Timeless, a sinfonia de Joni Schwalbach

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Joni Schwalbach Ekaya Productions Founder & CEO ekayaproductions.com MMM - Mozambique Music Meeting Co-Founder mmmfestival.com Maningue Productions Co-founder

Ao perder o protagonismo e centralidade da cena com a mudança da pequena cidade de Panguim, Goa, para actual Maputo – maior que a anterior -, nos idos anos 60 do século XX, o Velho Dr. Apolinário, desgosta desta urbe encostada no Índico. Já sem a palavra final de qualquer debate, passou a especializar-se em encontrar os pontos fracos de Maputo. O seu check mate para quem o quisesse o convencer que a cidade era interessante, cheia de vida, imensa, com cinema, algum teatro, era: Aqui há opera?

Se fosse vivo, este personagem de um dos pequenos contos – se assim se pode classificar – do segundo livro de Álvaro de Carmo Vaz, talvez sorrisse ao ouvir a Orquestra Xiquitsi e as composições de Estêvão Chissano. De certeza já teria acompanhado a um concerto de Stela Mendoça e, provavelmente, fosse um assíduo assistente das aulas do Conservatório de música.

Pese embora, até possa parecer despropositado, é uma hipótese, a audição de “Timeless”, recente álbum de Joni Schwalbach, pode remeter ao personagem do livro Aqui há opera? a razão é justamente o facto de se tratar de um projecto sinfónico, que se difere, em grande medida do que o mercado moçambicano está habituado a oferecer.

É certo que o compositor há já vários anos trabalha com música para cinema – assunto sobre o qual quando fala, seus olhos ficam reluzentes, tal qual, apesar de batida esta imagem não deixa de ser bela, uma criança ao receber rebuçados -, como aliás, acaba de fazer para o filme “Nhinguitimo”, uma adaptação do conto de Luís Bernardo Honwana, realizado por Licínio de Azevedo, que em poucas semanas estará à disposição.

Aliás, em 2017, com a banda sonora de Comboio de Sal e Açúcar esteve perto de um Óscar. E na composição para essa pelicula eram presentes algumas marcas da guerra de desestabilização que lhe entrava pela porta de casa quando os pais chegavam do hospital, onde eram médicos.

A guerra que não presenciou fisicamente, disse numa entrevista que me concedeu nessa altura, “são parte das minhas memórias de infância e, ainda que não propositado, não ignoro a possibilidade de isso ter influenciado no meu trabalho”.

“Timeless” (Intemporal/Eterno), entretanto, não é sobre a guerra, como, em parte, foi “Despertar” álbum que lançou em 1992, no qual encontramos temas como “Cordas bambas”, “Sol triste” e a música que dá título a compilação, “Despertar”.  Já nesse trabalho de há 30 anos, a veia sinfónica já se manifestava.

Joni Schwalbach, torna-se conhecido do grande público moçambicano, porém, por outra via. Quando integra o colectivo Ghorwane – cujas raízes são a muthimba -, José Mucavel, Grupo RM.

Foi nessa altura que teve de “criar um estilo para tocar piano naquele tipo de música, porque as bandas não tinham piano. E, quando tinham piano, eram cenas mais sons mais fundos, estáticos ou, então, desenhos. Por exemplo, tenho uma cena que eu criei, que tinha a ver com a percussão e uma mistura das violas, que se dê para tocar piano de uma forma mais criativa.” Ainda o ouvimos no Electric Jazz, projecto do qual depois nasceu o Nondje.

Sentamo-nos no seu estúdio, Ekaya Productions, para conversar sobre o seu mais recente trabalho, “Timeless”, que, conforme a nota de imprensa que o “Mbenga” recebeu na véspera do lançamento, em Julho, é um trabalho totalmente composto durante a pandemia em 2020/2021, e foi o primeiro álbum do artista a ser distribuído em plataformas digitais. “Despertar” também já está online.

“Timeless” é um álbum com uma sonoridade orquestral e que nos remete constantemente a uma linguagem cinematográfica com trilhas sonoras épicas, como descreve Joni, “sons que se veem”.

A mistura de uma orquestração sinfónica e instrumentos acústicos aliados a elementos locais moçambicanos/africanos dão a esta obra uma sonoridade nova/única, que mistura culturas e cruza/baralha horizontes.

