Alguns papéis na minha mesa 

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Queria algumas notas, a imagem de um ditador implacável a olhar para mim, a dizer que de lábios colados, com gestos firmes e arrogante, posso ter o que preciso. Meus dedos pesados, meus pensamentos perdidos, sem concentração para escrever mais do que estou a pensar agora. Quem me dera minha vida ser emoção, uma série de investigação policial: True Detective.

 Meus colegas já estão aqui. Meus colegas passaram por mim, preencheram os assentos. Todos entraram na sala e eu sonolento. Meus colegas olham para mim, conhecem minha expressão, todos os meus gestos faciais quando durmo.  Só tão previsível. 

Na minha secretária o meu celular mudo, aponta para sul, meu segundo aparelho está em direcção ao norte, o livro oeste, o bloco de notas capta os ventos do sudoeste e eu a leste de tudo, sem forças para dar direcção a este texto que escrevo para calar algumas vozes negativas, sussurros de entidades que querem que não dobre os joelhos e me renda a um Ser Maior. 

Os outros percebem que meus lábios estão secos, que raramente olho no olho, que levo a língua para os lábios e que perdi a substância que lubrificava os meus lábios. Baixo a cabeça, olho para os teclados, sinto uma coceira estranha nos dedos e paro o texto. 

É complicado recomeçar, arrumar a mesa, organizar, tirar a poeira, respirar longe das impurezas do caos. A coceira domina meus dedos, tenho que colocar um ponto final no texto, lavar as mãos, lavar a cara, combater a insônia, ler alguns versículos que reacendam minha existência e um pouco de emoção a este monólogo sem emoção. 

Todos olham para meu ecrã, percebem que escrevi mais que um headline, minimizo o texto, tenho uma mesa por arrumar. 

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