“Viver para servir não serve muito para viver” – Prodígio

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Nove de Maio, uma segunda-feira. Meio-dia. Estamos em Maputo e os primeiros dias frios se fazem sentir num ano em que o inverno já chega atrasado. Prodígio está na cidade há poucos dias, teve um espectáculo na noite anterior, na Matola. Aproveita a estadia para participar do primeiro podcast do X Hub, a nova incubadora de artistas e criativos, localizado na Av. Ahmed Sékou Touré, com o Hélio Beatz, produtor do “Pandza do futuro”.
Instantes depois da sessão, apesar da sua agenda cheia, conversei com Osvaldo Moniz, nome de registo deste rapper angolano nascido em 1988, integrante do grupo de Hip-Hop Forca Suprema, residente em Portugal desde a infância. “Comigo tem de ser tudo a horas”, alerta ao Gil Gune, que conduziu a sua conversa e está a cuidar dos seus compromissos.
Sentamo-nos no estúdio de áudio do hub para uns dedos de conversa – como diz o cliché. “Não gosto muito de dar entrevistas”, esclarece o Prodígio que por problemas de saúde deixou Luanda para morar com os irmãos mais velhos em Lisboa. Já sabia que foi com Luís, seu irmão, que começou a se interessar pelo hip-hop, aos 10 anos. E que nessa fase descobriu Gabriel o Pensador e Boss AC, rappers o inspiraram a fazer freestyles, até começar a escrever com 12.
Em 2001 entra, conforme a sua biografia no portal da Sony Music Portugal, de facto, para o universo hip hop para se tornar uma das personagens mais relevantes da História recente (presente, na verdade) desta cultura em Portugal e em Angola, com um sucesso que nos últimos 20 anos sente-se, igualmente em Moçambique.
Um dos momentos reluzentes da história que Prodígio está a escrever foi a colaboração com Paulo Flores, primeiro na música “Rádio”, no álbum “Prodígios” de 2015 em que intérprete da faixa “Heróis da foto” fez o coro e em 2020 nos chegou “A Bênção e a Maldição”, álbum que assinam juntos.
“A rádio e televisão não quiseram tocar a música da Força Suprema, então investimos noutras plataformas”, conta a recordar a fase inicial. E, apesar dessa limitação, por cá chegaram através de plataformas de streaming como o soundcloud e Youtube. Dentre vários prémios, os mais recentes foram o de Melhor Álbum do Ano, com o álbum “Prodígios” e Rapper MVP, ambos do Angola Hip Hop Awards‬.
Porque já sabia disso tudo, a nossa sentada foi para perceber o seu processo criativo e o que está por de trás do “Prodigia-te”. Leia a conversa nas próximas linhas.

Da tua primeira mixtape, “Alquimista” lançada em 2011 a esta parte, ouvimos “Presente”, “Futuro”, Castelos, Lua e a série Pro Evolution. E agora estamos na série Prodigia-te. Como é que olhas para esse percurso de quase 20 anos, hoje?

