Nunca me imaginei num palco de teatro!

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É uma das figuras de cartaz da nova geração de actores moçambicanos. Apaixonado pelo teatro, Mateus Nhamuche procura cravar o seu nome nas artes cénicas, a interpretar personagens, mas também a comunicar através de movimentos corporais em coreografias de dança contemporânea.

Entrou para o mundo das artes pela porta da música, onde começou por animar festas e outros eventos sociais como DJ. Pilotou mesas de som por algum tempo, até perceber que as suas misturas tinham ritmo, arte e poesia.

Apostou no Hip-Hop para alimentar o sonho de adoptar o modo de vida dos Rappers americanos e, de igual modo, inspirado por ícones nacionais como Duas Caras e 3H. “Cuspiu” barras quentes e descobriu que se enquadrava noutros estilos.

‘‘Fui mergulhando também na Kizomba, depois entrei na área da produção’’, conta. Até esta altura, explica Mateus, por volta de 2012, ambicionava traçar uma trajectória artística focada na música, pelo que decidiu buscar conhecimentos e investir em novas habilidades.

‘Passei a entender um pouco de produção, por isso eu próprio é que faço as trilhas sonoras das minhas performances’’, avança. Além de desenvolver aptidões, juntou-se a outros artistas para cantar em grupo. É co-fundsdor da BST (lê-se Bi –Es – Ti), conjunto que ainda está no activo e, segundo conta, está a fazer os últimos acertos de uma EP.

Nunca me imaginei em palco como actor

É tarde de Segunda-feira e o ponteiro menor do relógio romano acaba de abraçar o número XII. Dos fundos das instalações da X-Hub – Incubadora Criativa, emerge o cheiro do almoço que delicia o ambiente na nova casa dos artistas nacionais.

Vejo a vida a acontecer no exterior da cátedra, através do vidro da sala de reuniões. Entre os carros e pessoas em movimento, um homem de altura média, queixo barbudo e a cabeça coberta por um chapéu a moda dos anos 90, interrompe a miragem.

Mateus Nhamuche entrou na incubadora e, juntos, descemos as escadas, em direcção ao Estúdio Azul, para uma conversa.

Mateus sempre foi um sonhador incomum. Queria ser geólogo, mas desistiu porque a performance na disciplina de Química não foi das melhores. Depois de terminar o ensino médio viveu o dilema da escolha do campo para a formação superior. Com poucas opções, Mateus Nhamuche soube da existência do curso de teatro na Escola de Comunicação e Artes, mas desdenhou num primeiro momento, até recordar que já tinha, antes, dado boas cartas numa peça teatral.

‘‘No ensino primário, houve momentos em que formávamos grupos para apresentarem um espectáculo teatral’’, recorda, a acrescentar que ‘‘fizemos a primeira apresentação, da qual as pessoas gostaram, inclusive o professor, e fomos o melhor grupo’’.

Foi uma personagem constrangedor, descreve Mateus. ‘‘Apresentava-me com um traje feminino, o que foi desconfortante para mim, porque era antes de eu entrar naquele mundo e beber do teatro’’.

Na altura, acrescenta, já havia passado muito tempo desde a apresentação em sala de aulas, ainda assim, juntou informações e decidiu experimentar novo mundo que se abria aos seus pés.

‘‘Nunca me tinha imaginado em palco, a actuar de uma forma mais específica. A minha visão era de ‘‘Hustlers’’, coisas da juventude, mas o teatro veio mudar tudo em mim. Tudo mudou, a minha visão transformou-se’’, aponta, a detalhar que ‘‘o teatro me fez deixar tudo, desde tocar, produzir e cantar’’.

Quebrei barreiras

Quando actuou na escola, Mateus Nhamuche estava de olhos postos à situação académica, até porque o espectáculo serviu de avaliação. O que não lhe ocorria era que a possibilidade daquela pequena projecção feita entre colegas de carteira mudaria a sua vida.
‘‘Hoje sou uma pessoa que já não tem preconceitos, porque já entendo e sei como as coisas funcionam, graças ao meu trabalho’’.

Ama o teatro como extensão do se user. Sempre que sobe ao palco, alimenta a certeza de que pode fazer as pessoas refletirem sobre diversos aspectos inerentes à vida.

