O Paradigma da forma dos Mabunda

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Alguém terá dito que há exposições que valem tanto pelas perguntas que nos colocam como por aquilo que oferecem ao olhar. O PARADIGMA DA FORMA dos irmãos Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda quer ter as duas valências. A exposição será inaugurada no dia 02 de Junho, às 18.00 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.

 A trabalharem em estruturas, técnicas distintas entre si, os artistas reflectem e questionam o status quo através das figuras e ícones que exploram. Nesta mostra encontramos a pintura de esferográfica sob cartão (Rodrigo), a mistura de colagem e desenho (Santos) e escultura (Gonçalo).

Rodrigo está a desenvolver uma técnica peculiar que na exposição Os Mabundas, no Camões em 2019, se aproximava dos azulejos portugueses. Sob o cartão, o artista distribui infinitos desenhos minúsculos, palavras, que vistos a lupa revelam o humor das circunstâncias de penúria que pesam nos ombros de uma sociedade que caminha na corda bamba a equilibrar a sua precariedade.

No novo rumo que Rodrigo traça neste O PARADIGMA DA FORMA, entre os milimétricos desenhos, surgem formas maiores que ganham o contorno de corpos, edifícios entre as margens dos pontos que o artista deixa em branco ou castanho, dependendo da cor do papelão/cartão no centro da composição.

A parte interior de Caixas de Red Label da John Walker (as telas de Rodrigo) dão espaço a reflexões, muitas vezes satíricas, sobre a realidade que nos rodeia e os seus dilemas.

Gonçalo Mabunda, por sua vez, reactualiza o significado das armas não com isso aniquilando os sentidos primeiros destas: a morte e o poder. Mas os rostos e corpos caricaturados, crivados de bala podem ser uma metáfora para a condição de precariedade, da vida por um fio.

Uma pergunta natural, ao olhar para as obras pode ocorrer: não são as dificuldades quotidianas – o chapa deficitário, o agente da polícia ou do hospital ou da conservatória ou das alfândegas, entre outros “ous” possíveis que materializam a corrupção – outras formas de nos colocar uma Kalashinikov AK-47 com o cano apontado ao nosso rosto?

A ser neste rumo, temos as obras de Gonçalo Mabunda ao serviço do questionamento da necropolítica (?) ao transformar as armas em poesia, em arte, disponível para o sensível (?).

Um dos marcos desta exposição é o uso escultural de capacetes militares crivados de balas a caricaturar rostos com a boca aberta, a zona do cérebro aberta ou então a fazer o estomago da escultura de um Cristo com laço vermelho no peito – a ironizar os pastores que actualmente proliferam na sociedade.

Outra novidade de O PARADIGMA DA FORMA está no uso por Gonçalo Mabunda de materiais de pulverização contra a malária, desde as roupas, as botas, as viseiras e as mochilas bomba de pulverizador.

Esta colectiva conta ainda com Santos, que trabalha na mistura entre o desenho e colagem, numa conjugação de cores que para lá da estética busca a poética no quotidiano, a reflectir sobre a pandemia, sobre a vida nos bairros, os conteúdos noticiosos da televisão e outras questões que não se esgotam.

Com obras maiores que a exposição “OS Mabundas”, no Camões em 2019, Santos quer revelar os nossos pecados, as mazelas do sistema e certas incoerências numa catarse a volta desse nosso hábito de nos silenciarmos sobre os nossos sofrimentos.

No olhar do jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da exposição, as peças desta mostra resumem procedimentos diferentes, ora instigando a percepção do deus das pequenas coisas, como diria a escritora indiana Suzanna Arundhati Roy, ora preenchendo o campo visual de narrativas por contar.  

O PARADIGMA DA FORMA, prossegue, é um conjunto de ferramentas diminutas, no entanto, a exaltarem-se à medida que linhas invisíveis se unem a favor da inteligibilidade inalienável. “Há nisso cruzamentos: estéticos, axiológicos e semiológicos, afinal a arte Mabunda atravessa fronteiras contemporâneas para construir a diversidade na singularidade”, lê-se.

A concluir, José dos Remédios observa que através deste O PARADIGMA DA FORMA, com efeito, os Mabunda vão buscar à precisão da técnica (desenho, pintura e escultura), a representação vivencial que, de outro modo, não faria sentido.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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