Era uma vez um escritor, uma poeta e uma menstruação atrasada…

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Um país inteiro fica às escuras, repentinamente. Parece que o sol é que desapareceu, a lua só, não tem luz e pode ser sangue. Este cenário descrito é projectado num livro que Motta está a escrever. Luíz, seu editor, um escritor falhado, aguarda pela obra para imprimir e publicar muito motivado pelo respeito ao autor que teve boa recepção na obra anterior. Será um ataque terrorista?

Motta, protagonista do romance “Marizza” de Mélio Tinga, vive as letras além da ficção, na docência universitária que concilia com as palestras e os corredores dos seus pares da academia e da escrita.

Conhecer uma jovem deslumbrante e ainda por cima poeta foi como descobrir uma nova sonata do rouxinol, daquele tipo que fica no inconsciente, instala-se corpo adentro e de tempos em tempos se repete no ouvido. Apaixona-se. Permite-se viver intensamente como sempre fez quando, enquanto escrevia, no fundo, Anatole, sua esposa, tocava, no piano, notas de qualquer obra prima da Nina Simone. O encanto cai por terra quando Marizza o informa: “a minha menstruação está atrasada”.

Recuperando o primeiro parágrafo deste texto, noto a ficcionalização da ficção, à semelhança de Hamlet que representa dentro da peça homónima sheakespeariana, depois de saber que Cláudio, irmão do pai, executara o rei, seu progenitor, para se casar com a rainha e usurpar o trono. Nesta obra, o narrador que pode assumir a paradoxal dualidade de protagonista e antagonista, apresentando a luz da sua visão de mundo (ao estilo de Gregory Samsa), vai dando a ver alguns capítulos do livro no qual está a trabalhar.

Entramos para o romance com uma descrição poética da realidade que cristaliza Jaques Ranciére, quando nos recorda que a imagem não é exclusividade do visível. O narrador pincela a realidade com as suas sensações. Ainda em “Transbordamento do corpo”, primeiro capítulo de “Marizza”, projectam-se as peças do puzzle das tramas e peripécias entre as quais as acções do enredo se desenrolaram. Não como quem dá o endereço para um ponto específico apesar de ir insinuando.

O leitor acompanha o crescendo do que se vai tornando problema para Motta ao recordar-se da menstruação atrasada. Num misto das recordações dos seus traços, toques e líquidos. Olhar para a esposa com a mente noutra perfura-o com a mestria, lentidão e precisão de um torturador psicopata a desferir mais uma vítima.

Psicologicamente, o narrador, ao longo dos seis capítulos do romance, me recorda o personagem Raskolnikov, protagonista de Crime e Castigo de Dostoievski. Se o russo assassinou duas mulheres, sob Motta recai o delito de adultério, do qual resultou uma gravidez.

Ao conduzir o enredo através das percepções de Motta, o autor nos permite aceder aos dilemas da escrita para o escritor, no seu exercício de esculpir o belo, de busca pela palavra cert(eir)a, desconstruindo também o ilusório mito da esperançosa espera pela chegada da musa para criar universos no papel em branco do word.

De propósito, me parece, se considerarmos o “conto transparente”, que é literalmente obediente ao título na coletânea “a engenharia da morte”, sua segunda obra literária, Mélio Tinga vai na direcção da arte contemporânea, na lógica duchampiana mesmo, do absurdo para chocar e questionar os limites do escritor ou mesmo do Homem na sua ordinária Existência. Senão vejamos as pausas do texto com as longas notas de rodapé, nas quais o narrador dialoga com o leitor. Nesta estratégia ousada de ir ter com quem lê, igualmente aplicada com singularidade, revejo o intenso narrador do conto “Construção” de Ungulani Ba Já Khosa publicado na Revista Charrua número 001.

Neste romance, vencedor do Prêmio Eugénio Lisboa, o autor entra para a tradição de escrever sobre escritores. Não como o patrono deste galardão na sua vasta publicação crítica e intelectual. Algo mais próximo de Mia Couto, neste seu “Mapeador de Ausências” ou Chico Buarque, com “Essa gente”.

“Marizza” é temperado com sensibilidade e as tais eros e thanathus, por muitos celebrados como traços ou ferramentas do romantismo eternamente eficazes.

Mélio Tinga estreia com a colectânea de contos “O voo dos fantasmas”, de seguida “Ferramentas da morte”, em meio aos dois livros, colaborou nas antologias “O hambúrguer que matou Jorge”, “Espíritos Quânticos” e co-coordenou os dois volumes da colectânea “Crónicas e contos para ler em casa”. Recentemente publicou, em colaboração com David Bene “Objecto Oblíquo”.

Com este “Marizza”, seu terceiro livro, a temática da morte vai se consolidando como uma das temáticas características deste autor nesta fase da sua escrita. Nas suas anteriores publicações individuais os títulos já são indicadores dessa tendência em falar da perda, do fim ou novo começo (?). Nesta que é igualmente a sua estreia no romance a Marizza é órfã de pai e mãe e Anatole pode estar a permanente nessa sombra devido a sua doença.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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