Levar a poesia à comunidade

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Iniciou ontem até ao dia 21 deste mês, no histórico bairro Mafalala, o festival internacional de poesia e artes performativas, o “Poetas D’Alma”, 2021.

O evento, que vai na sua terceira edição, junta artistas nacionais, bem como do estrangeiro, em diversas actividades de intercâmbio cultural e em defesa de causas sociais. Sediado do recém-inaugurado Museu Mafalala, o festival é voltado à celebração da oralidade, como um traço imanente da nossa sociedade.

É, também, uma festa que tem lugar num período turbulento, mas que, apesar disso, se pretende que seja memorável.

Em meio às dificuldades impostas pelo novo normal, a organização do festival “Poetas D’Alma” trabalha a todo o gás para dar continuidade ao ensejo de fazer da arte um aconchego, diante do novo normal.

Para isso, segundo conta Feling Capela, uma das iniciativas tomadas pela organização do evento, é alojar o festival num dos bairros periféricos, no caso a Mafalala, como forma de garantir maior inclusão das comunidades, no panorama artístico. Pretende-se incentivar a produção e consumo dos produtos artísticos no seio das zonas de origem dos próprios artistas, ou fazedores, que é muitas vezes fora das cidades.

A escolha da Mafalala como anfitrião da presente edição do Festival é no sentido de facilitar a democratização do acesso às artes?

É preciso recordar que a Mafalala é o berço da poesia de de Moçambique. É de lá onde saíram os nossos embondeiros, tais como Craveirinha e Noémia de Sousa. O bairro tem, também, ligação com os nossos líderes, a partir de Samora Machel e toda esta nata de artistas que tatuaram a história deste país.

E, mais, tem o mural dos poetas, no Museu da Mafalala, que fica no bairro com o mesmo nome. E, também, quando olhamos para a história do Brado Africano, dos irmãos Albasini e tal, também podemos perceber que têm uma forte ligação com o lugar e, por isso, também aprender muito sobre isto a partir da Mafalala.

Entretanto, a escolha da Mafalala como berço do festival vem no âmbito do “Canto do Galo”. Amanheceu, então vamos despertar todos. Acordamos, todos os dias, e fazemos os shows sempre no centro da Cidade de Maputo.

Sentimos que os artistas saem da comunidade, vão para a cidade, fazer suas performances lá. E, muitas vezes, nem têm condições para se deslocarem.

Então, nós, como coletivo “Poetas D’Alma” quisemos dar oportunidade, também, às comunidades.

Os artistas fazem performances na comunidade. Os turistas também precisam de ir e conviver na comunidade, porque lá temos pessoas honestas e com almas puras. Vamos fazer este intercâmbio nas comunidades. Levar a arte à comunidade é a nossa principal visão, até porque é bom devolvermos o que é da comunidade à própria comunidade.

A outra visão é a de “deselitizar” as artes. As artes, em Moçambique, estão muito elitizadas. Elas acontecem no centro, como já havia referido anteriormente. As comunidades fazem as artes para as elites e, no final do dia, essa mesma comunidade não ganha nada. Então, esta visão que nós temos é que é preciso que os artistas honrem os seus pais e honrem os seus berços.

Esta coisa de voltar à comunidade é boa, porque os poetas são as antenas da sociedade.

O festival vai à Mafalala e ao mesmo tempo celebra a oralidade.  O que é, de facto, celebrar a oralidade?

Olha! Celebrar a oralidade é, de facto, voltar para nós. É tentarmos encontrar os caminhos legais, lúcidos e lícitos que nos levem àquilo que nós somos. É encontrar respostas para Quem somos, hoje? Quem fomos? E para onde é que queremos ir?

É confrontar a escrita, de certa forma, porque a escrita que nós observamos nos dias que correm é muito elitizada. Elitizamos muito a literatura, esquecemo-nos que a oralidade faz parte de nós e que, aliás, somos um povo de expressão oral.

É preciso perceber que esta poesia falada é mais frontal. Usa, muitas vezes, a linguagem coloquial e é está a poesia que chega, facilmente, ao povo.

Quando vamos à Mafalala brincar com a poesia oral e com a oralidade, estamos a dizer que queremos comunicar com o povo e com todos os intelectuais qua percebem o tipo de mensagens os poetas, as antenas da sociedade, pretendem deixar cair lá na Mafalala.

Porquê diz que “elitizamos a literatura”?