Eu só olho para o percurso quando me fazem olhar. Quando olho para trás, olho para os momentos e vivências. Raramente olho para o catálogo, a não ser que me digam “olha, o Alquimista”. E eu percebo que a memória, o presente ou futuro tem que ir para lá. E aí começo.
A minha ideia é fazer, mesmo porque eu acredito que a grandiosidade não é notada no momento em que é feita. Eu gostaria que a minha música ficasse e, talvez, quando eu me for embora, as pessoas conseguissem ouvir e pensarem “uau, isto continua a importar” e que, talvez, não tivéssemos os mesmos problemas. Tipo, quando reclamo, eu gostaria que daqui a, sei lá, 100 anos, já não tivéssemos mais buracos na estrada ou uma saúde debilitada e que as pessoas pudessem ouvir e dizer “o Prodígio andava a choramingar e realmente as coisas mudaram”.
Então é daqui para a frente que eu acho que estou mais preparado para, se calhar, tentar fazer melhor.
Sempre me chamou atenção, na vossa música, a intervenção social, mas numa perspectiva que é mais motivacional, se quisermos rotular assim. Pelas tuas construções e da Força Suprema, percebo essa preocupação com o social. Mas me parece que o teu colectivo encontrou um caminho não ortodoxo da cultura Hip Hop para a fazer…
Desculpa te cortar. Fazes-me olhar para um lado que eu nunca analisei, apesar de ser verdade. Estou ciente do que estás a dizer. É uma coisa que é óbvia, mas nunca pensei, porque nunca olhei para mim de uma forma categórica. Nunca pensei “eu sou um underground, eu sou um mainstream”. Eu faço música.
E o people do Underground, sem desprimor, nem desrespeito algum, claro, tem essa cena de protecção do RAP. A cena do soldado civil. A cena do tipo “estamos aqui para marchar”. Às vezes, como somos todos humanos, acabamos por criar um tipo de hipocrisia.
Claro que não é uma coisa geral, isso é quando vamos individualizando. Acho que como somos bon vivant, pessoas que, talvez, pela vida ter dado palmatórias muito cedo, gostamos de viver bem. Eu aprecio o meu vinho. Não quero chocar com nenhum kota, só não gosto do buraco na estrada. Não quero chocar com o ministro dos transportes, só não gosto do atraso.
A minha cena não é pessoal, como se calhar certos manos que dizem “fulano X deve sair do poder”. Nunca vi dessa forma. Vou bater uma porta a procura de ajuda para a cultura, se não derem, eu vou fazer. Vou bater uma porta, fazer um business, conseguir uma massa e o CD vai sair. Mas não vou choramingar. Então, talvez, isso se reflicta na nossa música.
A estrada tem bué de buracos, mas se tiveres num BIMA (BMW), sentes menos os buracos. Trabalha mais, mano, para teres uma “broca” como deve ser. E, mano, quando apareceres, o people ver “esse mano batalhou, andava a pé e hoje está aí”. Não é porque o carro é importante, é um simbolismo que no fim do dia não tem importância, mas há-de significar alguma coisa.
Se não achares que é a melhor coisa do mundo, ou é coisa que mereça mais atenção, mas há-de significar alguma coisa. Para nós do bairro, aparecer numa “broca” é somothing (alguma coisa). Não quero choramingar, i wanna pull up (eu quero puxar para cima). Mas também não quero pull up ao lado de pessoas que estão a passar fome.

Pela resposta que deste, já percebo que não é algo que vocês tenham refletido sobre. Mas percebes que é algo presente no teu e no trabalho dos teus colegas. E este espírito de ir atrás, independente das circunstâncias foi em função de perceberem que o contexto de pobreza, limitações e várias coisas (racismo e etc) que vocês tiveram em vida quando chegaram a Portugal, fez-vos entender que ter dinheiro é importante também para a vossa libertação enquanto indivíduos…

É por aí. Um homem sem terra não consegue proteger os seus. Infelizmente isso é factual, se não tens um pedaço de terra [fica mais difícil]. É preciso dinheiro. Acho que o pico da liberdade do Homem, do ponto de vista de um Homem africano, que é aquilo que sou, é ter um pedaço de terra onde possas controlar e produzir a tua comida. Onde possas, realmente, semear e controlar aquilo que tu comes. Teres noção de que, mano! as laranjas de actualmente são mais doces do que as antigas.
Acredito que o pico da liberdade do Homem é controlar o que come, que é controlar a sua saúde. É preciso dinheiro para fazer isso. Quando és puto, o dinheiro é uma coisa inflamável, que tu gastas porque és miúdo e estás na flor-da-idade e estás atrás das miúdas, mas depois percebes que com o mesmo money (dinheiro) dá para fazer outras coisas, mas isso também vem com maturidade e experiência.

Estou a pensar em duas músicas. A tua colaboração com Ana Joyce, intitulada ‘‘Paredes’’ e outra, do colectivo, “Mais uma dose” da Força Suprema em colaboração com a Dope Boys. Nas duas me chama o exercício da escrita, a seleção das palavras, que me parece muito propositado. Vou buscá-las para perceber se no processo de produção te colocas no lugar de quem vai ouvir a cena? E qual vai ser a sensação de quem vai ouvir a cena, qual será a sensação que esse alguém terá quando ouvir?

