LÍLIA MOMPLÉ: SER ESCRITOR EM MOÇAMBIQUE NÃO É GRATIFICANTE

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Lília Momplé, foto do autor

Por Pedro Pereira Lopes

Num país onde o exercício da palavra escrita é predominantemente feita por homens, Lília Momplé sempre soube o quão problemático seria distinguir-se no circuito literário moçambicano. Mas fê-lo com extrema eficácia, merecendo prémios e prestígio. Autora de, até à data, 4 livros – “Ninguém Matou Suhura” (1988), “Neighbours” (1995), “Os olhos da cobra verde” (1997) e “Antologia de contos” (2013) – a sua escrita é caracterizada pelo halo de veracidade que lhe é emprestada pelo país e pelo “esforço de vencer a amnésia social”, como faz questão de frisar Anselmo Peres Alós.

Em sua técnica narrativa pós-modernista, Momplé evoca, em toda a sua obra, a história de Moçambique (em três momentos, digamos, colonial, pós-independência e o actual), das suas gentes e dos seus problemas. De um neorelismo bravio, ela quase que não “inventa”, ouve histórias e as relata, de forma (memorialista) hábil. Disse, a este propósito, Luís Bernardo Honwana – na introdução de seu livro de estreia –, “São histórias que retratam a História”, um convite forçoso ao leitor para reanalisar o seu (nosso) dia-a-dia [nestes tempos de incerteza e mudança]. A sua preocupação com a educação, género, descriminação social e racial e a cronologia dos momentos narrativos são aspectos que atravessam os seus livros.

Esta entrevista aconteceu em finais de Fevereiro. Ela esperava-me. Era manhã, quase 10 horas. “A filha de Muipiti”, como é carinhosamente chamada, recebeu o saco de frutas, o meu presente, e sorriu, notoriamente satisfeita. Eu estava avisado que ela gostava de papaias e uvas. O seu cuidador ajudou-nos a encontrar uma sombra, no diminuto quintal do prédio. Andava devagarzinho, a bengala era a sua irmã mais velha e os óculos escuros protegiam-na da intensa luz do sol. Confundiu-me, a princípio, com o poeta Sangare Okapi, mas depois riu-se. A vista estava falha mas o cérebro continuava afiado. E vimos a vida correr em uma hora de conversa.

Comecemos, talvez, com uma indiscrição. Em entrevista ao Marcelo Panguana disseste que estavas a escrever um livro cujo nome é “Os fantoches de aço”. Este anúncio deve ter cerca de 9 anos. Quando teremos o livro?

A vida que eu tinha antigamente, quando era mais jovem, é muito diferente da que eu tenho agora. O meu dinheiro todo, e o do meu marido, agora é gasto em remédios caríssimos, que mandamos vir de Portugal, ou então morremos. Eu tive dois AVC’s, o que não é brincadeira. Não tenho a boca torta nem a perna curta, por sorte, porque deveria ter. Entretanto, comecei a sofrer da vista e outras coisas que antes eu não tinha. O livro está quase pronto (“Os Fantoches de Aço”) e é um livro que eu considero muito importante para esta etapa da nossa vida, porque retrata esta nova sociedade de consumo, falta de foco na vida e que é uma pena existir. Foi feito um grande esforço depois da independência para este povo se tornar autónomo. E não é isso que está a acontecer. É por isso que há ladrões, pessoas que roubam milhões para fazer casas delas, há corrupção, enquanto houve muito sacrifício da parte dos libertadores da pátria, e nós não estamos a saber, realmente, dar valor a isso.

Esta sociedade que se está a formar agora é constituída, na sua maioria, por pessoas que não são aquilo que aparentam. Pretendem aparentar uma coisa que não são, que é a pior coisa que pode acontecer. Às vezes, quando ia escrever, punha-me a rir do que escrevia, porque aqueles episódios são reais. Eu vi a acontecer. Ria do que estava a escrever, parece uma coisa parva, mas na verdade aquilo dava-me vontade de rir. Eu tinha tudo bem gravado na cabeça e lembrava-me de coisas que tinham acontecido, que levavam as pessoas a querer ser aquilo que não são. Por isso que são fantoches. Fantoche é qualquer coisa que não tem vida própria. Esses Fantoches são de Aço, porque embora sejam fantoches, o seu toque é letal. Não nos devemos querer aproximar sem defesa de tais pessoas, porque essas pessoas são capazes de tudo. Quem quer parecer aquilo que não é, é capaz de tudo. O livro já está quase no fim, mas está a ver o que é uma pessoa que teve dois AVC’s forçar a cabeça e depois a vista? É complicado.

