COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR: O retrato de um passado sombrio com diversas faces

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AS histórias da guerra de destabilização, na memória de Melanie de Vales Rafael, foram sendo construídas a partir dos manuais escolares e conversas corriqueiras. Quando nasceu, em 1995, os Acordos de Roma já tinham sido assinados. Entretanto, depois de representar Rosa, protagonista no filme “Comboio de Sal e Açúcar” – que concorre aos Óscares – tem outro olhar.

O seu papel na longa-metragem, gravada há dois anos, é de uma recém-formada enfermeira, de nome Rosa, que, crescida em Maputo, distante da guerra, decidiu ir ajudar a quem precisava, no distrito de Cuamba.

Nessa viagem conheceu o tenente Taiar – interpretado por Matamba Joaquim -, com quem se envolveu numa profunda paixão e até acabou grávida. O militar perdeu a vida, depois de não resistir a uma bala que o atingiu durante um combate com as forças inimigas.

Toda a história desenrola-se no interior de um comboio, que percorre 400 quilómetros de linhas sabotadas, rumo ao Malawi, vindo de Nampula. Entre os passageiros, com diferentes destinos, estavam as mulheres que cruzavam a fronteira para trocar sal por açúcar.

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Rosa

É dentro desta locomotiva que Rosa é submetida a uma série de descobertas que a surpreendem pela negativa. Estão entre elas o abuso sexual por parte dos militares, liderados pelo alferes Salomão (Thiago Justino).

“Rosa é uma mulher que teve o privilégio de estar distante da guerra, mas decidiu ir ajudar pessoas distantes”, assim a descreve Melanie de Vales Rafael, actriz de 22 anos que a deu vida no “western”. E, disse mais, “acho que ela foi uma grande mulher”.

Sustentou que assim percebe por ela ter optado por um caminho sem retorno monetário, apenas para ajudar as pessoas. “É uma mulher de convicções fortes, que luta para defender o que acredita”, acrescentou.

Rosa é frontal quanto ao que pensa. É corajosa, de carácter digno, guiado por princípios. Mas faltava-lhe alguma sensibilidade, que o contexto do “Comboio de Sal e Açúcar” acabou moldando.

No final do filme, ela é uma jovem mulher grávida, que leva no seu colo outra criança, cuja mãe perdeu a vida ao longo do percurso, no acto de um parto que foi feito sem o mínimo de condições.

“Em algum momento acabamos nos esquecendo que se trata de um personagem e a encarnamos”, disse, a antecipar que “no meu rosto jorraram lágrimas quando levei a criança no meu colo, porque eu estava a sentir a mesma dor que Rosa sentiu naquele instante”.

Neta de avô indiano com uma moçambicana, Melanie de Vales Rafael recorda que a história sobre a guerra sempre foi, de certa forma, distante para si, pois a actriz é de uma geração que desconhece a realidade das atrocidades perpetradas no conflito.

Entretanto, afirma que a produção do filme a ajudou a ter uma noção mais próxima do que realmente terá acontecido e daí, conforme expressou, passou a ter mais respeito por quem foi à luta pela paz e “a agradecer por não estarmos a viver em situação de guerra”.

Ainda é possível sonhar

Melanie de Vales Rafael começou a sua carreira há sete anos, com o filme “República de Mininus”, e esta é a sua primeira participação num filme moçambicano, no qual foi protagonista. “O convite para o casting foi por uma chamada telefónica”, recordou. Eram 600 candidatas para o papel, que se quer era o de protagonista.

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Melanie de Vales Rafael

Hoje passam dois anos desde a produção, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça italiana. “Comboio de Sal e Açúcar” já passou por mais de 20 festivais em todo o mundo e arrecadou uma série de prémios.

Até ao momento a longa-metragem já arrecadou galardões de Melhor Crítica – na estreia -, Melhor Ficção, em Joanesburgo, Melhor Realização, no Egipto, e Melhor Realização, com o acréscimo de guião. Na Tunísia levou o troféu de ouro.

“É indiscritível a sensação que eu tive e tenho ao pensar no Óscar, acho que a língua ainda não tem palavras para tal”, expressou a actriz, para quem “ainda que não ganhemos, valeu a pena”.

