a recuperação de arquivos, o mapeamento e o inventário da destruição podem ser instrumentos de paz e reconciliação.

2. Por outro lado, a aquisição de artefactos e objectos de arte africanos por museus globais criou lacunas no conhecimento cultural do público africano, bem como no conhecimento científico e académico. Embora seja verdade que estas lacunas surgem devido ao desaparecimento ou inacessibilidade destes objectos, também é verdade que a autoridade das narrativas pré-estabelecidas sobre estes objectos desfigurou a sua leitura e significado como um legado para as comunidades das quais foram retirados. 

O que queremos fazer:

Com base em estudos de casos e debates, a Associação Cultural Mbenga em conjunto com a Oficina de História (Moçambique) pretendem reintroduzir conceitos de “restituição” e “reparação” no contexto contemporâneo da nossa história. Observando como estes conceitos emergem hoje em dia na cultura literária e artística, bem como na nossa investigação jornalística e académica, será desenvolvido um conjunto de temas em diversos formatos, tais como webinars, exposições e filmes. Da mesma forma, serão produzidos artigos e entrevistas com personalidades nacionais com o objectivo de depurar a importância destes conceitos para uma identidade pós-conflito em Moçambique. 

Este debate é muito urgente e necessário. Com a vossa ajuda, faremos a Reconciliação com a nossa História. Para isso, precisaremos apenas da vossa atenção e do vosso apoio.

Reflectir sobre quem nós somos

Ciclo de debates

Outubro e Novembro

1º debate: O que é o Nosso Património? (Abertura)

2º debate: Restituição e identidade, uma questão africana, uma questão nacional 
3º debate: Vozes empoeiradas: oralidade, restituicao e arquivos sonoros de Cabo Delgado. 
4º debate: Restituição como activismo: o exemplo do Quénia e da África do Sul (em inglês c/ tradução em português) 
5º debate: O museu africano, o que é realmente? (em francês c/ tradução em português) 

Exposição no Espaço Público

Outubro e Novembro

Ngonani mu ta wona! : “Venham ver!!
Uma viagem no tempo ao Palácio das Colónias. 
Proposta sonora e fotográfica baseada na pesquisa do antropólogo moçambicano Marílio Wane.

Ciclo de Cinema

Outubro e Novembro

Estamos muito conscientes do impacto que este evento terá nos artistas e curadores em moçambique. No entanto, existe ainda uma relação abstracta com o que está em jogo quando se fala de Restituição. Assim, decidimos por um curto programa de exibições que irá situar (pedagógica e cinematograficamente) a noção histórica de restituição aos Movimentos de Libertação. A selecção do programa centra-se, portanto, em filmes e documentários africanos realizados nos anos 70, entre outros que foram produzidos mais recentemente.

Não façamos esta conversa sobre “eles”, mas sobre “nós”.

Link para Doações.

Artigos

O que já escrevemos sobre este debate

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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