Sinto que não há uma inclusão directa da comunidade, nos eventos literários que acontecem na praça. Vamos perguntar onde é que acontecem os eventos literários da cidade de Maputo? É sempre dentro da cidade, nos mesmos locais e no centro.

Podemos perguntar, também, quem são as pessoas que forma o grosso de participantes nos eventos literários da cidade de Maputo? Onde é que elas vivem?

Essas pessoas vivem nos bairros. Quando terminam os eventos, têm de lutar nos transportes públicos e, muitas vezes, têm de percorrer distâncias a pé.

Percebemos, nós, que ir ao encontro destas pessoas já ajuda alguma coisa. É por isso que o festival está a dedicar, para além da temática, a implementação da nossa visão. Pretendemos criar oficinas criativas para jovens da comunidade, e não só.

O elitizar é nesse sentido. A coisa interessante é que já começam a surgir movimentos, nas comunidades, que se esforçam que haja inclusão da comunidade.

Não é, propriamente, na ideia de criar conflitos e tal. É sobre onde acontecem os eventos.

A terceira edição do festival “Poetas D’alma” ocorre num período atípico, muito por força da pandemia. Como é que a poesia é/será útil para aliviar as nossas dores nos tempos que correm?

É típico, também, das artes e letras, principalmente dos poetas, não só captar, mas futurizar as coisas. Vaticinar os próximos tempos que vamos viver.

É um momento oportuno, este, de reflexão. É atípico, em que os artistas, em particular, sofrem muito. Até porque foram os mais crucificados, durante a pandemia, porque não poderiam executas as suas actividades de exteriorizar a sua arte para um público específico.

Muita gente não tem acesso à Internet, neste país. Julgamos que seja necessário que haja poesia na vida e que haja um receptor atento para extrair o belo desta mesma poesia que os artistas vão exteriorizar no festival. Acreditamos que os artistas farão o seu papel e vão ajudar as pessoas a se reencontrarem e a pensarem um bocadinho mais.

Está será uma oportunidade para deixar ficar os sentimentos e emoções, de forma espontânea. Apesar de estarmos a viver um momento atípico, os artistas (poetas) poderão aproveitar a ocasião para cantar as suas emoções. Espero que isso alivie, de certa forma, os espectadores.

O festival também está já no mapa do turismo da cidade de Maputo. Neste momento, que ideias há para levar este trabalho a mais cantos do país?

O nosso festival não está só no Mapa da cidade de Maputo, mas, se verificar, é dos mais importantes, se não o maior, dos festivais de literatura e poesia falada que acontecem no continente africano.

Eu, próprio, já tive a oportunidade de participar num “Poetry Africa”, aqui na vizinha África do Sul, que acontece na Universidade de Kwazulo Natal e tem vários países a fazerem parte. Claro que eles valorizam os artistas locais, entretanto eles convidam, no máximo, até oito países. Se verificar o nosso festival, na primeira edição, tivemos uma média de vinte e três países. Foram dezoito oficialmente, aqueles que estiveram no cartaz, mas depois chegaram mais. Tal como esta edição (a terceira) do “Poetas D’Alma”, em que esperávamos ter, no máximo, apenas quinze países e hoje temos, no nosso cartaz, cerca de trinta e duas bandeiras a representarem as nações dos artistas.

Obviamente, o intuito aqui não é, de forma alguma, levantar barreiras e construir fronteiras, não é nada disso. A ideia é, mesmo, mostrar a diversidade cultural, linguística e social.

Agora, o futuro do festival é que ele aconteça não somente na cidade de Maputo. Aliás, quando olhamos para a génese da coisa, o Sarau “Noites de Poesia”, que este ano celebra, igualmente, dezoito anos de existência, começou no ICMA (Instituto Cultural Moçambique-Alemnhã), na altura, localizado no centro da cidade.

Entretanto, nós logo a seguir, começamos a levar este Sarau para a periferia. A moda pegou, as pessoas têm estado a criar eventos similares e é interessante desconstruir essa narrativa.

Outra coisa que me oferece a dizer é que estamos na Mafalala, sim, mas Moçambique não se resume na Mafalala. Claro que tens o histórico lá, o multiculturalismo muito bem notável no centro da Mafalala e toda essa miscilânia de aspectos, mas pretendemos ir ao centro do país, fazer o festival na zona norte e, futuramente, ir à Ilha de Moçambique.

Mais do que isso, vamos levar o festival para outros países da África. No próximo ano, o festival vai acontecer em duas temporadas. A primeira estação vai ser em Julho e a segunda em Novembro.