E de quem é a culpa, de não estarmos a valorizar a independência?

É de todos nós. Penso que os nossos governantes foram bons lutadores, mas governar é outra coisa. Conquistar um país é fácil, mas mantê-lo é muito difícil. Houve todas estas coisas e, então, esta sociedade tem que olhar para ela, porque se não vai sempre cometer os mesmos erros, constantemente. É aquilo que eu digo, “Quem não sabe de onde vem, não sabe onde está nem para onde vai. Tenho que saber, realmente, quem é que sou, quem é que me pôs aqui, por que estou aqui e não noutro lugar? Tenho que saber responder a estas perguntas e todo o ser humano deve fazê-las a si próprio.

Falas de libertadores, de homens que libertaram a terra mas não estão a saber governar. Será por incompetência ou maldade?

A maior parte dos homens que libertaram Moçambique não eram maus. Havia uns que, realmente, lutaram não pela pátria, mas por eles próprios. Queriam substituir os colonos Ainda há, conhecemo-los, mas acho que a maior parte eram homens que, verdadeiramente, amavam a sua pátria e sentiam o jugo do estrangeiro e queriam libertar-se disso. Libertar a terra e os Homens.

“Os fantoches de aço” é no espírito diferente dos três anteriores. Então, temos um salto. É intencional?

Não. Por acaso, eu nunca escrevo algo propositadamente. É sempre por impulso. É alguma coisa como um chamado que me faz escrever. Nos meus livros há uma espécie de catarse, que é uma carga psicológica da qual me quero libertar. O livro ajuda-me a isso.

Daí um longo período de hibernação para os poderes parir…

Exactamente!

A “cobra verde” é uma cobra boa, habita os campos e não faz mal a ninguém. Ela anuncia a esperança. O livro em si também anunciava a esperança, tendo em conta o contexto em que apareceu. Ainda acreditas na Cobra Verde?

A Cobra Verde é realmente algo que desde miúda eu ouvia falar, que era uma cobra boa e que ninguém devia ter medo da cobra verde, porque é uma cobrinha com os olhos brilhantes e que não faz mal aos homens. Até foge, não provoca. Falo daquela do norte, porque pode haver cobras verdes que eu não conheça. Ainda acredito. Sou uma pessoa muito optimista. Ainda tenho esperança, embora existam coisas que me magoam ver, como uma divisão muito grande de pobres e ricos. A divisão de raças está a se diluir, felizmente, porque no meu tempo era terrível. Era pior. Fui proibida de ir ao meu baile de finalistas por ser mulata e eu era umas das melhores alunas.

Como no “Baile”…

Exactamente. É [um conto] autobiográfico.

O teu conto “Stress” continua muito actual, poder, sedução, pobreza, traição e violência doméstica. Mudam-se os tempos mas permanecem os problemas…

Claro. Tive a sorte de ter vivido, trabalhado até, em vários países. Vivi em Portugal onze anos, vivi na Inglaterra. Quatro anos no Brasil. Estes foram os países em que mais tempo vivi. Fui à América por várias vezes, estive lá três vezes seguidas, naquele programa de Iowa. Conheci vários países e em todos estes há os mesmos problemas que há em Moçambique. Talvez mais atenuados, ou mais camuflados. O que eu digo é uma coisa. Nós devemos lutar por todos os meios para que esta situação mude. Acredito no povo moçambicano, fui professora durante vinte e cinco anos. Na sua maioria, os meus alunos eram muito inteligentes. Acredito na inteligência e capacidade do povo moçambicano. Eu vou morrer em breve, tenho 86 anos. Não tenho muitos anos de vida, mas penso que vou morrer satisfeita porque acredito ainda neste povo. Apesar de tanta coisa feia. Vais ali aos bairros e vês a maior miséria. As pessoas a dormirem em cima das mesas, no tempo da chuva, é horrível. Mas o que eu ia dizer é que vi também muita coisa quase igual em países mais industrializados.

No “Stress”, o que me saltou à vista é o facto de os personagens não terem nomes. E há esta “amante do major-general”. É uma questão de técnica?

