Cinco dias de um diário que poderia ser meu (concl)

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Dia 5

A garçonete apareceu, deixou o menu, levou o pedido e trouxe o prato, saboreie, tomei alguns goles de vinho, enquanto olhava para o Pot au feu. Saborei a sopa, depois o prato principal, enquanto reparava para a majestosidade da cidade de Maputo, vista de um ângulo privilegiado. Terminei o prato, olhei fixamente para o copo de vinho, enquanto um sono tranquilo conduzia-me a uma realidade alternativa.

 

Às vezes é preciso despertar

Sentei numa cadeira de plástico, meus menos de 60 quilos não eram suportados por aquele acento, meus pés firmes, meus braços pendentes anteviam uma possível queda e estavam prontos para me amparar. Olho para a 25 de Setembro, distante, visível pela minha insistência e pelo longo alcance do excesso de gelo que me faz não querer estar sentado neste local.

– O almoço, a carne de porco na panela já está pronta, take away não tem, só podes comer aqui mesmo, boisse. – disse a senhora com as mãos gordas, lábios obesos e bochechas roliças.

 

Para cortar qualquer possível resposta, ela retornou, saiu da barraca e lançou-me com o prato verde, pesado e com um pedaço enorme do suíno.

 

Pensei em deixar a comida no prato e partir, mas a fome e a consciência de que dinheiro é suor, é complicado parir parágrafos em cesariana, segurei a colher e comi sem me importar com o ambiente, com as notas de dólares falsas que eram contadas, os insultos que circulavam e tinham um fedor idêntico ao cheiro de água paradas que o zelador começou a mexer quando eu estava na quarta colherada. Mas uma vez pensei em desistir, deixar o prato, pedir a conta e sair. Mas ainda tinha fome e com estômago a roer não há ciência para terminar textos, força para suportar as poucas horas que me separam do meu lar.

 

Segurei a carne, sem sabor, mal passada e pessimamente temperada, mordi cada milímetro de resistência que tinha, entreguei o dinheiro, limpei os dedos com guardanapo, olhei para o zelador, o sol das 14:23, e enquanto os raios tocavam minha pele transpirada, a exalar o perfume que minha irmã mais nova deu-me, gravei o momento, no trabalho gravei o texto que tinha por entregar, um sono me embalou, cedi, depois acordei, raspei o cartão, deixei a gorjeta no menu, pensei em consultar o saldo, mas sem preocupações, saí certo de que um dia teria de despertar.

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