“Re-imaginar Maputo” mostra várias faces da capital

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“Re-imaginar” é um termo que não existe no dicionário português. Entretanto, pela sua composição, percebe-se que apresenta uma raíz germinada na ideia (ou pretensão) de “repensar”, senão imaginar outra vez, um dado objecto existente e que se pressuponha inacabado.

Quem “Re-imagina” predispõe-se a (re)constituir cenários. Quer, a princínpio, sugerir outras realidades, outros tempos e experências, o que não significa, de todo, mudar alguma coisa, mas apenas propor outros ângulos para perspectivar o mesmo sujeito. É como quem está a lançar a pedra para agitar as águas em torno da maneira como as coisas são conhecidas.

A partir das possíveis projecções derivadas do acto de “Re-imaginar”, seis jovens artistas produziram uma exposição. O objecto da mostra é Maputo. Amarildo Rungo, John Tameka, Faira Beatriz, Muenda, Ildefonso Colaço e Adivon Orlando olharam para a cidade capital com olhos de ver e transformaram em arte aquilo que pensam que seria Maputo se não fosse o que é hoje.

Também idealizam o futuro. Procuram descrever um devir que se revela incerto, tendo em conta a mudança como o único processo permanente no universo.


O conjunto de telas pode ser visto na Galeria do Centro Cultural Moçambicano Alemão (CCMA). Os seis artistas puseram-se a pau, olharam para a cidade capital a partir de diversos pontos e deram vida a “Re-imaginar Maputo”. São duas obras por cada.

As 12 telas, das quais 10 são pinturas e duas fotografias, transformaram o CCMA no centro de reflexão sobre as diferentes formas que Maputo assume, quando analisada a partir de aspectos específicos. Encostada às paredes brancas da galeria, a mostra discute questões existenciais, comuns nas realidades que coabitam o mesmo espaço.


As obras foram dispostas numa sequência que parte de aspectos genéricos e se vai afunilando na medida em que a viagem pela exposição acontece. Cada artista desenvolveu os seus trabalhos a volta de um ponto específico da vida da cidade.

“As Aparências Enganam”, de John Tameka, é a obra que dá as boas vindas aos apreciadores. Emoldurada a esquerda, logo após a entrada, resulta da junção de dois quadros. Duas telas siamesas, cujo conteúdo se complementa, procuram destapar o véu que esconde a beleza da cidade de Maputo.

Neste trabalho, a zona cimento de Maputo é vista a partir da Ka-tembe, ou seja, de fora, da sua periferia, de onde é possível captar qualidades como os traços arquitectónicos, que ganham um tom ainda mais gritante com a presença da maior ponte suepensa de África a esconder a outra realidade que se vive no interior.

Através da obra, é possível extrair que, na visão do artista plástico John Tameka, Maputo não é a mesma, quando olhada por dentro e por fora. É como se a cidade mudasse e assumisse novas faces, de acordo com a localização de quem a vê. Ou seja, de fora, é aquilo que aparenta ser, bela, limpa, segura, próspera e outras qualidades, mas no interior a realidade é outra.

O mar, as actividades portuárias, o pôr-do-sol, sem contar com as pessoas, são outros elementos presentes em “As Aparências Enganam”.

Ao lado de Tameka, está Ildefonso Colaço. O fotógrafo apresenta-se com duas foto-colagens sem título, com as quais confronta a traços arquitectónicos dos bairros periférios e da área urbana.
As imagens discutem entre si e envolvem o público no afamado debate sobre a vida nos guetos e na cidade. Na primeira foto, Colaço captura a vista aérea das casas de madeira e zinco, os becos e outros aspectos que marcam bairros como Maxaquene, Chamanculo e Mafalala. Na outra, estão lá os prédios, mas também um pouco do que se viu anteriormente.

