OTEMPODIZ: Uma viagem pela dança de Moçambique à Espanha

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O TEMPO DIZ Fenias Nhumaio e Osvaldo Machava

O Museu das Pescas recebeu esta semana, no âmbito do festival KINANI, a coreografia OTEMPODIZ, uma viagem pela dança desde as ruas da capital moçambicana, cidade de Maputo, até o País Basco, na Espanha.

Trata-se de uma coreografia dirigida por Asier Zabaleta e com a participação dos bailarinos moçambicanos Fenias Nhumaio e Deissane Machava, a apresentar também no Jardim Tunduro e no Bairro das Mahotas, nos dias 25 e 28 do mês em curso,  respectivamente.

“OTEMPODIZ é um projecto acabado de criação de dois países, Espanha e Moçambique, que mistura linguagens de dança da rua, break-dance, danças tradicionais africanas, dança contemporânea, uma ideia do que nós os três somos”, explicou Asier Zabaleta, mentor e director da coreografia. “Na peça falamos das diferentes percepções do tempo, em distintas geografias do mundo: África e Ocidente”.

De acordo com Zabaleta, se no Ocidente o tempo é contado, medido, comprado, vendido, planificado, organizado, se é um bem objectivo que quase sempre falta, em África, o tempo é vivido, feito, é um bem subjectivo e inerente do ser humano e que quase nunca falta.

Asier Zabaleta conheceu os dois bailarinos num workshop em Maputo em 2019 e propôs que se juntassem para criar uma peça original que fundisse as duas identidades. Para ele, aquela era uma boa oportunidade para não desperdiçar várias horas que os jovens investiram para ter o nível que têm, porque são autodidactas.

“OTEMPODIZ nasce de um momento em que vi pessoas que têm muito talento, mas não têm muitas oportunidades. Não eram bailarinos profissionais, mas fazem trabalhos esporádicos e têm que fazer muitos outros trabalhos para sobreviver, além da dança”, explicou.

A concretização do projecto demorou devido a pandemia da Covid-19, que não permitia a saída ou entrada de um país e outro por meses a fio. A situação sanitária permitiu que houvesse viagens e finalmente o projecto pôde-se concretizar neste ano.

Os ensaios iniciaram em Agosto de 2021, com uma duração de três semanas, em Maputo, na associação cultural WUCHENE, e continuaram na Espanha por mais duas semanas.

O director da peça disse ter ficado “impressionado” com a rápida adaptação do Deissane e do Fenias, pois a disciplina que a dança contemporânea impõe é rígida, que até na Espanha não se aguenta. “Ambos tiveram disciplinas que se exige na dança contemporânea, o que não é comum nem na Espanha por parte dos dançarinos de ruas”, elogiou.

O grupo realizou uma residência artística e estreou a coreografia na Espanha, apresentando-a em três ocasiões: Festival Atlantikaldia em Errenteria, Festival DantzaHirian em Hondarribia (ambos em San Bernardino) e Eibar em Madrid. “Para mim foi uma experiência muito boa, porque investi muito do meu coração. As três apresentações estiveram bem, fomos bem recebidos e foi um sucesso”, comentou Zabaleta.

Zabaleta, director da Companhia Ertza, disse que, geralmente, quando se trabalha com estrangeiros, há uma ideia de que se deve escolher bailarinos locais com mais experiência. Estes jovens com essa dança trazem “algo fresco, importante, e sua forma de trabalho, que é a partilha e generosidade, tem muito valor”, classificou, Zabaleta, especialista em dança contemporânea.

Nas escolas clássicas, continuou, há um aborrecimento, e as pessoas não estão a dançar pela alegria, mas sim para repetir os mesmos passos. Trabalhar com esses jovens é como “acordar de manhã e ir trabalhar feliz”, explicou, acrescentando que valoriza que “se construam as peças a partir do que eles vivem”.

Por seu turno, Fenias Nhumaio, que se especializou em dança contemporânea e break dance, disse ter gostado da experiência de criar uma coreografia, pois nunca o pôde fazer por falta de tempo. “É uma grande honra, porque sempre quis ter uma peça minha, mas não conseguia, porque tenho de fazer trabalhos extras para sobrevivência e o tempo era escasso, o que não era fácil porque tinha que pôr pão na mesa”, comentou.

Nhumaio considera que as actuações na Espanha foram das mais tranquilas que teve, porque foi natural e partiu deles. “É uma criação que vai-me marcar para a vida toda”. O artista moçambicano, de 33 anos, espera voltar à Espanha novamente, porque sente que não houve interacção suficiente com os artistas locais.

Por fim, Deissane, de nome oficial Osvaldo Machava, considera a criação da coreografia como um sonho que o mantém acordado. “Estou a viver um mundo dos sonhos, e é um dos momentos que nem quero que alguém me acorde, porque quero viver esse sonho para sempre”, disse.

O jovem bailarino, de 24 anos, confessa que teve vontade de desistir nos primeiros dias devido a diferença dos estilos de dança. “No meu primeiro dia estava perdido, e não sabia. Continua sendo inexplicável como pude adaptar-me. Nos primeiros dois dias quis desistir com o choque entre o break-dance, que é demasiada agitado, e o contemporâneo, que é mais calmo”. “Aprendi a gostar porque é uma experiência única”, disse o bailarino com cerca de dez anos no ramo, acrescentando que com a apresentação pôde ter dinheiro para levar a mãe para tratar da saúde num hospital digno, e hoje está a melhorar consideravelmente.

O grupo está a criar material videográfico para vender e distribuir a peça a nível mundial. Fenias e Deissane poderão ficar com os direitos da peça e desenvolver outros trabalhos.

Refira-se que a coreografia foi possível, graças ao apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), da Embaixada da Espanha em Moçambique, da residência artística SORTUTAKOAK (Gipuzkoako Dantzagunea) e do Festival ATLANTIKALDIA em Errenteria, ambos na Espanha.

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