Que Maningue Magic?

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Escrito por Inocêncio Albino*

O novo canal de televisão, com a denominação Maningue Magic, acessível através das plataformas da GOtv na posição 19 e da DStv na posição 503, lançou-se no mercado nacional com um objectivo bem definido: promover mudanças radicais no ramo do audiovisual, apostando na «qualidade» e na «inovação». Esperamos que tais mudanças sejam capazes de ultrapassar os modelos vigentes de fazer televisão em Moçambique, assegurando que haja «qualidade e inovação permanentes».
Para já de que conceito de «qualidade», associado às operações do Maningue Magic, nos referimos? Como comentarei mais adiante, isso já está a ser feito e demarca-se muito da «nossa maneira de fazer as coisas», muitas vezes, colocando de lado a temática da «qualidade» como se ela fosse acessória, fruto do mero acaso, e desconectada dos processos.
Este intróito com foco para a «qualidade» encontra a sua validade alicerçada na observação das condições em que alguns canais de televisão moçambicanos nascem, «sem nenhum plano de sustentabilidade», acabando por se tornar em experiências falimentares desnecessárias e prejudiciais para a (potenciação da) cadeia de valor que poderiam gerar e contribuir para o crescimento da economia nacional. «A qualidade do processo», afirma o gestor empresarial Nelio Vanderley, «é o segredo do sucesso».
Felizmente, nos últimos anos parece que esta tendência tem estado a mudar, sobretudo por causa da componente «qualidade e inovação» na qual os canais televisivos moçambicanos têm estado a investir. Pelo que observei desde o lançamento do canal, em função da proposta dos seus programas, analiso que sem pretender necessariamente «suplantar o outro», como tem sido apanágio das concorrências leoninas, o projecto do Maningue Magic colocou a sua aposta na «qualidade e inovação» nos píncaros do iceberg.
Não há tempo nem espaço nesta publicação para muita divagação. Então, dos vários programas até agora transmitidos pelo Maningue Magic («Influencer», uma série de ficção; «Top Mais e Txunado» que se constituem como magazines de lifestyle, moda, design, música e outras formas de artes; Estação do Boss, um programa essencialmente de música apresentado por Emerson Miranda; e «Date My Family Moçambique», um reality show original e bem conseguido que promove relacionamentos amorosos), vou-me concentrar na telenovela «Maida» para desenvolver a ideia deste texto.

