A arte como ponte entre as cidades e os Guettos

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Fotografia de Júlio Marcos

O casaco coberto à capulana nas costas, Hélio Nhanala caminhava aos ziguezagues entre as cadeiras, em direção ao palco do CCMA, em Maputo, diante de dezenas de olhares que o acompanhavam. Galgou os pequenos degraus da estreita elevação e, quando já se encontrava no centro dos holofotes, puxou uma cadeira, onde se sentou, e ajeitou o microfone a sua altura, antes de, com a sua voz, proceder a abertura do ‘‘Guetto na Cidade’’.
Começou por fazer os últimos arranjos na guitarra, companheira de longa data, depois agradeceu a Cecília Mahumane, mentora da iniciativa, por lhe conceder a oportunidade de se apresentar diante de uma moldura humana maioritariamente jovem e num evento que quer fazer a diferença pela positiva, (re)contando histórias, levando testemunhos e partilhando com as cidades as vivências das gentes das periferias. Também morador nos bairros de lata, madeira e chapas de zinco, Hélio Nhanala subiu ao palco com a mesma certeza que guia a organização do evento ‘‘Guetto é vida’’.
A arranhar as cordas da guitarra, a voz deleitável, envolveu o público numa serenata. Uma Ode à paz, elemento que acredita ser o elo capaz de unificar o país, num momento em que o norte de Moçambique vive de braços com constantes ameaças do terrorismo.
Durante os minutos em apresentação, o músico e sua companheira de colo exibiram uma multiplicidade de sonoridades, mesclada à letra em português com algumas passagens em línguas bantu, tendo mantido a atenção dos presentes a sua mercê, que correspondiam com acenos e, por fim, aplaudiram em clara demostração de gáudio.
Era o início de uma noite que ainda reservava surpresas e emoções. O ‘‘Guetto na Cidade’’ é uma iniciativa artística multidisciplinar, desenhada pelo projecto Chamanculo é Vida. Na sequência, também houve mostra do documentário ‘‘Perspectivas do Meu Guetto’’, de Cecília Mahumane, seguido de debate em torno das referidas perspectivas (ou diferentes olhares) sobre os Guettos, que juntou os artistas Ivan Muhambe, Berta de Nazareth e Watson Colosse, sob moderação de Lídia Siquela, todos oriundos de bairros periféricos.
No mesmo contexto, decorreu, ainda, o lançamento oficial do site ‘‘Chamanculo é Vida’’, espaço em que se pode visitar a exposição fotográfica ‘‘Guetto é a cena’’, inaugurada na mesma ocasião, e também não faltou performance de poesia, na voz de N’wantshukunyani Khanyisani.
Ser artista no Guetto ainda é um desafio
Entre as zonas de cimento e as periferias da cidade e província de Maputo, as diferenças são enormes. A começar pela começar pela arquitetura, o que chama a atenção a primeira vista são os materiais e o feitio com que as habitações foram erguidas nas periferias. Muitas delas originalmente de chapas de zinco, vão dando espaço a casas de alvenaria, entre numerosos becos ou caminhos pelos quais os moradores trilham nas suas rotinas diárias.
Artista de rua e membro do movimento Maputo Street Arts, Ivan Muhambe descobre-se artista pintando publicidades nas ruas da Unidade 7, onde nasceu e cresceu, mas também teve influências familiares. Expressa-se pintando murais no seu bairro e um pouco por toda a cidade e província de Maputo, pois a seu ver ‘‘todo o Maputo é Gueto’’.
Para o artista, há dificuldades na diferenciação entre os espaços comummente tratados por ‘‘Guetto’’ e as cidades, tudo isto porque ‘‘a maioria dos referidos bairros está muito próxima ao bairro central’’.
‘‘Devíamos rever este orgulho de ser ou não Guetto, porque em Maputo não conheço algum bairro a que se pode chamar Guetto que esteja longe do bairro central’’, comentou, a explicar que ‘‘eu vejo Maputo como um Guetto, inteiramente’’.
Houve falhas, continua Ivan Muhambe, na forma como os conceitos Guetto-Cidade foram imputados na consciência colectiva. ‘‘Quando falas de cidade para alguém que vive no subúrbio, geralmente tem a ideia de prédios, mas onde é que está Chamanculo? Há que se discutir profundamente sobre o que é que faz uma cidade’’, afirmou.
Durante o debate, que durou cerca de uma hora e meia, Ivan Muhambe levantou uma série de problemas actuais que acredita ter sido originada pelo desconhecimento da história da própria cidade por parte das novas gerações. À semelhança de outros artistas originários das periferias, Ivan vive uma das grandes inquietações ora discutidas.
Trata-se das nuances que envolvem o ser artista nos guettos, desde a sua génese, acompanhamento familiar e escolar, bem como a inserção nos diferentes sectores da sociedade. No entender do também activista social, a arte e os artistas ainda são deixados a margem de vários aspectos de capital importância. A não inclusão da arte nos currículos escolares do SNE (Sistema Nacional de Educação), o que podia permitir o enraizamento do interesse pela leitura ainda em tenra idade.
‘‘No bairro, ser artista ainda te sujeita à discriminação. Isto de alguma forma mostra que há algum problema na educação, visto que a arte não é vista como profissão. O Mesmo acontece nas famílias, é só quando começas algum dinheiro que és respeitado, e nas escolas primárias onde as artes ainda não o foco’’, explica.
Não vitimizo o Guetto
Alinha no mesmo diapasão o fotógrafo e co-fundador do movimento ‘‘Eu Sou do Guetto, Watson Colosse. Baseado na Matola Santos, uma zona que se encontra do percurso entre as cidades de Maputo e Matola. Contrariou os desejos de seus progenitores, de o meter na igreja para que tivesse educação de cunho religioso, e seguiu a arte. Apaixonado por documentar, Começou no teatro, numa congregação no seu bairro de origem, depois seguiu pela pintura, antes de atracar na fotografia, meio com que explorar as peculiaridades dos arredores das cidades.
‘‘Sempre percebi que havia algo diferente no Guetto’’, disse. E é nessa diferença que se baseia a maioria das suas obras, pois encontra nos subúrbios um misto de sentimentos e corres. ‘‘Uma coisa que procuro fazer com a fotografia é refletir a resiliência. No Gueto conheci pessoas espectaculares, que fazem cenas muito nices, por isso não vitimizo o Guetto’’.
Com os artistas e outras pessoas que conheceu nas periferias, co-fundou, em 2020, o ‘‘Eu Sou do Guetto’’, um movimento cultural focado na ideia de promover o gosto e consumo dos produtos artísticos nas zonas de origem dos seus fazedores, muitos deles nativos e residentes na zona periférica.
‘‘Lá somos todos artistas e a cidade nos chama, nós em casa, no Guetto, para mostrar o que fazemos’’ avança. Watson Colosse defende que ‘‘o Artista para nós do Guetto não é só quem pinta, desenha…é, também, quem apesar de não ter emprego, consegue suprir suas necessidades básicas. Para mim, isso é arte’.

