A inconveniência e seus gemidos

0
159
Obra de Matheus Sithole

O pfom pfom pfom do arranque dos comboios, anuncia um novo dia. Na cama ao lado, a Laura geme para o namorado que se esmera ignorando a minha presença. Ou talvez isso é que o excita. Quer me impressionar.

Já, para já, tinha sido difícil apanhar sono. Houve uns navios a descarregar a madrugada toda. As correntes a tombar no espial do Porto. As vozes de comando e de obediência. A bozina dos camiões. Até parece que eles estão todos aqui ao lado da minha parede.

O comboio. Ao ouvi-lo, como já é quase ritualistico, levanto a cabeça, depois de baixar o cobertor, e pela janela sem cortinas o cinza do nevoeiro que parece fumo de algum fogo alto algures. Os últimos maios, junhos, julhos e agostos têm sido assim. As tais mudanças climáticas que só pareciam assunto de TV, como tem dito o Léo, estão aqui. Mas, foda-se!

Tenho de falar com a Laura. Arranjo um momento durante o dia. Assim não dá. Ela geme, treme e as vezes grita. Pelo amor de Deus! Quero ainda explorar uma soneca, no aguardo do alarme, que está para as 6.35.

Não para. Isso. Vai! Cachorro, sente a tua cadela. És só meu amor? És? Me diz! Promete que só eu vou sentir esse teu pau! Promete! Gostoso, estou a ma vir! Estou a ma vir! Estou ma vir! Aí mesmo, isso não pára caralho!!!

Aff! Até me apetece chamar ao guarda, que isto aborrece. Porquê que eu tenho de ouvir essas tretas? Eu só quero dormir. Mais um pouco. Ainda não quero pensar naquela brucha que dá Química e não me deixa passar. Estou a repetir a cadeira pela terceira vez. Espero que álgebra e análise matemática tenha outros docentes. De preferência homens. As mulheres são umas chatas. Mas não quero pensar nisso antes de cruzar a porta da Faculdade.

Grunhidos da cama ao lado, desta vez são dele. Aff! Ninguém merece. E nem sei onde tenho os auriculares guardados. Não faço a mínima ideia. Aff! E a esta hora, 4.28, não há ninguém on. Aff! Pelo amor de Deus.

Do corredor do nosso piso chegam ruídos de passos firmes. Parece um grupo. São muitos passos. Algumas vozes se sobressaem mais que as outras. São masculinas.

Go go go go. Há uma certa agressividade nos modos em que batem a nossa porta. Aqui na pousada não se respeita a ninguém, é oficial. Ignoro, de propósito não quero e nem vou abrir. A insistência. O namorado da Laura, aflito se veste e segundos. Go go go go, insiste! A voz chama pelo meu nome e da Laura. Fingimos demência. Não, fingimos que estamos embaladas no sono.

Go go go go. Chama pelo meu nome e da Laura. Sem combinação prévia nos mantemos em silêncio. É o inspector, se apresenta. O cheiro do fumo já começa a entrar pela janela. O inspector arromba a porta. Houve um curto circuito na cozinha e pegou fogo – anuncia com urgências. Saiam já daqui antes que o fogo atinja as botijas – ordena já a sair.

Será que ele me viu? Pergunta o namorado da Laura enquanto de pijamas já estamos a percorrer o corredor. No passo apressado acho que ela abanou a cabeça em sinal de negação. Pergunta-me também. Sei lá, eu – respondo.

Ponho-me a correr e me lembro que esqueci de levar o estojo de maquiagem ao ver os carros das TV’s a estacionar no portão. Aff! Não vou poder sair na televisão.

Continua para a semana

Artigo anteriorHelio Beatz: Está bater ter identidade
Próximo artigoO dia que disse adeus a Deus
É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. Foi Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto. E actualmente, é Gestor Cultural do Centro Cultural Moçambicano-Alemão

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here