Curar males com faixas musicais

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Capa do álbum

Seis anos depois, Deltino Guerreiro materializa o sonho de colocar no mercado o seu segundo álbum de originais, intitulado “Rokotxi”, nome macua de uma planta medicinal usada para a cura de diversas doenças. O trabalho discográfico, com oito faixas musicais, é reflexo das suas experiências, vivências, mas, acima de tudo, da necessidade de deixar uma marca indelével na história da música moçambicana com um trabalho que demonstra uma vontade de comunicar com o mundo através da música.
“Rokotxi”, que chegou ao público sexta-feira última, conta com 500 exemplares. Tem a colaboração do rapper Azagaia (na música “Com amor se paga”) e de Assa Matusse (“Rokotxi”, que dá título ao álbum). Para além destes dois artistas que Deltino admira, o álbum contou com o contributo de um naipe de instrumentistas de luxo: Nelton Miranda, Hélder Gonzaga, Stélio Mondlane, Walter Mabas, Guto D’Harculate, Amade Cossa, Albino Mbie, Lívio Monjane bem como da Zep Studio e da Friend Studio.
No “Rokotxi”, Deltino canta a humanidade, Deus, amor, a mulher, direitos humanos, espiritualidade… num álbum que se sente a influência vocal e da percussão do norte de Moçambique, nesta sua busca pela reafirmação no afro-soul.
Segue a conversa em discurso directo.
O que é rokotxi?
Rokotxi é uma planta medicinal que conheci em Montepuez, minha terra. Tem múltiplas funções de cura, desde dores de cabeça até febres. Quando tinha seis anos, a minha avó usou-a para me curar de uma febre. É uma planta resiliente. No meio de queimadas descontroladas, rokotxi fica murcha, mas reergue-se facilmente. E é esta mensagem que quero passar, que a nossa cultura é forte, ela pode ser ofuscada num determinado momento, mas um dia vai levantar e para isso nós temos de ser rokotxi da nossa cultura.
Foi buscar este conceito para relacioná-lo com o que se vive nos últimos dois anos?
Não, escolhi o título em 2019, antes da covid-19. Foi numa altura em que havia um debate sobre a alienação cultural em Moçambique e se dizia que o país tem sofrido com a influência da música estrangeira.
A pandemia coincidiu com o momento, uma coincidência se calhar feliz, já que rokotxi é uma cura e nós precisamos dela para nos curarmos de todos os males, incluindo para os irmãos que estão a sofrer em Cabo Delgado, a quem endereço o meu abraço. Um disco da terra deles, de certeza que ao ouvirem o álbum vão se identificar. Quando escutarem as mensagens de amor, vão encontrar consolo.
É um artista que está preocupado com a internacionalização. Ao dar título do álbum com uma língua local, de certa forma coloca uma pequena barreira…

Existe realmente uma ideia de que a língua possa ser uma barreira. Há muito tempo cantávamos músicas em inglês sem sabermos o significado. E as músicas batiam aqui. Por que não pode acontecer o mesmo com a nossa língua? Senti isso quando lancei a música “I didn΄t”. As pessoas queriam perceber o que falo na língua macua. No vídeo legendámos em português e inglês. Então já dá para perceber a minha preocupação com relação à internacionalização. Temos de ter em conta que ela não se pode basear só no inglês. Enfim, pensei nesta questão da língua, mas macua, que é da minha terra, falou mais alto.
O título que dá nome ao primeiro álbum é “Eparaka” (bênção). Neste é “Rokotxi”, algo que cura, e o que cura é uma bênção. Tinha pensado neste paralelismo e nesta dimensão espiritual que vai aparecendo na sua música?

Não (risos). Tu agora é que me estás a fazer reflectir. Mas isto faz-me pensar que sou muito espiritual. Tudo o que envolve rokotxi é íntimo, independentemente da religião que a pessoa professa. O que importa é que a pessoa terá um rokotxi, que é a coisa na qual acredita. Então penso que tenho este lado espiritual e que anda aí às escondidas. E esta relação que faz com “Eparaka” é boa, mostra que sou consistente.
Na música “Com amor se paga” fala da necessidade de mergulhar nesta outra forma de amar, sem olhar para o lado material. Sente que estamos a perder a irmandade?

