A metamorfose de Angel (ou de Ngilina?)

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A prostituta Angel (Joana Mbalango), aos 24 anos, entrega-se ao cafetão Ngelene (Fernando Macamo), que aos 16, ainda inocente, penetrou-a a força nas núpcias do lobolo. Nessa outra vida, ainda se chamava Ngilina. Entre estas duas figuras femininas se desenrolou a peça de teatro Ngilina da Zona, apresentada na sexta-feira (04 de Junho), na Fundação Fernando Leite Couto.

Ngelene violentou-a com a truculência de um homem sedento, na sua dimensão mais animal, Ngilina, entretanto, gostou. Mas o casamento foi forçado e todas as fantasias de menina foram “arrasgadas” e despedaçadas em fiapos reles. 

A jovem pôs-se fora do lar. Pediu ao pai (Ailton Zimila) que lhe abrisse a porta para voltar para casa, o que o progenitor imediatamente repreendeu. E manteve a porta fechada, pois não podia, dizia, ir contra a tradição. Já não tenho o dinheiro, disse ainda o pai e estas palavras eram como uma navalha espetada na boca do estômago e posta a girar 360º para a sua filha. Torrou na mafureira daquele “senta baixo” da zona a beber aguardentes. 

Ngelene, recém-casado, desesperado para encontrar a sua mulher, com modos grosseiros entra na casa do sogro. Ngilina está aqui? Pergunta num tom autoritário e ameaçador. Não, não sei e esta é uma coisa séria, reage o pai, a lamentar sobre o que a sociedade dirá ao saber que ele é pai de uma filha que fugiu do lar. Ngelene estava também preocupado com o dinheiro que investiu no lobolo.

Anos depois, numa opção irônica da encenadora Maria Clotilde, sem dinheiro para lavar a sua honra, Ngilina acaba prostituta e o seu cafetão é justamente o ex-marido, um escroque, destes tipos vulgares, de uma vaidade ostensiva, anéis de ouro e prata nos dedos das duas mãos, colares de ouro, relógio ornamentado com diamantes no pulso… Ngelene é dono de uma das ruas de sexo e cobra uma percentagem as prostitutas que operam naquele ponto. Antes, porém, experimenta as novatas. 

Ao ver a sua ex-mulher reconhece os traços, mas não se lembra donde e com este seu trabalho já conheceu muitos outros rostos e corpos femininos. Angel, como actualmente se apresenta, desvia a desconfiança. Desconversa às perguntas e contra-ataca: vais me ceder a rua ou não? 

Já estudante de nível superior, faz o coito com o seu carrasco. E novamente gosta. Mas não esquece o seu propósito de devolver o lobolo. Algures na peça frequenta um psicólogo em para reabilitá-la do trauma da adolescência e também para situar a plateia sobre o nível social da moça. A cena final é de Angel sentada com as ofertas do lobolo postos numa capulana. 

Entretanto, ao longo da peça escapam alguns elementos, diálogos contextualizadores no que diz respeito ao tempo e ao espaço em que a estória se desenrola. Como é o caso, por exemplo de se está num meio urbano – ainda que periférico – ou rural. Esta ausência limita a compreensão da plateia sobre o significado do lobolo numa vila do interior e a forma como um residente de um bairro de uma cidade lidam com esse mesmo significado. Até porque não se percebe como e em que circunstâncias a Ngilina, de uma família pobre, torna-se Angel, estudante de nível superior e que frequenta um psicólogo.

Joana Mbalango, que interpreta as duas vidas da mulher que protagoniza esta peça, confessou-me que está num exercício de aproximar as personagens que recebe a sua própria personalidade. Entretanto, neste espectáculo, sentimo-la com pouco vigor, pouco entusiamo. Talvez a meio caminho entre ela e a personagem. Por sua vez, Fernando Macamo que vestiu o personagem Ngelene oscilou entre bons momentos e alguns mornos. Na última cena perdeu o vigor num momento que exigia uma voz autoritária e violenta. Ailton Zimila fez o papel de pai, de psicólogo e de cliente da prostituta.

Ngilina da Zona é uma peça inspirada no conto “Ngilina, Tu Vai Morrer” do escritor moçambicano Suleiman Cassamo, no espectáculo de teatro “Mulher Asfalto” interpretado pela actriz Lucrécia Paco e no livro “Navalha na Carne”, do escritor brasileiro Plínio Marcos. Maria Clotilde faz a adaptação e encenação.

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