As casas “apertadas”, a vida a acontecer tão próxima uns dos outros são características que as duas imagens têm em comum. Com este exercício, Ildefonso Colaço, entre tantas outras, sugere que a realidade entre os ditos “Guetos” e a cidade de Maputo não está longe de ser a mesma, apesar das haver diferenças.
Mais para o centro, encontram-se as telas de Amarildo Rungo, artista plástico com quem Ildefonso Colaço já trabalhou. Juntos produziram “Corpo(r)Acção, instalação artística que esteve em digressão pela cidade de Maputo, tendo sido alojada no CCMA, depois da Galeria Muend’Arte, na Mafalala. Portanto, “Re-Imaginar Maputo” é mais um capítulo do romance que Colaço e Rungo estão a escrever, através do cruzamento dos seus trabalhos.

Na primeira tela, Rungo destaca a figura de Samora Machel como quem comand(ou)a os destinos do país. Com o título “Ouviram?”, o trabalho questiona as novas gerações se ouviram e aplicam os ideais e visões do primeiro presidente de Moçambique independente.

Por outras, Amarildo Rungo está a “Re-imaginar Maputo” através dos pressupostos de Machel, procurando imaginar ou repensar sobre o que seria ou o que pode vir a ser Maputo seguindo estritamente os dizeres do Marechal.

A outra obra de Amarildo Rungo é intitulada “Banco do Gueto”. Dest vez, o artista evidencia o papel da Banco Central como instituição responsável por dinamizar a economia e o desenvolvimento da cidade capital.

Coloca o edifício do Banco de Moçambique (BM) no centro da cidade, dando destaque à sua grandeza, beleza e importância em comparação aos outros. A ideia que fica é de que, para este artista, é o BM que guia e orienta o estilo de vida na cidade de Maputo.
Por sua vez, Faira Beatriz também toca no assunto economia. Através da tela “Indústria”, questiona se Maputo é, de facto, uma cidade desenvolvida, tendo em conta a distribuição de riquezas e outros recursos de que a cidade dispõe.
A artista entende que o crescimento da cidade de Maputo depende da união de esforços entre os diversos extratos sociais. Não é só com a industrialização que se pode calar os problemas actuais, mas com a simbiose entre sectores e actores sociais.

Por outro lado, questiona “Como nasceu Maputo”, em tela feita em técnica mista. Para a artista, há que conhecer a história da cidade, em particular, para saber da sua relação com a periferia. “É preciso saber por que é que os nossos bairros têm tais nomes? Quem os atribuiu e como é que as comunidades se posicionam em relação a isso?”

Muenda é outra voz feminina que se juntou para “Re-imaginar Maputo”. Começa por abrir “A Janela de Esperança”, numa tela onde destaca as crianças como o futuro de Maputo. No quadro é possível observar elementos arrumados no mesmo sentido, a mostrar que o presente é uma caminhada que vai desaguar no amanhã, onde os petizes de hoje assumem o posto de luzes que vão guiar os destinos de toda uma coletividade. É, na verdade, um trabalho de continuidade, pois Muenda coordena actividades artísticas direccionadas à crianças na galeria que dirige na Mafalala, em Maputo.
Com “As cores da Sobrevivência”, seu outro trabalho exposto no CCMA, Muenda destaca as vias trilhadas na busca pela subsistência. Mostra a maneira como as actividades complementam-se, juntam-se e formam um todo, que é Maputo.

Por fim, a completar a viagem pelas paredes da galeria do CCMA, estão as telas de Adivon Orlando. “Cidade em Apuros” é uma obra que segue uma linha abstrata para levar à superfície os gritos e choros de vozes enforcadas pelo aperto da vida das cidades. Também mostra a (de)sorganização que advém das lutas diárias, por vezes injustas das pessoas que vivem nas cidades.

Na sequência, “Revolução Feminina” devolve a mulher para o centro da exposição. Não se trata, aqui, da ideia de igualdade de género, mas do reconhecimento do papel da mulher como a terra onde germina a semente da vida.

Para melhor dar a conhecer a exposição, os artistas vão, na noite de hoje, reunir-se no CCMA, para conversar com o público a volta da mostra “Re-imaginar Maputo”. A ideia é partilhar pensamentos e visões sobre as diferentes faces da cidade capital nacional.

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