Entretanto, não deixa de sonhar com a almejada estatueta que viria na qualidade de Melhor Filme Estrangeiro, que é a categoria para a qual se candidata. Mas a debilidade financeira é um grande entrave que coloca essa ambição em cheque.

De acordo com o documento da “Campanha de Apoio à Candidatura do filme “Comboio de Sal e Açúcar” ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro”, assinado por Djalma Lourenço, director do Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema, são necessários 50 mil dólares, distribuídos por vários itens, para que se possa promover a produção nos Estados Unidos da América.

 O rol de necessidades para uma campanha forte está detalhado no dossier do filme. Consta a contratação de uma empresa de relações públicas norte-americana, também publicidade, correio e logística, visionamentos, viagens e alojamento.

 Melanie de Vales Rafael contou que já houve várias reuniões entre a equipa do filme, entretanto, ainda não há avanços para que o país possa entrar para os registos de Hollywood por ter ganho um Óscar.

Graças ao convite de Graça Silva

 há um “naparama” na corrida ao Óscar

António Nipita veste a personagem Sete Maneiras, no filme “Comboio de Sal e Açúcar”. Pelo que contou, tinha pouca crença na possibilidade de admitir no casting. Soube com vizinhos que acompanham a sua carreira sobre o assunto, mas ignorou.

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António Nipita

Quando recebeu a chamada da actriz Graça Silva (já falecida) a incentivar-lhe a participar, não teve outra alternativa senão aceitar. “Eu tenho muito respeito por ela, já tínhamos contracenado juntos e por isso não podia ignorar uma sugestão dela”. E assim foi.

Sete Maneiras é um o comandante que conduz as tropas que fazem a protecção e guarnição da locomotiva. Não se trata de um indivíduo normal. Os que o rodeiam acreditam que ele possui poderes sobrenaturais e que tem contacto com os espíritos antepassados e domínio da natureza.

As suspeitas dessas crenças avolumam-se pelo facto de durante o percurso, por várias vezes, antecipar a acção do inimigo, a partir, por exemplo, do som dos pássaros. Sempre com um amuleto nas mãos, é uma pessoa de poucas palavras, prática.

Quem o encarnou, António Nipita, pelo contrário, gosta de soltar o verbo, tal como se viu durante a conversa que teve com o “Notícias”. “Eu não gosto que digam entrevista, dá-me algum medo. Prefiro que chamemos de conversa, aí me solto”, explicou no primeiro contacto ao telefone.

Sempre a reiterar o papel que a falecida actriz Graça Silva teve para que ele assumisse este desafio de mergulhar neste filme, disse que, depois do incómodo e das incertezas do casting, assim que recebeu o contracto pôs-se a estudar o “eu” no qual se transformaria. Para o seu papel concorreram 750 actores.

Antes de mais, é preciso assumir que o facto de ter passado pela vida militar já o dava alguma vantagem, pois conhece os labirintos das personalidades que os quarteis moldam no quotidiano das suas actividades.

Foi neste contexto que explicou que “na vida militar quase ninguém é chamado pelo seu próprio nome, há sempre alcunhas que têm a ver com o carácter da pessoa, e Sete Maneiras não foge a essa regra”.

Acrescentou que a pouca fala se deve, entre várias razões, ao facto de o comandante ter a fama de possuir uma mão dura e de ser pouco sensível nas suas decisões, que são sempre guiadas pela razão, demitindo, desta forma, o lado emotivo do indivíduo, sobretudo em tempos de guerra.

Recordou que, ao pegar no guião, logo percebeu que teria um grande desafio pela frente, porque o personagem que lhe fora proposto não era de um tipo de pessoa comum, mais se pareceria com os míticos “naparamas” – que igualmente Mia Couto descreve em Terras Sonâmbula.

“O Licínio diz que ele é curandeiro, mas eu acho que não, porque ele, na verdade, é um naparama”, comentou António Nipita, analisando o seu personagem. A dúvida sobre se conseguia ou não encarnar o personagem foi um fantasma que o atordoou por muito tempo e que era “fintado” pelos ensaios em várias noites.