Não. Calhou. Não fiz nada por isso, mas realmente penso que os nomes aí diminuíam a personagem.

Então, preferiste deixar à imaginação do leitor?

Exactamente. Aliás, eu gosto de deixar muita coisa à imaginação do leitor.

Sim, percebe-se muito nos teus fins, sobretudo. Falo, em especial, do “A Cobra Verde” e “Ninguém Matou Suhura”. Os desfechos são abertos. É um fim inesperado, um baque para o leitor…

Os livros não são meus. O leitor tem a liberdade de sempre acrescentar alguma coisa. Não tenho ilusões de que aquele livro é meu. Não.

E esta mulher, “amante do major-general”, quem é ela?

Esta mulher é uma mulher como há muitas por aí, que têm uma vida faustosa, em geral, à custa sei lá de quem seja. No caso, era o major-general, reformado, que era casado e tudo. Mas ela não tinha problemas, desde que comesse bem, fosse às boates e recebesse alguma atenção em detrimento da mulher, estava tudo bem. Há muitas mulheres que vivem assim, em função do que o homem lhes pode dar. Não estão para trabalhar, nem para procurar qualquer coisa para fazer. Não. São autenticamente objectos de prazer, objectos de luxo e mais nada. Gostam da vida quem têm. Aliás, não é só em Moçambique. Convenhamos.

Imaginemos que alguém um dia decida encenar ou fazer um filme com um texto teu. Terias problema com isto?

Não. Eu acho que alguns dos meus livros, sobretudo alguns contos, como por exemplo o Xirove, são muito coreográficos. Pode se fazer dali uma ópera. Aliás, o Khupaluxa fez uma peça teatral de um conto meu, que eu achei muita piada. Não sei por que razão a rapariga foi interpretada por um rapaz.

Em “Escrever a terra”, Marcelo Panguana, numa carta que te endereça, diz: “Não se vislumbra nos teus livros nenhum rasto de outros escritores”, e conclui, “plagiaste a ti própria”. Podemos assumir como verdade o que o Marcelo diz?

Sim. Não sinto necessidade de ir copiar, ou ter alguma influência de outros escritores.

Ainda achas que ser escritor em Moçambique não é gratificante?

Não, não é. É muito pouco gratificante, por variadíssimas razões. O “Ministério da Educação” tem imensa culpa, porque esta preocupação de pôr as pessoas a ler não está na cabeça dos ministros que até agora passaram por lá. Pensam que basta ler aqueles textos dos programas está tudo bem. A pessoa já tem a décima segunda classe mas não tem nada, quase. O que se vai buscar fora do programa é que dá aquele background que ajuda a querer ir mais e mais além. A leitura, quer de romances, poesia, ensaios, tudo o que seja literatura, ajuda muito mais. Ajuda a ver. É por isso que acho que há fins que não são fins.

Aqui em Moçambique não é incentivado à criança e ao jovem o gosto pela leitura. O ensino não se interessa por isso. As bibliotecas são coisas mortas. Não são dinâmicas e não dão vontade de lá ir. Também os livros são muito caros. Um país pobre como o nosso não pode ter livros a setecentos meticais. Nunca. Os livros devem ser baratos, porque acontece que, muitas vezes, as pessoas que gostam de ler não são as que têm mais dinheiro. Essas gostam mais de cerveja, whisky e etc. Os amantes do livro têm de pensar. Ou compram o livro ou alimentam a sua família. E, então, entre comprar um livro e dar pão aos filhos, ele escolhe dar pão aos filhos. É evidente, por isso não compram. Houve uma pesquisa que chegou a conclusão de que só quinhentas pessoas é que compram livros para ler. E então? Num país de tantos milhões de pessoas, é muito triste. Então, o escritor, aqui, escreve por impulso, porque tem que escrever, não é porque vai tirar dali alguma coisa. Não tira nada.

Então, não te sentes realizada…

Sinto-me realizada em parte. Escrevi livros que eu queria escrever, sobretudo o primeiro. Senti aquele livro como uma catarse. Eu tinha uma carga psicológica muito grande que infectava todos os meus momentos de vida. Ao escrever aquele livro, eu pus ali, a nu, muitas coisas que as pessoas não sabiam. Aconteceu, entretanto, uma coisa muito engraçada. Muitos moçambicanos, negros, se revoltaram contra aquele livro. Disseram que “São coisas que a gente já sabe!” Não sabem nada. Envergonharam-se de ter sido espezinhados daquela maneira. Os livros que lhes interessavam não eram aqueles que faziam doer. Eram outros. Houve três ou quatro jovens que disseram, ‘‘mas aquilo já a gente sabia’’. É por isso que eu escrevi, num dos meus livros, “Quem não sabe de onde veio, não sabe onde está nem para onde vai”.