Este novo trabalho de Joni Schwalbach é composto por 12 temas incluindo “African Trip, Marracuene”, “Kanimambo Bhava”, “Timeless” e “Madoda”. O tema “Kanimambo Bhava” tem a participação especial de Roberto Chitsonzo, Cheny wa Gune, Lucas Macuácua e Paíto Tcheco.

Confesso que em função das suas produções que já conheço e, também, daquele momento Eletric jazz, estava à espera de uma cena mais ou menos naquela onda, quando soube que tinhas um novo álbum, que o “Timeless” foi uma surpresa absoluta, embora eu saiba que trabalhas com músicas para filmes.

Não sei se conheces o meu álbum, “O Despertar”, que já está no iTunes. Agora, vais ver um update constante, porque tudo o que eu não lancei, nos últimos 30 anos, vou lançar agora, depressa [nas plataformas de streaming]. Esse é um álbum que apresentei ao vivo, em 92, mas editei em CD, em 2010. Este álbum, agora, “Timeless”, é a continuação do que chamo de sons que se veem, a música de cinema. Mas aquela onda fusion também vai sair. É uma coisa que vou pegar. Estava meio pronta, mas depois de ficar sem tocar com a banda ficou aí na gaveta, mas vai sair um dia destes.

Por que esta opção, agora?

Na verdade, esta onda cinematemática é uma coisa que eu tenho estado a estudar, nos últimos tempos. A cena de escrever para orquestra grande tem desafios de orquestração e de arranjos que são coisas muito complexas, porque escreves para cinquenta músicos, em vez de três ou quatro, que é uma banda comum.

Então, tenho estado a estudar a isto, e esta foi a primeira vez que pus em prática estes estudos. O que tornou a materialização deste projecto possível foi a pandemia. Eu, realmente, nunca tive tempo de estar concentrado para isto e considerar que tenho um ano para fazer o álbum e traçar metas para ter tudo pronto. Se não fosse a pandemia, e a restrição de trabalhos, horas e outras, não teria sido possível em tão pouco tempo.

Imagino que tenha sido um trabalho complexo de se compor. É música para orquestra.

Pois. Estes não são temas de resgate e arranjos de temas antigos. Foram todos compostos no último ano. Foi um exercício de experimentação, na ideia de ver se eu consigo compor um álbum agora que estou com menos trabalho e mais tempo. Este álbum foi, quase todo, feito em casa.

Então, fizeste tudo sozinho?

Tem participação de algumas coisas, mas na maioria só eu.

Como é que esta música acontece na tua cabeça?

Na verdade, tudo começa com uma ideia muito simples. Começa, sempre, com um motivo muito simples. Um motivo que depois cresce. Às vezes, cresce durante dias, noutras é no mesmo dia. É como uma semente de uma planta. As pessoas se perguntam: “como é que ele pensou toda esta mudança e variações?”

Não sai tudo de uma só vez, uma coisa leva a outra e assim por diante. Por acaso, estive a comentar, noutro dia, com uma pessoa que estava a ouvir uma música minha. E eu disse que não sabia como tinha feito aquilo. O processo para chegar ali não é muito consciente, é algo que acontece no momento.

Depois do “African Trip”, a primeira peça, a medida em que fui descendo pelo álbum, uma coisa que me chamou a atenção é que também remete a uma tendência que é cada vez mais crescente, de músicas que vão buscar referências em videojogos. Nada a ver como o Lo fi, mas o Lo fi também vai buscar esses elementos, às vezes, para construir as suas próprias composições. Eu queria perceber se é algo que tens assim contigo, pensas nisso?

Não. Por acaso não penso nisso, mas é uma linguagem que estou habituado, porque agora é uma tendência de todos os Media Composers (compositores de música para filmes e para a televisão), também fazem músicas para os jogos. Então, é uma linguagem que se misturou com a música de cinema e que eu sigo muito. Pode ser que, inconscientemente, tenha incorporado alguns elementos dessa linguagem.

Para compores, normalmente, para um filme, não sei se primeiro tens as imagens ou se recebes o roteiro do filme. E, em função do que lês ou vês, vais fazendo…

Isso é uma coisa que depende de director para director, mas eu prefiro que seja assim: antes de filmarem, eu tenho acesso ao script, a história e começo a pensar na onda do filme em termos de sentimentos e clima. Claro que não estou a pensar em temas específicos, mas já sei se é uma história triste, se é uma história na cidade/urbana, se é moderna ou de época, ou se é no campo, mar e etc… Isto já me dá uns guias para o tipo de sonoridade que o filme vai ter. Por exemplo, este filme Nhinguitimo, do Licínio [Azevedo] que vai ser agora foi assim. Eu tive acesso ao texto e, depois, depois fui ver as filmagens e comecei a experimentar temas, mas sem ver o filme.