Raramente. Isso passa um bocado ao lado, porque acho que uma das maiores armas do artista é a distração. Às vezes temos atenção a tantos detalhes e perdemos outros, porque nos concentramos nesses detalhes.
Quando estou a fazer música, nunca penso na reação, não me lembro de errar. Depois de fazer a música, posso pensar man, that’s a banger. Tipo, o people quando ouvir essa cena, digo o people que gosta daquilo, vais gostar do trabalho.
Não escrevo pensando na reacção. Sou o meu maior crítico. Sou o muito fã de textos, escrevo poesia, pensamentos e tenho editoras a suplicarem-me para escrever um texto há mais de sei lá, 10 anos.
Não o fiz ainda porque sempre senti que, para nós africanos, que somos países novos e recém-independentes, o jovem tem a cena de que escrever um livro faz de si intelectual. “Tipo, vou ser um intelectual, quando escrevo um livro. Tipo, eu tenho um livro”. Acho que ficou um vazio aí.
Nunca quis fazer um livro porque uma editora quis que eu escrevesse. Sempre quis ter experiência, apesar de dizerem que escrevo muito bem. Eu queria acordar um dia, sentir e dizer que vou escrever um livro.
A cena do texto é sempre para mim. Adoro e faço sem querer. O meu cérebro, se calhar pela prática destes anos todos, guarda muita coisa e vou gravar em casa ou em estúdio. No dia seguinte ouço e me surpreendo. Digo: “uau!”
Já houve música que só no dia seguinte é que me apercebi o que eu estava a pensar. Tipo no “Olho por olho”, tipo sem querer, mano. É o tipo a exigência de raciocínio. Há cenas bué simples que, se calhar, para quem não sou eu, que está a ouvir, pode perceber uma rima simples, mas tem tanta profundidade, às vezes, e tantas camadas que já não tenho controlo do que estou a fazer. Já há muito, mas muito tempo, que não tenho controlo disso.
Imagina. Fui para Portugal muito cedo. Lembro-me de ter nove ou dez anos e eu tinha colegas que fumavam cigarros. Acredito que o universo cumpre, mano.

Prodigia-te

Durante o projecto de Portugal [do Prodigia-te], perdi uma pessoa de quem eu gostava muito, de cancro. E o rapaz que tocou a guitarra da faixa “Cabelos Brancos”, morreu de cancro também, depois de tocar. Então, o projecto de Portugal é muito cinzento. Se fores a ouvir o ‘‘Morfina’’ vais perceber isso. É a cena de um puto fora da sala, a espera que a professora chegasse, mas está bué frio. Tens duas colegas que estão a falar com colegas teus, mas não estão a falar contigo porque és negro, chegaste agora e tens bué de sotaque. Por isto tudo, o projecto em si é cinzento.

Na verdade, achei que eu tivesse essa sensação em função de ter estado em Lisboa num período frio. Achei que, se calhar, fosse a minha conexão com isso que estava a me dar a ideia de ser uma cena fria…

Mas é mesmo. É uma cena mais fria. A produção, se fores ver, é mais lenta. Vai do frio para o pesado, apenas, não fica feliz. Mesmo a música “Cabelos Brancos”, embora seja um som de amor, não é uma música feliz.

Não tens muitas músicas felizes…

Não tenho, não tenho. Verdade seja dita. Costumo dizer que não sou uma pessoa feliz, tenho momentos de felicidade. Sou uma pessoa retraída e reservada. Se fores a ouvir o projecto de Angola, vais perceber que é um projecto confuso, porque percebe-se um filho de Angola que esteve noutros lados. É uma pessoa que não esteve só aí. Vou festejar no after party com o Anselmo [Ralph], mas estou a reclamar da porrada que dão na zomgueira (é uma vendedora ambulante típica de Angola).
Quando vens para Moz, encontras uma coisa especial. O carinho que tenho por este país e a cena de Moz ter sempre se assumido com uma cena do Hip-Hop bué de forte, desde os G-PRO e tudo mais. Vocês são pioneiros na cena do Hip-Hop e de fazer vídeos de qualidade.
Para Moz, eu venho com uma missão. Se fores a ouvir o projecto de Moz, é abusado e, se calhar, o mais abusado, tanto que há people que me diz “o projecto de Moz não devia ser o de Angola?”
Eu digo “não, é mesmo isso”. É o feeling que Moz me dá. Em Angola tenho reclamações, na Tuga idem, não posso fingir para mim, mas em Moz estou livre para bater. Cá trago as big guns, vais ver em Cabo-Verde i’m txilling, tipo estou a falar com umas primas. Estou descalço na praia.
Os projectos têm muita profundidade, não é só bué de músicas.


Tenho estado a reparar que nas entrevistas que dás, estás muito preocupado com o facto de esclarecer as pessoas de que não são músicas só por acaso. Qual a razão de insistir nisso?

