Hipóteses para o entendimento de quem somos

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O eurocentrismo sentenciou que no Continente Africano a oralidade é o veículo de transmissão de valores entre as gerações. Conforme este postulado, é através de parábolas e outras ferramentas da oratura que a história, que preserva a cultura e as tradições, é legada às subsequentes linhagens.

Quando os exploradores europeus chegaram ao continente, em vários territórios, hoje países, a escrita, nos moldes ocidentais, ainda não fazia parte do repertório das sociedades que cá habitavam.

Com efeito, a incompatibilidade linguística resultante da ignorância de ambos em relação aos signos, que os respectivos idiomas transportavam inviabilizou ainda mais qualquer possibilidade de entendimento mútuo.  

Enviesado pelos preconceitos europeus, que consideram os conhecimentos não-ocidentais, como inferiores aos seus, antropólogos, exploradores e as notas de sacerdotes subalternizaram essa condição africana.

A pretensa superioridade alicerçada, por exemplo, pela ausência da escrita – nos moldes que eles conheciam – serviu de instrumento de dominação e imposição, com o alegado propósito filantrópico de civilizar estes povos, que pela ignorância dos seus valores por aqueles que consideravam que estavam nas trevas.

Os africanos acabaram, historicamente, subalternizados, comercializados para escravos, colonizados até os gauleses reconhecerem a humanidade destas pessoas e a partir dai o movimento abolicionista e séculos mais tarde a conquista das independências, nas celebradas décadas de 50 e 60 do século XX.

Entre os argumentos para manter a suposta superioridade, estavam alegações de incapacidade de elaboração de operações cognitivas, devido a uma presumível ausência de raciocínio, que possibilita o acesso ao abstracto, ao pensamento.

Quando olhamos para este debate (re)iniciado por Emmanuel Macron, Presidente da França, sobre a necessidade de devolução dos bens culturais de valor etnográfico roubados durante a vigência do colonialismo, percebemos que a tese da oralidade pode cair por terra ou abrir-se espaço para outras perspectivas.

Encaro este assunto nesse sentido, pois a restituição possibilitaria ter acesso à materialidade, a objectos concretos que no contexto em que foram retirados representavam o testemunho de que em África havia, nesse passado apagado, outras formas de transmissão de valores.

Do mesmo modo, que na infância civilizacional ocidental, isto é, na Grécia Antiga, houve obras que até hoje estão em preservação a testificar o seu legado e o seu carácter emancipatório; e entendido mediante a interpretação dos seus, África merece trilhar o seu caminho e questionar os rótulos eurocêntricos, que dominam a visão do mundo.

Sabe-se que a partir desse material pode-se descortinar questões como organização social, padrões de vida, rotinas e hábitos para além de, naturalmente, o sentido estético dos seus produtores. Alcançadas essas possibilidades pode-se estar diante de novas realidades, que poderiam mudar a nossa concepção do mundo.

Com a devolução, o mito da oralidade pode ser questionado, suscitando, inclusive outras indagações sobre o que mais foi apagado da nossa história.

Moçambique, por exemplo, é resultado da união de fragmentos de reinos antigos que, de guerras, traições, rupturas, que durante séculos foram sendo manipulados pelos interesses da coroa portuguesa e depois pela república; mais tarde, depois de 25 de Junho, quando começa a tentar erguer-se veio a a guerra civil. Com a abertura para o mundo, chega ao concerto das nações, quando a globalização – iniciada pelos primeiros Homens do mundo, cuja ciência indica tratar-se de africanos – num estágio avançado, não dando tempo para reconstruir-se a nível do tecido social. Diante deste quadro, uma das questões, que nos toma é, quando falamos de identidade moçambicana, do que estamos a falar, que referência, que tempo? As respostas que faltam podem ser, em parte, ajudadas a satisfazer com os bens, que nos pertencem e que, entretanto, estão em mãos alheias.  

A questão da oralidade irá prevalecer, enquanto não tivermos alternativas, para contrapor algo que, talvez, lá mais para frente, descobriremos que nunca passou de uma falácia.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

1 COMENTÁRIO

  1. Bela reflexão! Talvez seja necessário que África se distancie um pouco de África para melhor se entender. Muitas vezes falamos da identidade africana remetendo, única e exclusivamente, à necessidade da retoma da sua ancestralidade, o que é correto embora obstrua o tão real fato de que a inobservância de pormenores do dia a dia atual do africano, vai distraindo os africanos da tarefa de construir tal identidade. Tenho pra mim que a identidade é também, e acima de tudo, uma construção contínua; uma demarcação da minha terririalidade identitária para que não seja confundida com as outras. África tem essa responsabilidade hoje: dizer ao mundo quem ela é, para que o mundo não lhe confunda com outrem, atribuindo lhe uma falsa identidade.

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