Formação de actores

O debate sobre essa «história de amor, sonhos e traições», em que se constitui a telenovela «Maida» está difuso, mas uma apreciação da actuação de «Maida», ou Tânia Tembe, enquanto protagonista – assim como dos demais actores – daquela telenovela, talvez ainda seja escassa.
Tânia Tembe, a protagonista em «Maida», é uma jovem moçambicana nascida neste grande gueto de Maputo, que desde cedo se lançou na vida à procura de oportunidades para ser modelo ou actriz. Entre 2017 e 2019, levou a sua pretensão ao extremo participando em castings que lhe levaram ao «Aquele Papo», um seriado transmitido nas redes sociais e nalgum canal de televisão. Desde então, não parou. Até que lhe veio uma das suas grandes oportunidades no mundo da televisão, actuar como protagonista na telenovela «Maida». Portanto, não tendo muita academia para técnica teatral, uma rodagem expressiva no cinema e na televisão, pode-se afirmar Tânia Tembe, uma actriz espectacular, segura de si, como sendo «uma protagonista orgânica» no sentido de que nasce com (o do, e para) o projecto. «Mágico, isso é genial!» Afinal, Moçambique é capaz de produzir actores e actrizes, directamente, destinados para o cinema e para televisão!
A questão da «qualidade» da «Maida», refiro-me à telenovela, suscitou a reacção de alguns gatekeepers de «qualidade». Por exemplo, o jornalista cultural moçambicano, Reinaldo Luís, quem escreveu uma belíssima (para além de madura) crítica sobre esta produção, observa: «MAIDA, curiosamente, estreia a forma de produzir e fazer telenovelas em Moçambique. E a analisar pelo resultado, que agora sai, há ainda “algo” por se aprender. Não em termos de produção, que essa em particular até aqui dispensa, mas no que diz respeito aos elementos de representação.»
Discurso similar ao de Reinaldo Luís é proferido pelo actor e director artístico de teatro, Paulo Guambe, para quem o realizador, Ivandro Maocha fez uma planificação criativa tendo levado o barco a bom porto, embora não tenha sido bem-sucedido nos quadros, um aspecto técnico. Na sua análise, Guambe discorre sobre outro aspecto técnico e aponta que «a iluminação é de boa qualidade». Todavia, devia ter sido concebida «para participar na construção de sentidos».
Em meu entender, há entre os dois gatekeepers de «qualidade» mencionados um consenso quanto à fraqueza do trabalho de actores. Entretanto, estas nuances não só explicam como também traduzem o momento particular de transição porque parte significativa destes profissionais das artes cénicas está a passar – de actores marcadamente de teatro – para cinema, televisão e telenovela, como também a admirável organicidade da protagonista e dos demais. Não nos esqueçamos do tão importante facto de que estes actores, mesmo os menos cotados, têm a sua qualidade evoluindo dia-a-dia. O bom actor forma-se no palco.
Valorizar e respeitar o criador
Estamos diante de um trabalho cuja excelência estimula sectores relevantes das indústrias culturais e criativas cujos profissionais – como, por exemplo, jornalistas culturais e críticos das artes – dificilmente se sentiriam atraídos a realizar um conjunto de actividades do seu campo de actuação como reportagens e recepção crítica dessa manifestação artística sem uma produção cinematográfica com o nível de «qualidade» similar ao da telenovela «Maida».
Daqui visualiza-se também o respeito ao tão importante, mas geralmente maltratado tema da propriedade intelectual ao qual o projecto Maningue Magic, por meio das suas produções, devota. Isto aumenta as oportunidades de um conjunto diversificado de profissionais que compõem a cadeia de valor das indústrias culturais e criativas tirarem dividendos do seu trabalho. É que com a ampliação do «mercado» – é isso, também, o que este canal representa para esta classe – para a exposição e venda dos seus produtos e serviços, tais profissionais passam a ter motivos para produzir e oferecer em virtude da demanda. A questão da propriedade intelectual, num país com um contexto como o de Moçambique, sempre gera debates acesos. No entanto, para quem gosta de música (e, muito em particular, de boa música), poderá sentir-se animado ao saber que o seu artista favorito não está a trabalhar de graça.
É com esta dupla satisfação que me sinto sempre que oiço a trilha sonora da autoria da talentosa cantora moçambicana Lenna Bahule, por exemplo, anunciando o início e os intervalos da telenovela «Maida». Que boa música, feita por moçambicanos para Moçambique e para o mundo. Afinal, com o surgimento do Maningue Magic, a nossa esfera de acção, exposição e influência amplia-se passando a ser global, o que nos ajuda a ter uma visão holística sobre os níveis de «qualidade» da nossa produção.
Somado a essa exposição, factor-chave para a divulgação e promoção do que de melhor se faz em solo pátrio, está a salvaguarda plena dos direitos de quem investe energia na criação de obras de artes. Deste ponto de vista, aprende-se uma grande lição: «Quanto ao tema dos direitos autorais, é tempo de Moçambique sair da teoria para a prática.» Em meu entender é, igualmente, a esse debate que esse projecto agrega valor. Esperamos que possa conseguir criar e sustentar isso como legado, à medida que vai evoluindo e se tornar uma iniciativa sustentável.
Multiplicar oportunidades para o audiovisual
Como João Ribeiro, director do canal, em opinião publicada no jornal Carta de Moçambique, anunciara pouco antes do lançamento da iniciativa para o grande público, não há dúvidas de que as principais «armas de arremesso» são a «qualidade e inovação», sobretudo para o cinema e o audiovisual moçambicanos. «Este “novo” modelo que assenta exclusivamente na aquisição de conteúdos locais», afirma Ribeiro acrescentando que «vem assim abrir uma janela ao audiovisual nacional, promover os artistas e produtores locais, investir na indústria local na persecução do objectivo que a Multichoice tem em ser o melhor contador de histórias em África».
Ainda assim, é preciso clarificar o sentido de «qualidade» nos moldes como este projecto interpreta, para a partir daí, entender como esta iniciativa configura um campo transversal (não só para o audiovisual, como também para áreas afins) de múltiplas oportunidades para todos. Uma amostra significativa de profissionais, com os quais o canal trabalha, é totalmente composta por newcomers ao mundo da televisão. Pessoas sem histórico no cinema nem na televisão a quem esta companhia convidou, dando-lhes a oportunidade de iniciarem a construção de uma carreira sólida no audiovisual. Isto significa que, enquanto se renova, o sector do audiovisual também evolui.
Para uma melhor compreensão, pensemos, por exemplo, no que acontece no dia-a-dia da produção da telenovela «Maida». Para quem actua nas indústrias criativas não custa muito pensar nas pessoas responsáveis pelo figurino dos actores; pelo seu transporte para o local das gravações; e pela alimentação do elenco e da equipa de produção. Ao pensar assim, é igualmente fácil visualizar um estilista; uma transportadora; e uma microempresa de catering. Agora, multiplique-se a demanda por esse tipo de profissionais (ou serviços) pelo número de programas com formato similar existentes e outros por criar. Quanta gente está envolvida? Ou seja, interage aqui um conjunto de profissionais que, sem aquele projecto a acontecer, não teria motivos para produzir e vender, pois não teria mercado. A esta capacidade de multiplicar trabalho e emprego, envolvendo pessoas singulares e colectivas, que também é estimulado pelas indústrias criativas, chama-se cadeia de valor. É por esta razão que em relação a este aspecto, a minha percepção é a de que este projecto contribui para o crescimento da economia nacional.
Parceria e não concorrência
Pode-se definir o Maningue Magic como um canal orientado à produção e exploração de conteúdo local em Moçambique, a fim de influenciar a forma como se trabalha o audiovisual nessa parcela do mercado. O formato, em si, estimula a produção local, altamente apetecível para os moçambicanos.
Assim, o projecto não encara a concorrência como tal, mas como parceria. Por esse motivo, colaborar com os canais televisivos nacionais, produtores e empresas de produção na criação de uma infinita lista de programas de cinema e audiovisual, orientados à temática de entretenimento, constitui uma das suas grandes expectativas.
Enfim, se alguém me perguntar o que há de mágico no projecto Maningue Magic, sem hesitar, diria que «há Moçambique se qualificando e inovando organicamente». Precisamos de acreditar na magia que há em nós.

*Jornalista cultural.

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