A guerra não acabou para essas pessoas

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Captura do filme "Downstream to Kinshasa".

O rio Congo é lindo, ver o pôr do sol a bordo de um barco nesse rio é contemplar um esboço do que pode ser o paraíso. Se houver. Se não existe, podemos sugerir ao Ser Supremo, se ele também existir, que coloque o pôr do sol do rio Congo no projeto do paraíso. Por falar em Deus, onde ele estava mesmo quando a terceira guerra mundial surgiu na África. Sim, a Terceira Guerra Mundial existiu, foi quente e ocorreu na República Democrática do Congo. Os números falam e gritam, como atestam os dados do International Rescue Committee (IRC), foram 5,4 milhões de mortos e inúmeros feridos. Isso equivale a aproximadamente 45.000 mortes por mês desde 1998. Principalmente civis. Milhões de pessoas foram forçadas a se mudar. Para o mundo são apenas números, que eles gentilmente chamam de estatísticas, consequências, vítimas que descansam em paz depois de receber um memorial e rosas como recompensa.

É assim que as marcas da guerra, as consequências dos conflitos, são compostas. E aqueles que sobreviveram, o que aconteceu com eles? A pergunta é respondida pelo cineasta Dieudo Hamadi, que usou sua filmadora para retratar os excluídos, os esquecidos, aqueles que viram balas, morteiros e outros materiais de guerra arruinarem suas vidas. No documentário “Downstream to Kinshasa”, as vítimas da guerra continuam vivas e protestam, querem ser ouvidas e reembolsadas, apesar de saberem que nenhuma compensação, nenhum protesto preenche o vazio que os bombardeamentos trazem. A guerra não acabou para essas pessoas que perderam uma parte de seu corpo, um pedaço de sua alma se perdeu e nunca mais voltará, essas pessoas estarão em guerra com os fantasmas de terno e gravata que diariamente os perseguem e fazem acho que suicídio ou morte é a solução para preencher a parte que falta. As pessoas retratadas no filme sobreviveram à guerra de seis dias, ouviram e foram atingidas por parte dos 6.600 tiros.
O diretor foi sensível, mas antes disso, conquistou a confiança das vítimas, que se sentiram queridas e expuseram um pedaço de sua dor. Com uma estrutura bem construída, fruto de horas e horas escolhendo imagens, Hamadi conseguiu ser atraente, sem recorrer a clichês e truques baratos de Hollywood. A câmera por fezes parece não ter intenção, outras vezes é tão meticulosa, que até parece um filme de ficção, e isso fica mais perceptível nas cenas do barco. Assistindo ao documentário, entendemos porque Cannes se rendeu a essa obra cinematográfica. Oramos para que esse Deus passivo, que assistiu ao caos dessas vítimas, também assista ao filme, reaja e liberte esses seres humanos da provação que passam.

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