Disseste que te sentias realizada em parte. E a outra parte…

Já disse que ser escritor em Moçambique não é gratificante. Não há essa coisa de cultura de ler. O livro não é uma coisa muito importante. Eu sou uma pessoa que escreve o livro e não anda atrás dele. Devia andar. Isabel Allende diz “Se eu não tivesse um agente literário, não ganharia um tostão com os meus livros. Porque eu, sozinha, não sou capaz, de os vender”. Acho que sou do género da Isabel Allende. Escrevo os livros e, olha, estão por aí. Quem quiser, que vá comprá-los. Devia andar atrás, porque acho que é também um dever do escritor valorizar a sua obra. Mas eu tenho pouco jeito para isso.

Eis uma figura que nós não temos em Moçambique, o agente literário…

Quase todos países têm. Por vezes, são aqueles que mais trabalham. É uma das coisa que, realmente, se eu mandasse nalguma coisa, haveria de fazer os possíveis para esta figura aparecer com força (em Moçambique), porque é necessário. O escritor é um elemento muito importante para o progresso de um país. Em geral, esses grandes cientistas (Einstein e companhia) eram leitores compulsivos. A leitura deu-lhes aquele background de querer ir mais além.

Einstein disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento…

Exactamente…

A Noémia é a mãe dos poetas. A Paulina, a primeira romancista. Estaríamos a cometer um delito grave se disséssemos que a Lília é a mãe dos contistas ou a primeira contista moçambicana?

Não. Acho que não. Contista, sim. Lembrei-me agora da Paulina, do seu primeiro livro. Tinha um outro título, era “A Nuvem”, “Olha, Paulina, não podes escrever um livro que se chama A Nuvem. Ninguém te vai comprar um livro com este título”. E ela no fim concordou e escreveu “Balada de Amor ao Vento”, que realmente retrata o livro. A Sarnau e aquela história toda. O livro dela apareceu depois do meu “Ninguém Matou Suhura”, que são contos e o dela, “Balada de Amor ao Vento”, é um romance. Prontos. Eu acho que ela, realmente, é a primeira romancista…

E tu a primeira contista?

Pode ser…

Para muitos pesquisadores, a Lilía é também a “primeira feminista” literária de Moçambique, com uma narrativa repleta de mulheres vivas, insubmissas, fortes, donas de si, como a Aidinha, a tia Mariamo, a Muntaz ou Mena. Vou parecer idiota, mas a Lília é feminista?

Gosto pouco de rótulos, mas me considero feminista na medida em que luto pela igualdade de género. Acho que é um disparate a pessoa por ser mulher não ter certos direitos. Felizmente, hoje a coisa melhorou. Mas havia coisas incríveis, a mulher tinha que pedir um papel ao marido, para viajar, se não estava presa como a amêijoa. Essa coisa de a mulher ter que se submeter a tudo que o marido quer é uma violência. Eu sou pouco dada a que me façam violência. Não gosto e acho que neste aspecto posso ser feminista, sim.

Num artigo, as professoras Ezra e Rosellete ligam esta “tua” característica ao facto de seres do norte de Moçambique, de Nampula, onde prevalecem as sociedades matrilineares e a mulher ocupa um lugar de chefia. Concordas com esta conclusão?

Não. Mas na verdade ela tem razão, em certas partes. No norte, o homem não manda assim muito na mulher. A mulher é dona de suas escolhas e, rapidamente, se o homem não lhe agrada, o manda passear. Elas são, na maior parte, muito lindas. Têm uma beleza, uma formosura e até um cheiro típico. Tem muito bom gosto, vestem-se muito bem, tem um bonito andar. Andam a dançar. Na altura, queriam obrigar aquelas senhoras a andarem de vestidos. Elas disseram “não, isso não é a nossa tradição”. Pode ser que os exemplos que eu tive na minha infância me levasse a achar disparates esta coisa do macho. Não sou feminista no sentido de ser como aquelas mulheres que tiram sutiã. Não é nada disso. É sobre igualdade de género. As [mulheres] Macuas sabem muito bem que têm valor e aproveitam-se da sua grande beleza como uma arma. É uma arma.

