A espera de sorrir 

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Olhar para mim no espelho, desafiar a terra batida, tomar três goles de uísque puro sem gelo, extrair algumas frases duras, lavar a cara sem água, agarrar os cabelos com todos dedos da mão, fechar os olhos e caminhar no areal, desafiar a montanha sem bússola.
Sentir a água morna nos dedos, ver as gotas a entrarem pelo ralo, aceitar os factos, olhar para o tecido e todas as histórias que não podem ser alteradas, sentir os ecos do batimento sereno das gotas do tempo.
Há nuvens lá fora, o inverno é tão triste, as nuvens tão ingénuas, minha pele tão pálida, queria ver o céu e ao mesmo tempo seria bom ter chuva, o cheiro da areia molhada, o som das gotas a perfurarem a superfície é melódico.
Abro os olhos, vejo as pontas do cabelo, as sobrancelhas tão bem definidas, os lábios meio humedecidos pela língua que fala poucos idiomas, que acelera e percorre velocidades que não domina. Queria ter rédeas para controlar este músculo sem disciplina, dou algumas vozes de comando, que são obedecidas porque estávamos a sós, e a língua estaciona sua existência, sob a vigilância ríspida de alguns dentes longos e outros mutilados pelo sabor agridoce dos dias sem sol.
Movimento os músculos, mostro os dentes, tento gargalhar, mas tenho medo do estrondo, então fico sem expressão a olhar apenas. Abro a torneira, encho a palma com 75 mililitros e levo grande parte para o rosto. Vejo a água a escorrer no meu rosto, quem me dera ter lágrimas.
Escuto um som, são passos, alguém está próximo e ainda não consegui analisar a minha falta de forças para mudar as coisas, para lutar por mais, para levantar o punho e invocar a mudança que tanto almejo. Os passos estão mais próximos e eu aqui, sem concentração para viver momentos de lazer, tudo são lutas, viagens em carros sem tracção, em estradas de terra batida. Queria beber com moderação, tomar só dois goles e deixar o gelo humedecer a garganta, mas só críticas contra os meus comportamentos, a única coisa firme que tenho são estes cabelos, que veio por rebeldia, sem disciplina, sem produtos, tocas.
– Afinal estavas aqui?
– As vezes é necessário lavar a cara.
– Sim jovem, é mesmo necessário.
Sorri, vi no espelho, dei dois passos, com aquela imagem no meu pensamento. Ainda há esperança.

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