No debate que tinha também como objectivo quebrar fronteiras que separam as periferias das cidades, também esteve no painel a socióloga e activista para os direitos das mulheres, Berta de Nazareth.
Nos becos de Maxaquene A, a também empresária muito cedo tornou-se mulher de grandes responsabilidades. Perdeu a mãe, ainda em tenra idade, passando a cuidar dos irmãos mais novos, com base na pequena renda que obtinha como bailarina.
De bailarina, passou à coreografa, mas sempre de olhos postos em algo ainda maior. Feminista assumida, fundou a organização juvenil Litsuri, para responder aos desafios impostos à vida das raparigas e mulheres jovens dentro da sua comunidade.
Na sua intervenção, Berta de Nazareth destacou o elemento histórico como fundamental na compreensão das realidades actuais observadas nas cidades e nas respectivas periferias.
‘‘Estamos diante de um processo histórico e revolucionário, a partir do qual o Guetto construiu as cidades’’, descreve, a sintetizar que como resultado de todo este sistema ‘‘as cidades aprenderam a identificar as pessoas do Guetto, porque temos identidade própria, uma forma característica de ser e estar’’.
As dinâmicas do Guetto são totalmente diferentes, prossegue, a questão da urbanização e saneamento, as dificuldades do dia-a-dia e acessibilidade das nossas são prova disso.
‘‘Nas minhas actividades diárias, procuro elevar raparigas, através das artes, porque comecei nas artes a fazer a vida’’, revela.
Vida que até hoje é ganha através das artes ‘‘arte vende, mas é relativo àquilo que cada um quer ter. Nunca é suficiente’’, detalhou.

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Encontra no jornalismo um espaço fértil para alimentar o gosto de narrar factos e partilhar experiências do dia a dia. Estudante finalista pela ECA-UEM, vê na leitura e escrita ferramentas indispensáveis para contar hi(e)stórias, exteriorizar-se e conduzir o mundo pelo caminho da luz e da boa convivência entre pessoas. Também tem formação técnica em Jornalismo e Multimédia e colabora com a plataforma Mbenga desde 2019. Tem, ainda, textos publicados em diversos semanários nacionais.

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