Venho de Montepuez e não sabia que precisava de tanto dinheiro para comer. Quando chego em Maputo percebo que em tudo que tenho de fazer é necessário ter dinheiro, desde sal ao facto de um vizinho me ajudar a tirar um carro do areal. Vivi isto e percebi que estamos a perder esta coisa de ajudar sem que se agradeça financeiramente. É incrível que mesmo quando não pedimos, ao ajudar, a pessoa sente-se na obrigação de dar algo.
A cura que “Rokotxi” nos dá é uma extensão do amor de Deus. Aparece numa altura em que nos vemos mergulhados numa crise. Morremos todos os dias, aos milhares. É um teste à nossa fé?
Tenho receio que a minha resposta seja armadilha. Mas não é teste. Está escrito que no fim dos tempos teríamos coisas críticas, doenças sem cura e passaríamos por aflições. Aquele que vive a palavra de Deus sabe disso. Este é apenas um teste para sabermos lidar futuramente com os maiores problemas que estão por vir.
Segue um trilho que choca com a violência. Uma continuidade do “Eparaka”…
Desta vez não olhei muito para a ideia de defesa, mas na da valorização, indo ao encontro da igualdade de direitos. Sou muito a favor das lutas das mulheres. Excepto algumas, como o feminismo radical. A violência contra o género é uma coisa detectável e isto Deltino não apoia. A mulher sofre mais, mas Deus fez ela para ser amada.


FÃ DE AZAGAIA E ASSA


No primeiro álbum, “Eparaka”, não tem participações. Neste segundo conta com duas. Está a chegar a era de maturidade?

No primeiro álbum não queria que se conotasse o meu sucesso com o facto de estar atrás de alguém, como se estivesse ali atrelado. Se tivesse feito o primeiro com alguma participação, certamente que diriam isso. Quis também dizer que tenho talento suficiente para engrenar no mercado e firmar-me. Perguntas-me se me sinto maduro agora para fazer algo com outros artistas. A pergunta se calhar devesse ser “se me sentia maduro para fazer sozinho o ‘Eparaka’”. Mas a minha resposta é a mesma: não queria sucesso só para depois dizerem que é porque alguém me lançou. Neste segundo, senti a necessidade de trazer colaborações.
Por que escolheu exactamente Azagaia?
Porque venho do hip-hop antes de abraçar este novo estilo. Escolhi Azagaia para a música “Com amor se paga”, porque percebi que ela (a música) era a cara dele. Não consegui ver outra pessoa que podia representar da melhor forma. Eu e ele já tínhamos uma relação muito boa, fazíamos parte da mesma editora (Congolote Records), e ele aceitou o convite.
E qual foi o critério para a escolha de Assa Matusse como uma das artistas a fazer parte do álbum?

Sou fã incondicional dela, do talento, uma das melhores vozes femininas que temos no país. Tínhamos Zena Bacar como melhor voz feminina. Infelizmente, perdemo-la. Sem ela, sinto que Assa é essa voz que eu precisava para este trabalho. E as pessoas já vinham pedindo que fizesse algo com ela.
Em 2017 falava da preparação do segundo álbum e mencionou dois nomes: Azagaia e Assa…

Já nem me lembrava, mas isto só mostra que cumpri com o meu desejo.
Quer dizer que já naquele ano tinha as composições feitas ou apenas estava a idealizar?

Era antes de compor. Comecei a escrever este álbum em 2018, mas vejo que consegui manter a palavra. É uma demonstração clara de que sou fã destes dois artistas.
Há uma diferença no número de músicas entre o primeiro e o segundo álbum. No primeiro são 10, neste 8. Uma redução propositada?

