Tiros no escuro, ofuscam o sol

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Em ‘Um ano, uma noite’, o espanhol Isaki LacuestaTiros no escuro ofuscam o sol   revive os atentados de 2015, em Paris, em que protagonistas sobrevivem ao trauma com posturas opostas.

O realizador espanhol Isaki Lacuesta decidiu remexer nos traumas causados pelos ataques de novembro de 2015, em Paris, executados pelo Estado Islâmico, e criou um drama sentimental, emotivo e sensorial que peca por querer focar em inúmeras dimensões de um acontecimento que chocou o mundo. Em “Um ano, uma noite”, vemos um casal devastado, que segue caminhos diferentes para lidar com o trauma. Ramón (NahuelPérez Biscayart), que passou a sofrer de ansiedade e ataques de pânico, opta por expor as suas dores. E conta para todos os seus medos, revivendo diariamente aquela noite de novembro, e que dificilmente vai esquecer o evento que matou uma parte de si. Celine (Noémie Merlant) prefere resguardar-se. Além de não ter comunicado aos pais e ao emprego, decide não partilhar suas memórias sobre o infeliz dia, até para o seu companheiro.

Para a elaboração do roteiro, Isaki Lacuesta baseou-se na obra “Paz, Amor y death metal”, escrito por Ramón González, um dos sobreviventes do incidente que deixou um saldo de 130 mortos e 352 feridos. O filme é verdadeiro e até faz cair lágrimas ásperas de quem o vê, quando explora os dramas do casal. No entanto, Lacuesta tenta explorar mais. Além de trazer alguns extratos das memórias de Ramón e Céline no fatídico dia, procura caminhar de forma superficial em outras dimensões que poderiam sustentar outros filmes sobre o atentado de Paris.

Por exemplo, Céline trabalha num centro de menores emigrantes, que direta ou indiretamente tem suas vidas transformadas por conta do acidente. Ela escuta suas histórias e acompanha de perto os seus dramas, sem contar que, também, foi vítima. Uma dos relatos marcantes é a de um pré-adolescente muçulmano que sofre. Como fuga, age áspera, bruta e desrespeitosamente com os profissionais que têm a missão de ajudá-lo. Farta, Céline explode, agredindo fisicamente o menino. No entanto, a história não é desenvolvida até ao final. Depois do tapa, o realizador, que também partilha o posto de roteirista com Isa Campo e Fran Araújo, acaba deixando a história sem um desfecho. Não mais vemos o garoto. E isso acaba sendo um fio solto, o que mancha a coesão da trama.

Mas não termina aí a megalomania de Lacuesta; o realizador em alguns momentos perde-se em flashbacks detalhados do dia do ataque, muito deles redundantes, como as passagens em que Ramón e Céline aparecem no mesmo local, executando as mesmas ações, que são descritas em algumas conversas do casal. As imagens da violência não agregam valor, são apenas um espetáculo que mostra a capacidade técnica dos profissionais que trabalharam na direção de fotografia, montagem e efeitos especiais. Analisando a fundo, parece-nos que o realizador poderia suprimir facilmente as histórias paralelas, que são pouco aprofundadas e que são ótimas para serem superficiais. E no filme parecem tiros no escuro, cuja ausência não mataria a estrutura da narrativa.

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