Então, o Festival está a crescer. Há uma apetência inclusive do Governo da vizinha Eswathine, que nos contactou e quer fazer parceria connosco. Não só, temos estado a ter encontros com embaixadores e parceiros que querem se juntar à causa, para levar a iniciativa ao mais alto nível.

Nos próximos anos, vamos levar isto para as outras comunidades, nomeadamente Gaza, para começar, e depois vamos subir, mas prefiro guardar estes segredos na manga.

Brevemente, logo após esta edição, provavelmente vamos anunciar o que temos preparado para as próximas edições.

Em termos de financiamento, este ano está devidamente preparado?

Em termos de orçamento, obviamente que não conseguimos alcançar as  metas, porque o nosso financiador tradicional, o Goethe Institut, este ano  disse que não tem dinheiro.

Ainda assim, decidimos avançar com fundos próprios e na batalha. Esta é uma edição do festival em que damos todo o mérito à produção, inclusive. Todo o mérito de realização e tal, aos artistas. Cerca de 99% de todos os custos desta edição foram suportados pelos próprios artistas, principalmente os que estarão de forma presencial.

Estão a pagar suas próprias passagens e algumas embaixadas colaboraram, tais como a da Itália, Espanha, entre outras.

Não posso falar do orçamento do festival. Como podemos imaginar, quando se fala de orçamento para um evento deste género, há que se pagar cachês dos artistas envolvidos, fazer a comunicação do festival, pagar as impressões dos cartazes, a gráfica, o staff, o transporte, alimentação, os hotéis… há muita coisa envolvida. O orçamento é muito grande, mas estamos aqui, aceitamos apoio de toda a gente do bem.

Que ilações têm tirado da organização desta festa?

É uma organização da militância. Há muita irmandade aqui. Todos os poetas estão a lutar pela mesma causa, a salvaguarda dos direitos humanos, a democracia, os direitos e liberdades fundamentais, o combate ao racismo e a qualquer outra forma de discriminação e a luta pela integração, acima de tudo.

Então, este é um festival que tem uma causa, de militância, em que os artistas se juntam porque sabem que, juntos, vão contribuir para as mudanças significativas da sociedade.

O festival já vai na sua terceira edição. Qual é a avaliação que faz destes anos de implementação?

Se me pedes para fazer o balanço das duas edições passadas, digo que a primeira foi excelente. Prefeita, mesmo. Conseguimos ter, aqui no país, como já diz outrora, mais de 20 países.

Falo de um elenco de produção, artistas, Staff e tal composta por mais de 80 pessoas. Uma vantagem deste festival é que também gera renda para a juventude que nele trabalha.

Os artistas, em particular,  todos eles ganham um cachê ao participar. Está edição vai ser diferente porque não temos dinheiro, muitos artistas não serão pagos. Neste festival, mexemos com a economia do país. Só aqui na cidade de Maputo, os artistas ocupam os hotéis, provam da culinária, usam do nosso artesanato e compram artigos.

Só para teres noção, na primeira edição nós alugamos cerca de trinta melhores camas num hotel da cidade de Maputo. Na segunda edição, ano passado, devido à pandemia, tínhamos o plano de cancelar o festival. Fomos o único festival a acontecer na cidade de Maputo de forma presencial e virtual.

Estava com algumas limitações, que nós cumprimos à risca. Observamos todas as medidas de prevenção e, no lugar de pôr cento e vinte/cento e cinquenta pessoas num jardim, simplesmente trabalhamos com cinquenta pessoas do público, e foi muito giro. Decorreu sem nenhum sobressalto.

Para a terceira edição, tínhamos planificado um festival 100% presencial, só que, de repente, no início do ano, as coisas estavam todas fechadas. As praias, os centros e casas culturais, mesmo agora que falamos as praias continuam fechadas.

Estávamos sempre indecisos se fazemos o festival ou não. Esta produção está a ser feita há dois cerca de dois meses. Está a correr tudo bem, até agora, tirando as dificuldades financeiras, mas a luta continua.

É importante frisar que um dos apoios fundamentais, nesta edição, é do próprio Museu Mafalala, do  Centro Cultural Umunthu, que têm estado a apoiar estas iniciativas. Da parte “D’Alma”, a empresa que tem a patente deste festival, e do coletivo “Poetas D’Alma”. Ou seja, tens, indivíduos singulares que apoiam o festival de livre e espontânea vontade, em prol do desenvolvimento cultural de Moçambique.

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