‘‘Gosto de trazer abordagens que tocam as pessoas’’, revela, a explicar que ‘‘fazemos parte de uma sociedade feita de diferentes situações, de que não podemos fugir. Sempre que eu tiver oportunidade de trazer isso em palco, eu vou trazer’’.

O teatro é um espaço de libertação, observa. ‘‘É sobre aquilo que sinto e transmito para as pessoas que assistem, mas também é sobre o que as pessoas sentem e não têm oportunidade de dizer alguma coisa a respeito’’.

Trabalhar textos de autores vivos é desafiante

Há dias, Mateus Nhamuche encenou a leitura dos textos do ‘‘Recolher Obrigatório’’, do poeta Álvaro Taruma. O livro foi lançada no Camões – Centro Cultural Português, onde o actor foi assistido a incorporar as diferentes situações descritas na obra, como forma de apresentar as linhas gerais do tecido que tece a obra.

Não foi a primeira vez que Mateus Nhamuche fez trabalhos desta natureza. Já colaborou com outros jovens autores. De Mélio Tinga, adaptou ‘‘O Voo dos Fantasmas’’ e ‘‘Engenharia da Morte’’. Também encenou textos de José Craveirinha, Aurélio Furdela, entre outros.

Para o actor, pegar em textos literários e transformá-los em peças teatrais não é tarefa fácil, principalmente sob o olhar atento do respectivo autor.

Nhamuche aponta que maior desafio, nesta senda, é projetar cenários em concordância com as imagens que orientaram o escritor durante a elaboração da obra.

‘‘Trabalhar um textos de um autor vivo é complicado, porque ele há-de vir dizer que nalgumas partes não quis dizer o que vem na peça’’, acredita, completando que ‘‘quando trabalhas com um escritor que já não está em vida, tens a liberdade de transformar e fazer o uso do jeito que quiseres’’.

Apesar de desafiador, Mateus Nhamuche trabalha à vontade, priorizando a colaboração com o autor a todos os níveis.

‘‘É sempre bom, gosto de trabalhar com escritores, porque cada um tem suas especificidades. Cada um tem sua visão de vida, por isso sempre dou o acompanhamento, para perceber até que ponto nossas ideias estão alinhadas’’, narra.

A dança é minha outra paixão

O teatro é a disciplina artística que mais sofreu com as agitações da Covid 19. Logo que o mal despoletou no país, uma das primeiras medidas tomadas foi o encerramento das casas de pasto, bem como o distanciamento social.

Com as decisões, a prática de teatro ficou inviabilizada, inclusive em espaços alternativos.

Por conta disso, muitos foram os actores que ‘‘migraram’’ para outras disciplinas, pois precisavam de arranjar formas de continuar a expressar a sua arte. Boa parte dos actores de teatro viu na dança o seu Eldorado, por ser um espaço que partilha várias características com o teatro.

Não foi bem o que aconteceu a Mateus Nhamuche. Durante o recolher obrigatório, o actor esteve produziu performances e pequenas peças baseadas no ambiente caseiro, para consolar as pessoas, em meio a dias cinzentos.

‘‘Não passei do teatro para a dança’’, nega Mateus, quem explica que ‘‘já vinha fazendo as duas coisas há algum tempo. As duas áreas me ajudam na produção corporal, porque trabalham em movimentos do corpo’’.

Mateus clarifica que ‘‘o que acontece é que os meus ensaios (na dança) eram intensos’’, o que não me possibilitava fazer o teatro, mas gosto dos dois’’. Um dos frutos da entrega aos ensaios foi a performance ‘‘O Distanciamento’’, apresentada na última edição do Festival de Dança Contemporânea, o KINANI.

Na performance, Mateus Nhamuche e Vasco Mirrine procuram, através da dança, elucidar as pessoas sobre a importância dos cuidados a ter para se esquivar os riscos da contaminação pela pandemia da Covid 19.

Esta matéria está integrada no Diversidade, produzido pela plataforma Mbenga Artes e Reflexões, conta com o apoio DIVERSIDADE, um instrumento de financiamento do PROCULTURA PALOP-TL – Promoção do Emprego nas Atividades Geradoras de Rendimento no Setor Cultural nos PALOP e Timor-Leste, financiado pela União Europeia, cofinanciado e gerido pelo Camões, I.P., em parceria com a rede de Institutos Culturais Europeus (EUNIC).

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