O texto “Ninguém Matou Suhura” incomoda-me demasiado. Afinal, o senhor Administrador matou a Suhura. “É preciso não esquecer o que se foi”, diz a Lília. É o que define o teu projecto literário? O pós-colonialismo?

Às vezes converso com jovens e dá-me a impressão de terem caído de pára-quedas. Não têm passado. Esqueceram-se. E a pessoa que não conhece o seu passado volta a cometer os mesmos erros, sempre. Os pais não contam nada, muitos com vergonha de terem sido usados, é errado. Deve-se falar e falar e falar, para as pessoas terem consciência de quem são.

Ninguém nasce do nada. E se a pessoa não sabe do seu passadio, o que viveram os seus avós e pais, é uma pessoa truncada. E uma pessoa truncada não é capaz de fazer grandes coisas.

Então, o teu projecto literário nem chega a ser rever a história, mas repor a história…

Chamar a atenção para a necessidade de conhecer a si próprio e a sua história. A história é muito importante. Por que é que hoje somos assim? Por que é que fizemos coisas tão esquisitas? Por que é que nos deixamos abater? Nada disso pode tornar a acontecer. Portanto, os meus livros procuram retratar a sociedade. Não é só para diversão. Mas, de qualquer maneira, os meus livros têm um objectivo. O principal é povo moçambicano. Sempre. Tanto que nunca fui capaz de escrever fora de Moçambique, o que é engraçado. Vivi muitos anos fora, mas nunca fui capaz escrever em outra terra. O meu primeiro livro escrevi já tinha cinquenta anos, porque estava aqui. Moçambique é o meu chão.

E como é que foi a tua experiência no Brasil?

Foi uma experiência um pouco estranha. Agora vai sair um livro meu [“Ninguém Matou Suhura”] no Brasil. E a crítica diz que é um livro maravilhoso, belo, etc. Mandaram-me a crítica, o prefácio e o prólogo, só maravilhas.

Para o contexto brasileiro actual, é como se o livro tivesse sido escrito ontem…

Exacto. É mesmo isso, mas a minha experiência no Brasil foi muito interessante. Fui para lá porque o meu marido é branco, português, mas quando Moçambique ficou independente, ele foi naturalizar-se ao segundo dia. Nos finais da década 60, ele estava chateado com a sociedade de então, e disse-me, em 1968, para irmos ao Brasil. Tinha lá a mãe, a quem ele queria ver, e também queria ver se não era obrigado ver as coisas que via aqui, com o colonialismo com que não concordava em nada. E fomos lá, os dois, sem emprego e sem nada. Chegamos lá e tivemos a sorte, boa sorte, porque não acontecia a toda a gente. Tive emprego rapidamente, como assistente social numa companhia de habitação para classes desfavorecidas, em São Paulo. Passei na entrevista porque disse que detestava Salazar. Fiz um importante estudo socioeconómico em Garulhos e fui chefe de divisão até sair de lá, em 1972. Porque adoeci, mas não queria sair do Brasil. Mas queria vir morrer na minha terra. A minha experiência no Brasil não foi traumática. Foi uma coisa fora do sério. Acho que aquilo não acontece a toda a gente. Aconteceu-me a mim, não ter experiência de racismo. Sabia que havia racismo e até uma coisa chamada Esquadrões da Morte, onde morriam só os negros. Até hoje morre mais negro do que outra coisa. Dizer que eu sofri o racismo, não, mas sei que há racismo no Brasil.

Tens lido novos autores, jovens? Lembras-te de alguma coisa que leste?

Tenho lido muito pouco. Já antes de eu ter o AVC, a minha vista não era boa. Tenho ali o último livro do Mia Couto, que ele até me deu. Estou ler a pouco e pouco e há tanto tempo, porque não consigo focar a vista. Tem um autor que gosto muito. Não sei se é do autor ou se é da pessoa, que é o [Nelson] Lineu. E gostei do livro dele.

O “Cada um em mim”?

Sim. Um livro de poesia. Quando foi a apresentação dele, li um poema. Gostei muito porque ele é muito jovem, mas está a brincar com coisas muito profundas. E agrada-me.

Publicado originalmente no semanário “Ponto por Ponto”, edição de Quinta-feira, 10 de Março de 2022, Maputo.

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