Gil Nota vence o Novos Autores do Kugoma 2022

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O realizador moçambicano Gil Nota venceu o Novos Autores 2022, prémio inserido no Fórum de Cinema de Moçambique, o Kugoma. O anúncio foi feito na noite de ontem, no Franco, durante o encerramento da décima terceira edicção do Kugoma.

Para vencer o Novos Autores, Gil Nota concorreu com o Filme ‘‘Sinédoque de Silêncio’’. A curta-metragem é baseada nos depoimentos de Khaci, uma jovem com um passado sombrio, que envolve mortes arbitrárias e assassinatos no seio familiar.

Em prantos, Khaci vai narrando a sua história, fingindo ser muda. Domina a língua de sinais e usa de tais habilidades para contar suas tristezas e angústias. Uma das recordações tatuadas na memória da jovem remontam à infância, período em que foi mantida em cativeiro pelo tio, depois deste ter tirado a vida de seu pai. Depois de várias tentativas, consegue fugir, mas não consegue acabar com a má sorte que a persegue.

Sem os pais, Khaci fica sozinha no mundo, a mercê do próprio destino. Vai parar num convento, na esperança de apagar as recordações assombrosas e ver melhorada a sua situação emocional. Sem sucesso, Khaci tenta suicídio, mas também não encontra sucesso. As circunstâncias da vida empurram Khaci à ansiedade e outros distúrbios de personalidade. Na sequência, narra que consegue um namorado, em quem acredita e confia plenamnente. A relação se inicia de forma calorosa, mas é também abraçada pelo luto que sempre acompanhou a vida de Khaci.

A narrativa atinge o clímax quando a jovem conta que curso dos acontecimentos entre o casal muda. De atencioso e meigo, o namorado passa a agressivo e desrespeitoso, chegando a manter relações sexuais forçadas com Khaci. A tentar defender-se, a jovem acaba por tirar a vida ao seu amado e mantém o corpo em segredo. Um segredo que viria a ser descoberto pela irmã do namorado, a quem, por isso, Khaci também teve de assassinar.

Por fim, o mistério é desvendado e Khaci vai parar a uma consulta de psicológica. A profissional leva a jovem rebobinar a memória e conta a sua trajectória, a esconder que consegue falar, como forma de ocultar parte da verdade material dos factos e, do mesmo modo, amenizar os delitos que pesam sobre si . Pressionada pelo sentimento de culpa, mas tmabém pelos questionamentos, Khaci não se segura e explode, revelando que, afinal, fala e tinha mentido.

Com o filme, Gil Nota pretende amplificar a voz de outras ‘’Khaci’s’’, bem como mostrar e incitar o debate sobre uma realidade de que ‘‘pouco se fala”.

Gostaríamos de mostrar que temos potencial

Gostaríamos de mostrar que temos potencial

‘‘As pessoas pouco falam. Pouco se expressam e pouco dizem que têm essa doença. Preferem ficar confinadas, que é o resultado da doença’’, descreve Gil Nota, a sugerir que ‘‘seria bom que as pessoas falassem. O filme retrata essas pessoas.’’

 

 

 

 

Trata-se do primeiro filme da autoria de Gil Nota. Ao Mbenga, o realizador contou que “Sinédoque de Silêncio” é um filme produzido com base em materiais e técnicas alternativas, conjugados aos esforços de uma vasta equipa guiada pelo desejo de mostrar que tem potencial.

“Eu tinha que escrever um filme de acordo com o que tínhamos. Eu tinha um quarto, então decidi procurar uma história. A minha namorada sofria de ansiedade, no momento, então pensei em escrever sobre esse assunto que está a surgir muito agora’’, avançou Gil Nota, a acrescentar que “juntei ideias na minha mente, com coisas que vejo no dia-a-dia, e o que eu tinha, também, e saiu o filme”.

Gil Nota é também membro do colectivo de cienastas Afrocinemakers, do qual faz parte Ivo Mabjaia, vencedor do “Novos Autores do Kugoma 2021”. Nos últimos dois anos, o grupo amealhou um total de quatro prémios, distribuidos entre os seus membros. Para Gil Nota, as distinções denunciam o trabalho empreendido pela Afrocinemakers, no sentido de impulsionar a produção e massificação de filmes nacionais.

“É maravilhoso. Mostra respeito e que estamos a trabalhar. Este prémio significa que temos potencial e que, por causa das dificuldades que todo o cineasta moçambicano enfrenta, não conseguimos mostrar no seu todo, mas gostaríamos de mostrar que temos potencial”, aponta.

A Afrocinemakers tem produzido curtas com base em ideias de baixo custo. “Neste filme, usamos uma camera, tínhamos umas luzes e um tripé. Só. Tudo o que aparece no filme, como as cadeiras e tudo mais, eram de um vizinho. Isto mostra que, às vezes, não precisas de muito para conseguir chegar a certo patamar”, revela Gil Nota revela.

Os prémios do Kugoma, este ano, trouxeram uma novidade. Além dos habituais “Novos Autores”, Os Amigos do Museu do Cinema decidiram atribuir um “Prémio Especial de Reconhecimento” ao potencial narrativo e outras qualidades de execução. O galardão foi atribuído ao filme “inbox”, do relizador, Ivan Barros, e do actor e bailarino, Pak Ndjamena.

“O filme traz uma nova abordage, a que não estamos acostumados em Moçambique, que é a ideia de contar uma história e trazer uma narrativa com o corpo dancante. O que não é fácil, pegar numa coreografia e criar um roteiro”, avançou Pak Ndjamena, depois de receber o prémio.

As pessoas ainda não estão habituadas a esta nova forma de ser, continua Pak. “Com este prémio, tenho a certeza de que vamos ter mais apoios. Mais portas vão abrir e poderemos trabalhar mais, porque fazemos filmes na base de custos mínimos (Low Badjet).”, aponta.

Na mesma noite, o actor, roteirista e director de cinema luso-guineense, Welket Bungué foi reconhecido com o Prémio Novos Autores PALOP. Participou de diversos filmes, como actor e realizador, no Brasil e Portugal, e é, actualmente, uma das grandes referências do cinema africano em língua portuguesa. Lançou, recentemente, um livro autobiográfico, onde descreve o seu percurso e experiência artística, pela qual recebeu o prémio do Kugoma.

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