“A contemplação do belo é um combate em que o artista grita de pavor antes de ser vencido”
Charles Baudelaire

Uma nota de advertência: não sei entre o autor, Dionísio Bahule e eu quem é o mais insano. O primeiro por me ter proposto fazer este prefácio. E bom… Posso me justificar nessa cobardia a “moda” moçambicana, incapaz de dizer não. Marca que, se calhar, até ajude a compreender o status quo.

“Tabuleiro SEMIÓTICO [OU] O Cálculo da RAÍZ QUADRADA” é o segundo título individual de Dionísio Bahule, que em colaboração com Paulina Chiziane (a Velha, como a chama o autor deste livro) pôs nas prateleiras das livrarias “A Voz Do Cárcere” (2021).

Em “Fotojornalismo ou A Gramática das Sensações” (2018), sua obra de estreia, este intelectual (ensaísta, crítico literário, músico, poeta, escritor) e filósofo reflecte sobre a imagem tanto enquanto fotografia ou desenho assim como aquela que se projecta no imaginário presente na literatura, por exemplo.

Nessa primeira incursão, Dionísio Bahule já cruzava as suas vivências com reflexões filosóficas aguçadas que revelam a sua exigência, traiçoeira a um leitor desavisado, num estilo que nos pode recordar Luís Carlos Patraquim ou um António Cabrita.

O autor continua nesta segunda obra a cultivar o solo da matéria-prima que constrói os sentidos, símbolos e signos que significam o mundo de um indivíduo, no contexto próprio (moçambicano), através das artes.

Dionísio Bahule tece os seus escritos com várias citações (caras e) não ortodoxas que se mesclam com narrativas de episódios aparentemente corriqueiros de quem as escreve num acto impulsivo e vê no ecrã do computador o transbordar de um pensamento com a poética a serviço. Ou seja, ler Dionísio Bahule, em ambos registos, é como que ouvir a um coral sinfónico, no qual várias vozes se unem para uma peça única.

Podemos pensar “Tabuleiro SEMIÓTICO [OU] O Cálculo da RAÍZ QUADRADA”, composto por parábolas cujas narrativas, permeadas por reflexões sustentadas em filósofos ocidentais/europeus (Valentin Volóchinov, Augusto Ponzio, Maurice Blanchot, Terry Eagleton) e africanos/afrodescendentes (Achille Mbembe, Severino Ngoenha, Kwame Anthony Appiah), que pretendem, ao invés de lições morais, acordar questões que deambulam no entardecer que antecipa a tão anunciada, mas sempre adiada saída da grande noite (como nos sugere Achille Mbembe).

Entrar para o livro é a obra do leitor, pois está diante da soma da prosa, poesia, filosofia e estética a se alternarem sucessiva e repentinamente numa exposição de pensamento que se apoia em vários suportes do quotidiano (como caminhar pelas ruas da cidade de Maputo), de pensadores da estirpe de um Severino Ngoenha ou Jacques Racière e episódios singulares da História da arte moçambicana. O resultado desse entrelaçado é um ensaio na fronteira entre a literatura e a filosofia. E é um acto deliberado do autor, como nos pode indicar a escolha da proposição II do ensaio inaugural, intitulado “O cálculo da RAÍZ QUADRADA”, para o qual é invocado que escreveu:
«[…] a explosão da linguagem literária foi um facto de consciência, não um facto revolucionário. […] Ao menos, pela primeira vez, não é a escrita que é a literatura; a Literatura é expulsa da forma; já é só uma categoria; é a Literatura que é a ironia, a linguagem constitui aqui a experiência profunda.»

A proposição acima citada coincide com o espírito do poeta francês Charles Baudelaire, vertido na nota que enviou ao seu amigo e compatriota, o romancista Arsène Houssaye, para apresentá-lo o livro “Le Spleen de Paris”, também conhecido como “Pequenos poemas em prosa”. “Envio-lhe um pequeno trabalho do qual não se poderia dizer, sem injustiça, que não tem cauda nem cabeça, porque nele, ao contrário, tudo é ao mesmo tempo cabeça e cauda, alternativa e reciprocamente”, escreveu consciente de estar a fazer uma ruptura com o limite anterior do poema, da poesia.

Baudelaire, na mesma nota, assume que “podemos interromper onde quisermos: eu o meu sonho, você o manuscrito, o leitor a leitura. Não quero suspender a vontade de parar do leitor no fio interminável de uma intriga superfina”.

Sempre na incerteza e insegurança que se tem quando se está numa tentativa penosa de criar uma coisa nova, tal qual encontramos neste exercício de Bahule.

O objecto deste livro é a arte e a história das artes moçambicanas que, como fica claro em “A (im)possibilidade do momento moçambicano: notas estéticas”, livro de Severino Ngoenha, ainda está por se fazer e significar.

No primeiro ensaio, “O cálculo da RAÍZ QUADRADA” o autor se debruça sobre MUVART, Movimento de Arte Contemporânea Moçambicana nascido em 2002 por artistas que prometiam uma nova estética e chegou às galerias com novas propostas.

“A INSOSSEGÁVEL TAREFA DE PENSAR O PÓS-INDEPENDÊNCIA”, outro ensaio, retrata uma conversa do autor com a escritora Paulina Chiziane, a explorar o artista em si, este ser social que regista a realidade, a retrabalha para devolve-la à sociedade já embrulhada no belo. O diálogo de ambos aponta para a direcção destas reflexões que passam por uma preocupação com o nosso chão das coisas, África e sua forma própria de pensar.

No artigo “Cinzeiro QUEBRADO”, o autor encontra uma oportunidade para resgatar Harlem, o berço da reivindicação moderna do Negro, da sua humanidade, dignidade, cultura e arte. Há ainda, pelo livro, ao estilo dos filósofos clássicos, diálogos sobre o Teatro e outras que outras disciplinas que fazem constituem o(s) objecto(os) da Estética.

Neste livro, Maputo é o palco onde os actores destas narrativas fazem as suas performances. Actores estes que não podem ser vistos fora do seu contexto, o que é escancarado, por exemplo, na “Crónica da MICHELLE SOUZA” onde a questão das gerações condiciona as relactividades face a interpretação da História e do presente. Dado particularmente relevante pelo facto de Bahule estar determinantemente influenciado pelo filósofo russo Mikhail Bakhtin, no seu conceito Cronotopo – no qual discorre sobre a relação entre o tempo e o lugar na produção literária (artística).

“Tabuleiro SEMIÓTICO [OU] O Cálculo da RAÍZ QUADRADA” quer nos recordar, neste cruzamento entre o prosador, poeta e filósofo que a dança, a música e todas as outras artes, enquanto expressão do interior do indivíduo, que na aparência não passam de pequenos nadas, são a celebração do pensamento e do meio circundante.

*Prefácio do livro Tabuleiro SEMIÓTICO [OU] O Cálculo da RAÍZ QUADRADA

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