O POETA DE CINZAS – uma releitura de “Gaveta de Cinzas”, de Nick do Rosário

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Gaveta de cinzas

Escrito por Marcelo Panguana (escritor e ensaísta)

Antes de mais nada quero manifestar a minha profunda satisfação pelo convite formulado para tentar esboçar algumas palavras sobre “Gaveta de Cinzas: Solilóquios”, livro escrito pelo Nick do Rosário, poeta que se insinua de forma discreta e nos mostra as múltiplas faces através dos quais se constrói a nova poesia moçambicana. Para além dos aspectos abonatórios que possamos encontrar ou não nesta obra, há uma realidade que ela nos mostra – a de que a nossa literatura atravessa um momento de explosão e de afirmação que a tornarão, creio, numa das literaturas mais apetecíveis nos países de expressão portuguesa. Quero, por outro lado, partilhar com agradável espanto o facto de ser cada vez crescente o número de poetas oriundos das bandas do Rio dos Bons Sinais. E não me canso de perguntar: o que torna Zambézia nesse berço inesgotável de profícuos poetas? Falo do Eduardo White, Armando Artur e do Hélder Muteia; Falo de escritores que brilharam noutros tempos como Heliodoro Baptista, João Inronga Pai, falo daqueles que nos tempos mais recentes me surpreendem, como o Pedro Pereira Lopes, Japone Arijuane, Nelson Lineu ou um Britos Baptista, todos poetas, todos filhos da Zambézia, todos ricos na sua expressão poética e na originalidade do seu traço. O que faz com que a Zambézia seja esse inesgotável manancial literário? Esta interrogação se repete diante do livro de Nick do Rosário, quelimanense, zambeziano de gema, licenciado em literatura moçambicana pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, profissional da área de viagens e turismo, e sobretudo poeta apostado em transmitir-nos o seu testamento literário através de cerca de quarenta e quatro poemas que compõem o seu livro de estreia.
Tenho me referido, algumas vezes, que a apresentação de um livro, qualquer que seja, serve apenas para abrir portas que permitam ao leitor ter a possibilidade de espreitar para o seu interior e descobrir, com a sua própria leitura, aquilo que ele contem e representa. É esta a responsabilidade do apresentador de um livro, o de ser um duvidoso divulgador de valores, sem dúvida nenhuma uma missão delicada, quando se sabe que a apreciação dos méritos duma obra literária assenta, quase sempre, em critérios pessoais falíveis, por isso discutíveis. De modo que abrir as portas e janelas para que o leitor possa ter a possibilidade de espreitar a poesia de Do Rosário, é uma tarefa difícil, como, aliás, acontece na apresentação de livros, principalmente os de poesia, sempre cheios de metáforas e enigmas à espera de serem decifrados. E aqui nos perguntamos: que enigmas nos reserva este livro?
O título da obra, “Gaveta de Cinzas: Solilóquios”, sugere-nos, à partida, um ambiente físico, real, palpável, isto é, leva-nos à uma gaveta cheia de cinzas. Apenas isso. Mas se lermos essa expressão numa perspectiva poética, metafórica, somos encaminhados para um outro universo, a um espaço afectivo, onde provavelmente terá acontecido um descalabro dos sentimentos do poeta, sentimentos que se transformaram em cinzas guardados numa gaveta. Concluímos, pois, que houve fogo. Que algo de mais profundo se queimou. O amor, provavelmente, ou talvez não. Mas nada melhor que recorrer, se quisermos decifrar o título e compreender o significado do próprio livro, ao professor Demétrio Alves Paz, especialista em Teoria Literária e Literaturas de Língua Portuguesa, ao afirmar no interessante prefácio que elaborou para este livro, que “a gaveta é um lugar para guardar, armazenar. Lá, a alegria é procurada, mas é a vida o que se encontra. As cinzas do título podem ser a memória, o que passou, o que se viveu: a vida que emana dessa busca na gaveta”. E fecho a citação. No entender de Demétrio Paz, o livro tem muito a ver com memória. Carlos Reis, numa interessante reflexão denominada “Ficções da Memória: reinventar a vida”, refere que a memória impõe ou, pelo menos, sugere um índice razoável de fidelidade ao que foi vivido pelo sujeito que recupera coisas, pessoas, lugares e incidentes sociais – e obviamente os molda numa perspectiva literária. Nick do Rosário tem a plena consciência desse facto quando diz:

