D.R.P protagoniza noite “so good” no Running From The Urb

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Saíram do quarto escuro, apresentaram o álbum “Era Uma Vez” (2002), depois fugiram dos holofotes por quase uma década, retomaram com “Agora ou Nunca” (2020), álbum que foi reapresentado no último final-de-semana no Museu Mafalala, como parte do projecto Running From The Urb.
O concerto dos D.R.P (Dark Room Productions) estava agendado para o início da noite de sábado, mas os organizadores prepararam um programa diversificado no período da manhã e ao longo da tarde. A ideia materializava um dos objectivos do projecto Running From The Urb, co-produzido pelo Museu Mafalala e MAC – Creative Lines, que é a exaltação da periferia e seus ícones, bem como a reinvenção da memória colectiva e reivindicação de espaços marginalizados, através da música, fotografia, vídeo e outras formas de expressão.

Slammer no Mural dos Poetas
Areia quente, o sol escaldava os versos que saiam da boca da dupla de slammers Evandro Sigaval e Neide Sigaúque. Inspirados pela força dos poetas grafitados na parede, cuspiam versos com convicção. Sem a mesma poética de José Craveirinha, Rui de Noronha ou Noemia de Sousa, o ambiente lírico da Mafalala transformava seus versos rimados em pistas para pensar numa revolução que um dia ainda vai chegar.
Com alguns mililitros de ousadia dos poetas enaltecidos no mural, os jovens slammers usaram os seus corpos para ressuscitar a valentia da poesia e reviveram a utopia que transformou a periferia no centro da luta pela emancipação do futuro cidadão.
O azul do céu levado para alguns traços do mural, as cores do sol representada em algumas pinceladas do monumento e a postura entusiástica dos jovens prendia a atenção do público, que surgia dos becos estreitos da Mafalala.

Evandro Sigaval e Neide Sigaúque
Evandro Sigaval e Neide Sigaúque

Shot B no Estrela
Em paralelo, o artista multidisciplinar Shot B passou a manhã e o fim da tarde manejando latas de spray. Uma das paredes da Escola Secundária Estrela Vermelha foi reanimada dia antes com cimento e a esperança de deixar de ser o ponto de encontro de lixo e litros de outras impurezas.
Introspectivo, o grafiteiro deixava as cores expressarem a sua vontade, sob o olhar atento dos vendedores do Mercado Estrela e alguns transeuntes curiosos, que se questionavam como vai terminar o mural.
“A obra está quase terminada, mas vou continuar a mexer nela para alcançar o pretendido”, disse, para depois clarificar que no mural foram representados os membros dos D.R.P Gusto e D. K. Vader, rodeados por elementos do hip-hop e outros traços que recebem vários significados aos olhos de quem os aprecia.

Shot B

Do check-sound a euforia
Antes dos D.R.P e The Lights Out Band tomarem conta do palco, os Dj convidados misturavam os sons dos anos dourados do hip-hop mundial com os moçambicanos. O resultado era a euforia do público, que sem argumentos dançava sem coreografia, enquanto olhava os headliners a prepararem o seu espírito para o grande momento.
E porque quem espera alcança, os DRP subiram ao palco para mostrar o novo álbum que foi preparado a partir de 2017 e só veio ao público em 2020.
Alguns dos fãs já haviam escutado o colectivo acompanhado com banda e por isso já previam o que aconteceria nos momentos seguintes.
Enquanto era feito o último check sound, os mais nostálgicos recordavam os momentos altos do agrupamento. O colectivo foi formado por Luciano, DK e Gusto, três aficionados pelo “freestyle” e por escrever raps, que por afinidade fundiram forças com outros membros do B.T 2 (Kwitas, Fresh Nunas e Mollas). O nome do grupo, Dark Room Productions, surge em referência ao quarto/estúdio escuro, com pouca ou nenhuma luz e as cortinas fechadas, do DaBrain onde eles criaram as primeiras músicas.
Na altura, em 2002, o conjunto foi oficialmente formado e administrado pelo DaBrain – o principal produtor e dono do estúdio. Com facilidade as músicas foram badaladas e ovacionadas pelas produções de Leeleo, Mollas, DaBrain, Yillah e Kwitas. Os sons feitos no centro da cidade chegaram as periferias graças ao papel das rádios. Exemplo disso, em 2004, o DRP ganhou o prêmio de “Canção do Ano”, promovido pela 9FM, pela música “So Good, So Right”, produzida por Mollas.
Depois de algum tempo, com várias músicas gravadas, o DRP ganhou acesso ao estúdio de Nehazi Productions (N’naite Chissano), onde o grupo orquestrou o seu trabalho discográfico de estreia, lançado em 29 de julho de 2005. O álbum “Era uma vez” foi um marco para o hip-hop moçambicano.
Com o álbum a bombar, entre os anos 2005 e 2007, o grupo realizou concertos um pouco por todo país, chegando em cidades como Nampula, Beira, Manzini e Mbabane (Suazilândia) e Joanesburgo (África do Sul).
Actualmente, o agrupamento não tem a composição inicial, alguns membros estão fora do país e distantes por outros motivos. No palco, Gusto e DK estavam acompanhados por D Flah e os membros do The Lights Out Band: Bass: Nelton Miranda, Guitar: Luy Valigy, Bateria: Iván Ferreira.

O concerto vai começar
O prato principal do concerto foi “Agora ou Nunca”, que foi trabalhado de 2017 a 2020. Mesmo sem a presença no palco de grande parte dos convidados para álbum, Duas Caras, 3H, Mark Exudos, Simon Silver, Hernani da Silva, Hot Blaze, Tegue e Ell Puto, o colectivo deu conta do recado. Quem nunca havia escutado as músicas do álbum, que teve a produção de Leeleo, nem notou.
Os The Lights Out Band recriaram os beats de Leeleo, sem matar a vibração e groove hip-hop. A composição sonora tão em evidência, que por vezes as vozes dos rappers pareciam figurantes. No entanto, com ajuda do técnico de som, Gusto e D K assumiram o papel principal da trama e o vilão saiu pela porta pequena.
Com letras em português e inglês, D.R.P cantavam o amor, a amizade e a celebração da vida. Temas como Side To Side, onde vimos D Flash a sair do backgroud para assumir papel preponderante, e Now You Know levaram o público ao delírio.
O momento mais alto do concerto viveu-se quando o agrupamento interpretou algumas faixas do álbum “Era Uma Vez”. Quando chegou a hora de se tocar o tema “Get Together”, Regina Santos, do colectivo Gra’Mah, saiu da plateia e subiu ao palco e protagonizou um dos momentos mais impactante do evento. Com razão, a música celebra a amizade, quebra fronteiras e imana vibrações positivas.
Com o público a entoar todos os trechos das músicas, até os tons mais altos da guitarra, o concerto conduziu alguns dos membros da plateia ao êxtase. Para fechar o concerto, como já era de esperar, tocou-se, pela segunda vez, a música “So Good, So Right”.
Mas não era o fim do concerto. Gusto deixou o microfone de lado, vestiu a capa de DJ e emanou sons com vibes que circularam além museu, chegando inclusive aos becos estreitos do bairro.
Pela noite a dentro, outros DJ comandaram o público, que hipnotizado deixou-se embalar pela música. Sem ensaios, a dança soltou animais, enjaulou medos e deixou a periferia mostrar o seu lugar na cidade…!

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