Roberto Isaias: Vamos ter Kappa Dech para sempre

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Depois de cerca de 10 anos de interregno, os Kappa Dech estão de volta. Os integrantes decidiram (re)unir-se para, em conjunto, voltar a tocar, cantar e encantar as noites de Maputo e não só.

“Reencontro” é o título dado ao espectáculo concebido para marcar o retorno desta que é uma das bandas nacionais de bandeira. O nome é auto-explicativo e surge como propósito de marcar uma viragem não só para a banda, mas também para a indústria de espectáculos em Moçambique.

O show vai acontecer amanhã, 11 de Novembro, a partir das 19, na Galeria do Porto de Maputo e acontece numa altura em que os integrantes já seguiam carreiras a solo, durante o período fora da banda. Ao palco do “Reencontro”, os Kappa Dech convidaram os GranMah e Moticoma , duas bandas que também sumiram dos palcos há algum tempo. Portanto, é um “Reencontro” de três bandas e seus públicos, depois do alívio das restrições anti-pandemia.

O conjunto dos Kappa Dech nasceu no final da década 90 e início dos anos 2000. Durante os primeiros anos de existência, além de actuar no país e no mundo a fora, o grupo lançou dois álbuns de grande sucesso, nomeadamente “Katchume” (1998) e “Tsuketani” (2001). Actualmente, o conjunto conta com novos trabalhos. São músicas inéditas que serão apresentadas em espectáculo, onde também serão remisturadas as faixas que compõem os discos.

O espectáculo acontece depois de, nos últimos cinco anos, o grupo já se ter apresentado em dois dos principais feistivais de música ao nível nacional, nomeadamente o Festival Azgo e no Festival do Tofo. As participações ocorreram depois do anúncio, em 2018, do retorno dos Kappa Dech, pelo Ex-Primeiro Ministro, Carlos Agostinho do Rosário.

No “Reencontro”, sobem ao palco não só para reviver o brilho e o grande sucessos do passado. A ideia, segundo Roberto Isaias, é devolver o costume dos espectáculos com banda, que já era tradição em Maputo. O vocalista assume os desafios actuais e assume como maior responsabilidade do grupo ajudar na (re)estruturação da  indústria cultural no país.

Nas próximas linhas, Roberto Isaias explica, em linhas gerais, do que se pretenda que seja o “Reencontro”, bem como os passos subsequentes que o conjunto já está a dinamizar, para garantir a continuidade.

JÁ SOMOS MADUROS

A banda se reencontra numa altura em que boa parte dos membros segue carreira a solo. Até que ponto isto é um desafio?

Estou na banda Kappa Dech, mas tenho uma carreira a solo. E isto não prejudica a banda. Se reparar, vai perceber que os melhores músicos deste país sempre um elemento, ou dois, dos Kappa Dech, que fazem de suas bandas. Não há músico de renome, aqui em Moçambique, que nunca tenha trabalhado com um elemento dos Kappa Dech. Os instrumentistas também fazem carreiras a solo. É difícil encontrar quem não tenha trabalhado com os Kappa Dech.

Não há problema algum. O Zé Pires tem um projecto dele, também tenho o meu. O Stélio tem tocado com Ghorwane. O Rufus também toca, muitas vezes, com o Chico António. Não há incompatibilidade. Já somos maduros, mas há anos tivemos problemas por causa disso. Hoje amadurecemos e o mercado é muito pequeno para exigirmos exclusividade.

Então, a ideia é juntar os membros e voltar a caminhar como banda…

Também queremos gravar um disco e fazer concertos não só na Cidade e Província de Maputo, mas queremos chegar a outros cantos de Moçambique, sobretudo nos distritos do centro e norte, onde também tem bandas como os Massukos e outro pessoal com quem fazemos parceria de palcos e estúdios. Há pouco, estive em Tete, onde gravei uma música com Mister Nyungwe. É neste âmbito que queremos prosseguir para alavancar o sector.

Como é que foi pensado este “Reencontro”?

O regresso foi em 2018. Este é o “Reencontro”. Partipamos no Festival Azgo, depois fomos ao Festival do Tofo, em 2019. Parece muito pouco, mas uma banda como os Kappa Dech tem uma estrutura muito grande e movimentamos muitos recursos para fazer um show. Tivemos as honras de o nosso retorno ter sido anunciado, na altura, pelo Primeiro-Ministro, Carlos Agostinho do Rosário. Depois veio a pandemia, onde ficamos em Lockdown, como a parte mais afectada pela crise foi a indústria de espectáculos. Em seguida houve abertura para alguns eventos, mas não era propriamente para espectáculos de bandas como Kappa Dech, Ghorwane, Granmah e Moticoma.