“Hoje chove no jardim das memórias
Nos amplos campos profanos
Hoje tecemos sonhos na lareira
atravessamos uma pátria inútil
para lavrar o que perene existe”

A impressão primeira que se tem depois da leitura deste livro é de que estamos perante um poeta que parece ter medo das palavras, isto é, das frases longas, de enunciá-las com toda a sua intensidade e dimensão. É como se nos seus poemas tudo ficasse por dizer. As frases são curtas. O seu voo poético se assemelha a de uma ave que traz as asas quebradas. Mas lendo os poemas com atenção, e é afinal isso que Nick do Rosário pretende, porque é essa a sua estratégia, acabamos por compreender com absoluta nitidez, aquilo que o poeta nos quer transmitir, que é, em primeiro lugar, que a poesia não se faz com grandes discursos, que bastam apenas breves solilóquios para dizer tudo sem escrever muito; em segundo lugar, que nesta aventura que é a literatura moçambicana, ele, Nick do Rosário, traz uma proposta, um modo particular de fazer poesia, de deixar ficar o perfil duma poética própria e autêntica”. E nesse processo o poeta fala-nos de muitas coisas, como, por exemplo, deste mundo que se vai quebrando aos poucos:

“Os sonhos atracam
em navios carcomidos
e fitam à espreita
um mundo que se quebra em silêncio”

E detemo-nos nesta expressão: um mundo que se quebra em silêncio. O nosso mundo. E nós, o que fazemos? Quase nada. Assistimos, impávidos e serenos, a este desmoronar de valores capaz de nos levar a um lugar próximo do abismo. Deixamos, aos poucos, de sermos nós próprios. Deixamos de lutar. E o mais grave: deixamos de sonhar. E até quando? Folheando as páginas do livro encontramos outros versos, outros sentidos, outras metáforas, como está escrito no prefácio do livro, há uma série de palavras-chave nos poemas: cidade, corpo, infância, lembrança, memória, mundo, noite, silêncio, sonho e tempo. Mas é, sobretudo, do amor que o livro nos fala. É ele que ocupa a maior parte das páginas. O amor transforma-se, assim, na tábua de salvação do poeta, isto é, na tábua de salvação da própria literatura, porque aquele que ama uma mulher também ama as palavras. Não é por mero acaso que o amor domina as páginas deste livro. Leio:

“Desejo-te molhada
no calor da nudez
ao som do nhambaro
na capulana presa
tua infinita poesia”.

Uma das maiores angústias do escritor não será propriamente a folha em branco, o “início da viagem”, como prefiro dizer, mas sim, a descoberta da sua originalidade, do seu estilo próprio, da sua marca. Não interessa o contexto que aborda, as defesas das liberdades que apregoa, os amores que exalta, a reconstrução da história que lhe pertence, tudo isso são apenas instrumentos do escritor. O mais importante, digo, é fugir do lugar-comum, escrever para não ser igual ao outro. Parece-me que é essa busca que Nick do Rosário persegue, a sua poesia, embora integre várias leituras, variados estilos, procurando encontrar aquilo que, felizmente, o poeta nunca chega a alcançar: a poesia total, aquela que é a mais crua, exuberante, perturbadora e verdadeira, concentrando, por isso, toda a expressividade da poesia. Mas o domínio da linguagem está aqui presente e é ele que Rosário esgrime em mais de meia centena das páginas deste livro que nos apresenta uma nova voz poética cuja aposta é devolver-nos a esperança e matar a solidão. Do Rosário não assume a tristeza como algo definitivo na sua vida. É um homem amargurado, mas também um homem que se ergue das cinzas e levanta a sua voz:

Busco por alegrias
Na gaveta de cinzas
E há vida
No meio da palha.

Sendo “A Gaveta de Cinzas” um livro de estreia, ainda não nos oferece ferramentas capazes de o colocar na exigente balança que é a nossa literatura e aferir as verdadeiras potencialidades do livro que temos entre as mãos e obviamente do seu autor. Seja como for, importa dizer que neste momento em que no nosso País, a produção literária ganhou uma expressão inigualável e nela se evidenciam maneiras bastante pessoais de escrever. Uma coisa é certa: somente vai se afirmar o escritor que for capaz de vincar a sua originalidade, a sua voz própria. Seja o que for que venha a acontecer, estamos convencidos que Nick do Rosário tem o espaço conquistado e aquilo que o poeta nos lega neste livro é o suficiente para confirmar que a nossa Zambézia continua sendo o berço privilegiado da poesia moçambicana.

Outubro 2021

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