O objectivo, prosseguiu, foi transformar o Sete Maneiras à sua maneira, para que fosse natural a sua representação.

“As pessoas o temem, não o encaram porque sabem que estão diante de um homem com poderes sobrenaturais”, situou António Nipita.

O actor fez a sua carreira no teatro, pelo que se adaptar ao cinema, com câmaras à volta, foi um dos maiores desafios que enfrentou na produção. Contou que Thiago Justino serviu de grande ajuda, pois foi ele quem conduziu a preparação dos actores.

Entrou por acaso e concorre ao Óscar 

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Comandante Sete Maneiras

A sua entrada para o teatro, onde brilhou na peça “O Libreto da Miséria”, peça escrita por Eduardo White, foi por acaso. Ia para Casa Velha assistir aos ensaios. Não faltava, a menos que por alguma razão imperiosa.

A convite de Mário Mabjaia, faz o primeiro ensaio, embora, pelo que recorda, muito tímido, uma vez que não se via a “fazer as pessoas rir”, que era como se concebia o teatro nessa altura. “E ainda é assim, somente o Mutumbela Gogo é que mantém uma postura diferente”.

Mas ficou e depois do teatro foi uma série de spots publicitários. Hoje actor é a profissão que coloca pão na sua mesa.

“É uma honra e motivo de orgulho para mim concorrer ao Óscar”, expressou António Nipita, que considerou ser o enaltecer da bandeira nacional ao lado dos melhores do mundo.

A guerra fê-lo perder-se da família

António Nipita é formado em Eletricidade Industrial, na Alemanha. Beneficiou das políticas socialistas que possibilitaram muitas crianças desfavorecidas a estudar na diáspora. Tais são a antiga Checoslováquia (hoje República Checa), Alemanha, Jugoslávia, Cuba, Rússia…

Entretanto, devido à guerra, quando voltou se perdeu da sua família e acabou ficando em Maputo. O actor é natural de Nacala, província de Nampula. Eis uma das feridas que as atrocidades dos confrontos deixaram em si. Só vinte anos mais tarde é que voltou a encontrá-la.

 “Essa é uma história que tem a ver comigo, pela minha história”, assumiu, para de seguida expressar que “o filme aproxima as pessoas, porque conta um passado comum de todo o país”.

À semelhança de Licínio Azevedo e Melanie Rafael, assume que já é um ganho ombrear com os melhores do mundo, entretanto, não dispensaria o apoio financeiro para que o filme fosse promovido nos Estados Unidos da América, que é onde residem os votantes.

Sonoridades que acrescem o drama

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João Carlos Schwalbach

A banda sonora do filme foi feita por Joni Schwalbach. Na manhã de ontem, recebeu-nos no seu estúdio. Não foi alheio ao sentimento de honra em relação à possibilidade do Óscar e que tem expectativas de que a ajuda apareça antes de 18 de Janeiro, dia do anúncio.

Depois de já ter feito a banda sonora de cerca de 20 filmes, confessou nunca se ter imaginado nesse patamar.

 Pelo que contou, a banda foi sofrendo várias alterações ao longo da produção do filme. A meta era “algo que fosse subtil, que não eliminasse o comboio, que é o personagem principal”.

Para alcançar o desiderato, investiu em instrumentos da região norte do país, que é onde a história se desenrola, embora as filmagens tenham sido feitas na região sul, devido à exiguidade de dinheiro.

Há mbira, xigubo, violino e o roncar do comboio a estacionar. Este elemento, conjugado com o trabalho de fotografia, o argumento e a naturalidade dos actores, dá à sonoridade maior impacto.

O processo da concepção foi sempre obedecendo à personalidade de cada personagem e depois os momentos, cada história que alimenta a narrativa toda.

Pelo facto de, embora se tratasse de uma história de guerra, não haver cenas de violência, no entanto que tal, se não um cenário todo que cria imagens desse contexto, a música aparece aqui como uma espécie de “ajudante do narrador”, que dramatiza cada momento.

Filho de casal de médicos, Joni recorda da guerra pelo que ouvia dos seus pais, em casa. “São parte das minhas memórias de infância e, ainda que não propositado, não ignoro a possibilidade de isso ter influenciado no meu trabalho”, disse.

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