Fundação José Craveirinha sugere um prémio internacional em homenagem ao poeta da Mafalala

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Fotografia de Armindo Mathe

O Prémio José Craveirinha poderia evoluir para um galardão internacional em respeito ao legado do seu patrono que se expande além-fronteiras, sugeriu a Fundação José Craveirinha, na manhã de hoje, na sua sede, onde funcionou a Casa-Museu, na Mafalala.
A sugestão foi dada por Zeca Craveirinha, Presidente da fundação, na conversa com os convidados, entre os quais o vice-ministro da Cultura e Turismo Fredson Bakar, escritores, editores, músicos e outras figuras da intelectualidade moçambicana.
Este galardão, prossegue o gestor do espólio do escritor, poderia abranger escritores de outros cantos do mundo, não se circunscrevendo apenas a Moçambique.
O propósito da cerimónia na qual decorreu esta conversa era anunciar a abertura oficial das actividades do centenário do jornalista cultural e desportivo, desportista, poeta, escritor, intelectual e activista que pelos feitos, mais visíveis na escrita, repousa na cripta da Praça dos Heróis Moçambicanos. José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922 e perdeu a vida há 19 anos.
Zeca, que é filho desta figura incontornável da história do país, entende que um prémio internacional do jornalista desportivo, desportista, ensaísta ampliaria o interesse pela pesquisa e contribuiria para a projecção deste que é considerado um dos maiores poetas moçambicanos, africanos e de língua portuguesa.
O Prémio José Craveirinha de Literatura, instituído pela Associação dos escritores Moçambicanos (AEMO) e patrocinado pela Hidroeléctrica da Cahora Bassa (HCB), é atribuído aos autores moçambicanos, nos géneros de Poesia, Ficção narrativa e Drama.
José Craveirinha, um dos inventores da moçambicanidade, autor de, estre outros, Karingana na Karingana – por alguns considerado o seu magnum opus –, conforme o presidente da Fundação, terá um memorial numa das mais movimentadas avenidas da cidade de Maputo terá um memorial.
A escritora Paulina Chiziane, em 2003, foi a primeira a vencedora, seguindo-se Eduardo White em 2004 e João Paulo Borges Coelho em 2005, entre outros nas edições que não cessaram até o ano passado.
Prometeu mais detalhes em momento oportuno, que não faltará neste ano em que prevê actividades da fundação e de outras instituições e individualidades que realizarão colóquios, palestras, saraus, como é o caso da AEMO, representado no evento pelo seu Secretário-Geral Carlos Paradona Rufino Roque, que em janeiro dedicou ao poeta um sarau.
Ivan Laranjeira, director do Museu Mafalala, noutra ocasião, em entrevista ao “Mbenga” disse que o plano curatorial da instituição inclui projectos que celebrem, questionem e actualizem esta figura activa nas actividades de emancipação da comunidade sobre a consciência do facto de estarem colonizados.
Craveirinha mobilizou jovens pelos becos da Mafalala, no Comoreano, uma cantina onde os residentes do bairro de Madeira e Zinco (desde a década 30), entre outros espaços, sobre a necessidade de se libertar não apenas do regime político, mas espiritualmente partindo de exemplos de negros dos Estados Unidos de América, como as tantas estrelas do jazz nos seus poemas.
Este filho de, como sempre frisou, mãe ronga e português do Algarve, que jogou futebol, em 1959 mereceu o prémio da cidade Lourenço Marques que se seguiu a muitos outros como a conquista da independência de Moçambique, que previu nos seus poemas e ajudou os nativos a (re) descobrir ao celebrar estrelas negras do box, e nos corredores dos primórdios da marrabenta, que ajudou a dar vida, a vibrar, talvez com o que significou o jazz para o Renascimento de Harlem, que ao que se percebe o pode ter influenciado.
A Revista ALĔRE, publicação semestral do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Campus de Tangará da Serra, no Brasil abriu, para este ano, “se comemorará os seus centenários de nascimento”, referindo-se igualmente ao angolano Agostinho Neto, uma chamada de projectos de pesquisadores para a contribuição de artigos que tratem, sobretudo, de suas obras artísticas.
José Craveirinha nasceu em Lourenço Marques atual Maputo, Moçambique. Autodidata, desempenhou diversas actividades tais como funcionário da Imprensa Nacional de Lourenço Marques, jornalista, futebolista, tendo também colaborado em diversas publicações periódicas, nomeadamente O Brado Africano, Itinerário, Notícias, Mensagem, Notícias do Bloqueio e Caliban.
Foi preso pela PIDE, mantendo-se na prisão durante 5 anos. Posteriormente após a independência de Moçambique foi membro da Frelimo e presidiu à Associação Africana.
Recebeu o Prémio Alexandre Dáskalos, o Prémio Nacional, em Itália, o Prémio Lótus, da Associação Afro-Asiática de Escritores e o Prémio Camões, em 1991.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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