É que o que estou a fazer é muito difícil e vai passar ao lado. Tem uma rapariga que acompanha a Força Suprema há muito tempo, é bué de activa no twitter, com quem estava a falar sobre isso. Fez-me a mesma pergunta, ela dizia que há people que vai reclamar, tipo Prodígio está a lançar bué. Mas os artistas que estão na nossa praça, a fazer a mesma coisa que eu, não estão a fazer, em termos de eficácia, de texto e de produção, um terço daquilo que estou a fazer nestes projectos.
No projecto de Moçambique, dou-me o trabalho de imaginar o que é que seria o melhor rapper de Moçambique. Que rima ele teria. O people só vai reclamar porque eu sou o Prodígio, porque o meu projecto se fosse de um gajo que está a vir agora Moçambique ia parar. Não estou a dizer por ser eu, é mesmo pelo esforço que pus. Como aquele single com o Mark Exodus é um smash.
Por isso que digo que não é uma aglomeração de músicas, esqueçam isso. Ouçam!

…vês imagens na construção das camadas das tuas letras?

Primeiro, sempre que gravo uma música, a minha cabeça, automaticamente, faz um vídeo para aquela música. Sempre. Talvez por eu ter estudado cinematografia, em Londres. Talvez por isso, não sei, mas sou muito gráfico neste aspecto. Todas as músicas que gravei eu tenho uma cena visual para elas. Acho que a minha cena é um bocado pintada, a minha ginga está um pouco no pintar as coisas. Estava a te falar do som com o Mark. Qual é a coisa mais sagrada na vida de um Homem? A sua. Qual é a coisa que mais queres proteger? A casa da tua mãe.
No meio de oito álbuns [que se propôs a lançar este ano dedicados aos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com produtores e músicos de cada uma dessas nações], um gajo se esforçar a ser detalhista assim, é pelo amor que tenho por isso e pelo respeito que tenho por mim e pelos meus colegas que eu não faria um monte de rimas básicas com um bom refrão.

Soube que além da música, este Prodigia-te tem uma componente social. Podes explicar o que é e como é que vai funcionar?

Fui salvo por um lugar chamado Centro Lúdico, em Portugal. Foi o sítio onde eu e acredito que o NGA, Don-G e o Masta gravamos as nossas primeiras músicas, porque acho que essas brincarias de fazer em casa não contam bem. Na adolescência, altura em que começamos a fazer porcaria, aquilo foi tipo um paraíso que nos surgiu, um lugar onde podíamos ouvir música.
Eu ia lá quase todos os dias, ouvir o álbum do Boss AC “Manda-Chuva”. Na altura tinha mesmo acabo de sair. Era um estúdio não profissional, mas tinhas lá condições favoráveis. Tinhas livros, dava para gravar e era uma cena nice. Eu sempre quis fazer isso, mas eu pensava que ir fazer quando fosse kota.
Com a cena da pandemia, todos levamos um suto e tivemos as nossas perdas. Acredito que, se calhar, Elon Musk e todos esses que ganharam dinheiro de verdade sejam as excepções. Nós os meros mortais nos lixamos. Deu-me um toque e fez-me perceber que as coisas são para ser feitas agora. Estou a acabar o projecto-piloto, agora, com a UNITEL.
Chama-se Prodigia-te e é uma cena tão grande. A ideia é procurar os próximos Prodígios, por isso é que os álbuns se chamam Prodigia-te, porque é elevar este nome e, depois, dar a eles. Anualmente, vou lançar, em cada sítio onde houver um Prodigia-te, uma compilação dos putos, que vai se chamar Prodigia-te. Imagina Prodigia-te Maputo. Já estará agarrado à base do próprio nome que criei, então os putos já terão uma plataforma automática de projeção.
Viver para servir não serve muito para viver. Prodigia-te vai ser um centro juvenil que terá uma biblioteca, home studio, aulas de xadrez, cursos de informática, vamos tentar fazer intercâmbios e conseguir bolsas para o Japão e Holanda, para os putos poderem estudar. Vamos ter produtores, formações para os putos e muita coisa. O projecto já está a acontecer, está a 85%. Saí de Luanda estavam a pintar, enquanto era suposto ser inaugurado no dia 1 de Junho, que é o dia da criança, mas não vou conseguir. Vou tentar inaugurar no mês de Junho, porque a minha criança nasce a 23 de Junho. A minha única criança, o Bruno, faz anos no dia 23. Vou dar o Centro às crianças no dia da minha criança.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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