Por acaso, o Pipas [Forjaz] que é muito rápido, no fim do dia das filmagens, ele fazia um pré-corte, uma edição super-rápida das cenas daquele dia e ia me mandando. Isso ajudou com que eu começasse a criar os temas finais do filme, enquanto o filme ainda era produzido. Foi uma cena rara, nunca tinha feito. Normalmente, dão-me um primeiro corte, um corte ainda muito inacabado, mas que já me dá o feeling das cenas do filme.

Este não, este eu tinha diariamente um corte daquele dia.  Portanto, das cenas do bar, das lutas, etc. E, depois, eu crio temas para as personagens. Cada personagem tem pelo menos um tema, que depois se desdobra em subtemas, dependentes do seu estado emocional.

Quando o filme está quase pronto, eu começo a arranjar, em termos de orquestra ou orquestração, cada tema para cada parte do filme. E, depois, claro que há uma primeira audição, com o director e alguns da equipa de produção, e há um feedback, sempre. A gente recua e altera algumas coisas, porque há uma luta, sempre, entre o músico e o director do filme, porque normalmente eles querem o mínimo de música possível. E a gente quer pintar o filme com música porque sabemos que a música acrescenta algum sentimento no filme.

Uma das coisas que acho injustas do cinema para a vida real é que no cinema, sempre que estamos para entrar numa cena impactante, tem aquela música. Claro que o personagem não está a ouvir a música, mas, quem está a ver o filme já prevê que alguma coisa vai acontecer, o que não se verifica na vida real…

A música é tipo um amplificador dos sentimentos e tensões que estão no filme. Por exemplo, a pessoa pode estar a chorar, mas não é uma coisa que impressiona. Mas, se a pessoa está a a chorar e, depois, tem uma música super-trágica, é completamente diferente. George Lucas (produtor cinematográfico norte-americano) diz que música é metade do filme. É muito engraçado ver um filme pronto e tirar a música. Fica sem graça.

No “Timeless” foi sem vídeo. Então, eu quero perceber como é que foi o exercício de compor sem essas referências.

O problema de não ter vídeo é para o público, porque eu tenho, sempre, um vídeo na cabeça. Eu sempre estou a ver alguma coisa, quando componho, e é por isso que eu sinto esta música como se fosse uma imagem.

Por exemplo, [no tema] “Marracuene”, eu estou a ver aquela planície a incendiar. Por isso, tem o cognome, “Spiting fire” (cuspindo fogo).Porque há queimadas, naquela zona, no inverno a partir de Agosto. Eu sempre ficava lá em casa, a compor e a ver toda a paisagem a arder. Muita daquela música que está ali, o fogo a saltar, nalgumas noites queimando tudo e tem aquelas canas-doces a criptar, é um espetáculo. É muito bonito. Eu sempre vivia aquilo e isso influenciou no caminho que eu levo em cada tema. Todos eles têm uma história que eu vejo na cabeça como se fosse um filme.

Estou a ler o último livro de Álvaro de Carmo Vaz, o livro de memórias onde ele conta como foi a sua passagem de Goa para Lisboa e depois para Maputo, na altura Lourenço Marques. Há uma passagem em que ele diz que há um velho, o Dr. Apolinário, que para desmerecer a cidade perguntava a quem falasse bem dela: Aqui há ópera? Em função da natureza do “Timeless”, faço-lhe a mesma pergunta…

Eu acho que a música não tem fronteiras e a sonoridade que a gente dá a uma música, portanto, o arranjo que a gente não classifica a origem ou originalidade daquele tema, começando pela linguagem.

Eu posso tocar qualquer um destes temas que estão no disco numa banda moçambicana e vai soar uma outra coisa, mas a música não deixa de ser aquela música. É apenas a roupagem, que é uma coisa sinfónica e eletrónica, mas isso é apenas a proposta sonora. Portanto, o tipo de música que componho não alterou, é na mesma onda, só que tem este som é cinemático, mas é a mesma coisa. Em termos de pôr isto em palco é complicadíssimo porque não há orquestras sinfónicas, agora já temos umas sementes aí. Não sei se já são capazes de criar um espetáculo inteiro com este estilo, mas é um sonho. Hei-de um dia ver esta possibilidade, mas não é fácil. Mesmo fora, um projecto destes, com orquestra, é uma coisa muito cara, porque envolve muita, mas muita gente. Não é uma coisa de bar, é de teatros grandes, e são coisas caras.