Dizemos “Reencontro” porque sentimos que na indústria de espectáculos com bandas, aqueles que a Cidade de Maputo e o país todo estava habituado a absorver, com os Djakas, Massukos, Kappa Dech, Rockefellers e outras praticamente desapareceram.

Apesar do tempo e suas transformações, ainda teremos os Kappa Dech hoje…

Vamos ter Kappa Dech, agora, para sempre. A não ser que apareça uma outra pandemia. Essa dos macacos já se conseguiu controlar e não vai ser como a Covid-19. O mercado também está em processo de recuperação, o que ajuda muito, porque fazer música custa muito dinheiro. Os tradições patricinadores das indústrias culturais e criativas também estão em processo de recuperação económica. Por isso a patrocinar, mas ainda em proporções muito baixas.

Isto é complicado. Estamos a fazer este show sem patrocínios. É vontade própria e o cometimento que temos com a indústria musical.

E o entrosamento do grupo, depois deste tempo, como é que tem sido? Desde os ensaios até às apresentações?

Estamos a ensaiar no Friend Studios, para este show, em particular. Tem sido um trabalho muito profissional, aliás, na altura em que estivemos parados, cada um esteve a trabalhar nos seus projectos particulares, o que possibilitou muito aprendizado, dentro e fora do país, que hoje nos faz ser uma banda coesa.

Em palco, estarão os KappaDech, mas, também, os Granmah e Moticoma. Por que estas duas bandas?

Não era possível convidarmos todas as bandas. Olhamos que são as bandas que muito poucas vezes aparecem em palco e o público, de certeza, que tem saudades de vê-las em palco. Por isso achamos que eles são as pessoas ideais para nos fazerem companhia neste pontapé de saída que estamos a dar. Vai haver espaços para parcerias com os Djakas, os Rockefellers Ghorwane e, talvez, Moz Pipas, que andam desaparecidos. Mas tudo isto deve-se ao contexto económico e social, em que os promotores preferem ir buscar trios, duetos e artistas a solo, porque acreditam que investir numa banda é oneroso.

Em termos de repertório, o que é que a banda leva ao “Reencontro”?

Será uma mistura entre os dois álbuns, “Katchume” (1998) e Tsuketani (2001). Vamos apresentar, também, algumas coisas inéditas, mas o foco vai ser estes dois álbuns. Há, pois, coisas inéditos. Coisas que ainda não foram registadas e que nunca tocamos. Vamos tocar pela primeira vez. As músicas, todas, não vão ser tocadas como estão no disco. Vai haver uma outra roupagem. Certas transformações.

A banda parou há cerca de uma década. Por que agora este retorno?

Porque sentimos que o momento é propício e fértil. No fim dasrestricções da pandemia, viram o boom de músicos internacionais que vieram cá e acho que não é justo. É precisamos apostar no produto local, na nossa música e temos que valorizar os nossos artistas. Achamos este um momenbto certo, sobretudo agora, no final do ano, para que as nossas mentes entrem para o próximo ano mais concentradas em fazer mais coisas boas, como esta que vamos fazer agora.

Depois do “Reencontro”, o que é que se segue?

O próximo passo é começarmos a gravar e registarmos uma obra, o terceiro disco. Vamos criar condicções, porque, como devem saber, não é fácil neste momento, mas já temos pessoas interessadas em apoiar, nesse sentido. A Galeria [do Porto de Maputo] é o sítio que se mostrou aberto a colaborar com os Kappa Dech. Vai ser um trabalho onde não vamos fugir a regra. Continuamos na mesma linhagem, para não dispersarmos os nossos fãs. Vamos continuar neste mesmo envelope que nos caracterizou nos últimos 25 anos.

E, depois, o “Reencontro” também será tentarmos voltar a juntar as bandas de Moçambique. Não queremos competir com ninguém. Muito pelo contrário, queremos impusinar os outros, por isso temos os Granmah e Moticoma, como convidados. Queremos crescer todos juntos, com os nossos colegas músicos.

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