Ingredientes do cocktail de uma revolução estética (II)*

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Orquestra Djambo

Se o jazz entusiasma aos músicos e instrumentistas da actual Maputo nos anos 60 do século XX, não parece que tivesse uma grande audiência. Por razões ainda por esclarecer, entre as quais, até provem contrário, pelo facto de ser um género surgido pelos sopros, execução e composição de negros. Não nos podemos esquecer que o país, então província Ultramarina portuguesa, estava governada por um regime colonial e racista.

Olhando hoje para esse período, não se pode dissociá-lo do contexto que era vivido na metrópole, Portugal. Quando, em 2006, o musicólogo português Hélder Bruno Martins lançou o livro “Jazz em Portugal (1920-1956) – Anúncio – Emergência – Afirmação”, numa entrevista à RTP, disse que a pesquisa “quis perceber como foi possível o jazz emergir e afirmar-se em Portugal, sendo um comportamento expressivo que nada tem a ver com os elementos vigentes na época, como o ruralismo, conservadorismo, tradição e um sentimento judaico-cristão muito latente”. A que acrescento o facto de desprezar e até negar, como hoje se vê no debate sobre Restituição, a cultura e a arte negra.

O questionamento de Hélder Bruno Martins traça o perfil aproximado dos residentes do centro urbano da actual Maputo. Sem nisto ignorar que nos anos 60, ainda se vivia a ressaca da recusa da negra norte-americana Rosa Parks, em 1955, em ceder o seu lugar num autocarro a um passageiro branco no Estado de Alabama, dando origem a um movimento anti segregacionista em Montgomery. O jazz através do hard bop e o soul tomaram estas dores como suas e se foram materializando a contestar a condição em que se encontravam, de injustiça social. O que, naturalmente, o associa ao espírito emancipatório e revolucionário que estimulava o continente africano.

José Duarte, uma figura central na divulgação do jazz em Portugal, com o emblemático programa de rádio 5 minutos de Jazz, há cinco anos numa entrevista a RTP 2 por ocasião dos 50 anos do seu programa, disponível no YouTube, contou que o contexto do racismo e depois da luta colonial dificultaram a aceitação do jazz na comunidade portuguesa.

Ainda em 1963, dois anos depois do Dr. Eduardo Chivambo Mondlane ter visitado o país, já funcionário das Nações Unidas, António Sopa regista a vinda do guitarrista Ken du Plessis e do sul-africano Peter Hubner ao Hotel Polana. Este evento teve muita divulgação do jornal A Tribuna.

No mesmo ano, com participação da banda do navio de guerra norte-americano USS Spiegel Grove, por iniciativa do Consulado Geral dos EUA, em Lourenço Marques, realizou-se, no estádio da Malhangalene, um grande espectáculo. O Rádio Clube, depois de transmitir sessões de jazz na estação C, fez o mesmo, mas de forma permanente na Estação A, a partir de 1 de Junho de 63, altura em que o regime combalido com as guerras de libertação das suas colonias simulava uma abertura para integração dos africanos para sustentar a ideia de um regime mais soft.

Em 1964, A Tribuna, ainda em fevereiro publicava um artigo no qual lamentava o facto do movimento que se vivera no ano anterior ter-se desvanecido. Como aliás, foi a tónica do circuito ao longo dos anos. Em agosto de 64, com apoio do referido jornal, realiza-se uma jam-session no cabaré A Cave, liderada pelo trompetista português Fernando Albuquerque, na altura residente na actual Maputo.

Nesse episódio, entre várias correntes do jazz executados, “mereceu, contudo, maior aceitação do público presente o jazz liderado pelos elementos da Orquestra Djambu”, projecto que mais tarde ocupa posição relevante e incontornável na história da Marrabenta. Entretanto, na mesma sessão, estiveram presentes ainda Vasco Henriques (flauta), Zeca da Silva (piano), Guita da Silva e Fernando Albuquerque (contrabaixo), Carlos Duarte, Augusto Pereira, Alexandre Goveris, Edmundo Gomes (bateria), Manuel Hassane (trompete), Luís Chess (sax alto) e Tiago Bila (sax tenor).

Apesar da oscilação da audiência, António Sopa nota que, os músicos moçambicanos e residentes não perdiam as sessões. No dia 26 de Maio de 1969, a Associação Académica de Moçambique, realiza uma sessão na expectativa de criar uma secção de jazz na agremiação. Esta colectividade constituída por estudantes universitários tinha um cunho político que tomava, muitas vezes, uma direcção contrária ao regime colonial. Testemunhos do, entre outros, eng. Álvaro de Carmo Vaz, no romance autobiográfico Um Rapaz Tranquilo, atestam esta posição. Apresentadas pelo fotojornalista de costume, Ricardo Rangel, as sessões iam crescendo em números de músicos moçambicanos. Nessa sessão de Maio, tocaram, por exemplo, Bonifácio Fernandes (Boni) no piano, Assiante Gonzaga (Unguzana) no sax alto, Young Issufo (sax tenor), Fernando Tamela (trompete) e João Domingo, no contrabaixo.

*Trabalho em progresso

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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