No tema “Kanimambo Bhava” tem a participação especial de Roberto Chitsonzo, Cheny wa Gune, Lucas Macuácua e Paíto Tcheco. Como é que foi a experiência da composição e, depois, a experiência em estúdios? Pergunto a observar que temos estes interpretes fora da sua zona de conforto. Gostava ainda de saber o que ditou a sua escolha.

Esta música foi feita em homenagem ao meu pai. Portanto, para oferecer ao meu pai de prenda de anos. O tema já estava pronto e eu já tinha aquela ideia na cabeça, daquelas vozes, estava em cima da hora. Acho que uns dias antes de ter que oferecer a música, estava pronta. Chamei o pessoal que é próximo, com quem eu trabalho, eram o Cheny, o Lucas, o Roberto, o Paito (que é quem fez aquelas vozes graves).

Em duas tardes, criamos aquilo. Claro que eu dei a ler em português e a gente traduziu. Fomos experimentando as melodias que eu tinha na cabeça. Umas deram e outras não, por causa da letra. Chegamos àquelas que eu fiquei muito contente e eles também não estavam a espera que pudesse fazer uma mistura que soou quase tão natural, como se fosse feito para ser assim mesmo.

E é isto que eu estava a dizer no princípio. A estrutura da música não muda. O casamento de um som de orquestra com um africano não é uma coisa de outro mundo. É naturalmente fazível e simples.

Antes de começarmos a gravar a conversa, estavas a falar que o álbum também é um resumo ou uma parte das suas referências musicais que foste ouvindo. Queria que recuperasses esta ideia.

Acho que tenho muita sorte em termos de bagagem, de ser uma pessoa que estudou música. Tive a sorte de estudar fora, no Brasil e em Londres, mas tenho a sorte de ter elementos daqui, que vivi na infância e que, depois, experimentei e aprendi de todos os artistas com quem toquei. Desde José Mucavel, ao Grupo RM, Ghorwane, Pablo Lapidusas e muitos outros de fora que me dão essa elasticidade na linguagem para compor, tendo sempre uma raiz daqui, mas que consigo ter asas para voar e tocar esses vários pontos por onde passei. Tenho sorte de ter esse repertório que está em mim. Não preciso de pesquisar cada vez que quero compor alguma coisa, são ferramentas e peças que estão cá dentro. Só devo juntá-las e criar alguma coisa que faça sentido.

Porquê “Timeless”?

“Timeless” porque quando estava a criar este álbum, e principalmente este tema, era uma coisa tão elementar. Por exemplo, talvez seja este o tema mais simples do álbum, que é um motivo simples, que vai do princípio ao fim sem alterar. Só cresce e é uma quase uma coisa que pode ir infinitamente a crescer e, depois desce, mas está igual. É uma coisa que pode viver para sempre, intemporal.

Uma vez um amigo ligou-me do Brasil, um profissional espetacular que eu aprecio muito e disse-me que o tema era tão interessante porque parecia uma grama/relva, mas que depois acabava como se fosse uma floresta. A gente vai-se apercebendo que cresce lentamente, sem sentirmos.

Eu disse isto é uma coisa intemporal, mesmo, que pode durar eternamente quase como um loop, um ciclo que não acaba. Esse foi um dos primeiros temas que fiz para o álbum e criei esse conceito do infinito.

Esta tua resposta remete à músicas que não são a experiência mas são a sensação. Há músicas que têm a ideia de uma experiência, de quererem te levar para um lugar e às vezes deixam-te lá. Há músicas que são a melodia e outras a sensação. Para ti é o quê?

Eu gostaria que tu me respondesses essa pergunta.

Para mim é a sensação e experiência de estarmos a caminhar para um lugar e, de repente, estamos no meio de um turbilhão de coisas, nem todas tão decifráveis assim. Confesso que, quando o álbum acaba, a mim, pelo menos, dá uma sensação de abandono. Começamos assim, depois eu tendo de continuar a sentir isto sozinho…

Já agora, faço-te uma outra pergunta. Tu sentiste que o álbum é monótono ou leva-te à sítios que não prevês?

Leva para sítios que não prevejo, sobretudo pelas curvas. Há variações que surpreendem. Não estava a espera que fosse por ali. Essa cena foi das que mais me encantou. É o efeito surpresa das coisas.

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