Na verdade, neste álbum também queria 10 faixas. Não é meu feitio passar deste número. Actualmente o padrão internacional é de 10. Quando o número é maior há dificuldades para promover o álbum. Em princípio, “Rokotxi” era para ter 10 músicas, só que a pandemia trouxe entraves e, ainda assim, o orçamento para a produção do álbum continuou alto. Ter abdicado de dois temas ajudou a manipular a gestão financeira. Mas também oito são suficientes, que é para as pessoas curtirem o álbum e o esgotem. Acho também que é desperdício de recursos colocar 20 músicas num álbum. Normalmente as pessoas gostam apenas de três músicas num álbum…
Quais destas músicas foram produzidas no contexto da covid-19?
“Rosa”, “Rokotxi” e “Ettuniya”.

Fiz o máximo para superar “Eparaka”

Já são três músicas disponíveis no Youtube. “Rokotxi” está lá há uma semana e são quase 5 mil visualizações. “Com amor se paga” quase 90 mil. Estes números dizem alguma coisa sobre o impacto do seu trabalho?
São números positivos por causa da minha linhagem musical. Sei que não sou um artista popular, as minhas visualizações não são soberbas como de Mr. Bow, por exemplo. Esse número é razoável para o mercado que estou a perseguir, o que me deixa feliz. Significa que estou a entrar nas pessoas com um ritmo não muito habitual. Tenho só 3 mil subscritores e se alcancei quase 80 mil visualizações é porque se está a partilhar o trabalho. “Rokotxi” já tem quase cinco mil em uma semana…
O seu primeiro álbum impactou. Como foi pensar neste com a ideia de superar o primeiro?

Tive de facto esta responsabilidade de fazer algo para superar. E nem era por minha causa, mas pelas pessoas que têm uma expectativa. Amam “Eparaka” de forma incrível, os prémios que me deu, os festivais, as viagens… Esta responsabilidade sempre esteve na minha cabeça. Tomei todo o cuidado para tentar superá-lo, mas se eu conseguir chegar perto já é suficiente. O primeiro filho é sempre primeiro. Mas acredito que aquele que vai escutar notará que em termos de sonorização e ritmo há uma distância entre os dois. Amo os dois e foram feitos com todo o cuidado. Fiz de tudo para não envergonhar “Eparaka”.
Mas não superar o primeiro trabalho é um medo que persegue a todos os artistas…

Todo o artista que fez sucesso com o primeiro trabalho sente este medo.
Já tem concertos agendados para o lançamento do álbum?

Sim. Para Maio.
Vai levar este trabalho à cidade da Beira, pelo que ficámos a saber…
Em Fevereiro. Há também negociações para Tete, mas nada fechado. Quero fazer isto em todas as províncias. Preciso que as pessoas tenham acesso ao “Rokotxi”.

Quem é Deltino Guerreiro

Nasceu no distrito de Montepuez, na província de Cabo Delgado. Ainda menor, mudou-se para Nampula para viver com a mãe e foi lá onde começou a dar os primeiros passos na música.
Iniciou o seu percurso musical fazendo hip-hop com um grupo de amigos que se juntavam todos os fins-de-semana para cantarem. Vezes há que tentava uma aventura pela kizomba.
Formou B Star, um grupo de rap, com amigos. Foi membro da P Records, uma banda também de rap. Em 2011 mudou-se para a capital do país com o intuito de frequentar o ensino superior.
Formado em Economia, frequentou também a Escola de Música, onde aprendeu a tocar guitarra.
Para além dos dois álbuns, conta com várias colaborações. já viajou meio-mundo espalhando o perfume da sua arte. Esteve em diversos festivais.
Vem somando galardões, com destaque para o da melhor voz e de artista revelação, todos do Ngoma Moçambique.

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Encontrou na escrita o tubo de escape para a vida. Nasceu no Posto Administrativo de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza. Foi lá onde deu os primeiros passos da vida. Formado em Jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo e em História pela Universidade Eduardo Mondlane, é membro da Plataforma Mbenga Artes e Reflexões desde 2014. Além de escrever, também edita e sonoriza o programa radiofónicos desta plataforma, intitulado Conversas ao Meio Dia, que vai ao ar todas as sextas-feiras, na Rádio Cidade. Pretilério Matsinhe colabora igualmente com muitos outros jornais da praça!

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