Um Kinani (2021) aberto a contaminação da pandemia

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Arquivo do Kinani 2020

Entre os dias 23 e 28 de Novembro, como é habitual a cada dois anos, a cidade de Maputo irá acolher o Kinani Plataforma Internacional de Dança Contemporânea de Maputo, Moçambique. Será uma programação diversa que pretende reflectir o momento pandémico que o mundo atravessa e as imposições ou sugestões que a circunstância impos a arte. Naturalmente, a estética, o imaginário e a linguagem também se contaminou com a COVID-19.

Numa curta conversa, da qual resulta esta pequena entrevista, Quito Tembe, director do Kinani e fundador do mesmo, revelou os fios pelos quais esta nona edição irá se entrelaçar. A integrar a Direção Artística Danse Afrique 2021 (festival do continente africano) em Marrakesh, este ano foi convidado ao Tazmess, um dos maiores festivais de dança, que acontece na Alemanha.

Estamos próximos da nona edição do Kinani. O que se pode esperar em termos de curadoria?

A nível de curadoria, estamos a dar primazia aos trabalhos que surgem como consequência da pandemia. Será notável, no programa, que muitos trabalhos, por exemplo, não têm título, mas têm conceito e tema. Estes são os trabalhos que me despertam mais atenção e me dão vontade de ver, ouvir e mostrar.

Selecionei algumas propostas que ainda estão sob a nuvem de incertezas, os artistas não sabem exactamente o que vão apresentar. Esta opção foi porque acredito que não estamos em condições normais. E quem sou eu para estar a programar peças que tenham um princípio, meio e fim, com todo o conceito de técnico, iluminação e sonografia?

Foi pensando nisto que desenhei esta curadoria. É muito provocativa, porque nem eu sei o que esperar dela.

Podemos assumir que também seja experimental…

Eu diria que é uma edição em que eu, como curador, estou tão de mente aberta, como o público. Quebrei o conceito curatorial – em que estou na posição privilegiada, em relação ao público -, acabei me colocando na posição de público em que estou de mente aberta para ver algo super-maravilhoso, um desastre ou uma peça que nós iremos perguntar, ao sair, sobre o que acabamos de ver.

Enfim, acabei me colocando nesta posição de risco, na verdade, em que me despi da capa de curador, para de mente aberta e receber o que daí advém.

Quito Tembe

Este ano, voltamos ao festival nesta circunstância da pandemia que ainda não está resolvida, embora já haja vacinas e alguma mobilidade. Imagino que além de questões curatoriais, tenha tido outros tipos de contratempos. Como é que está a ser organizar este festival diante deste quadro, tendo em conta o facto de ser internacional?

Acho que todos nós, a nível nacional e internacional, estamos cansados do que temos vivido. Ao fazer o festival em meio a uma situação em que quase todos os colegas a nível internacional fecharam as portas, decidi avançar por uma simples razão: estamos cansados de trancar as artes e acho que, enquanto a arte não der o seu berro e o seu grito de socorro em cena, estaremos a contribuir para matar as artes.

Na minha posição, optei mais por dar voz à arte e colocar-me na posição de fazedor da arte, que sou, para dizer que basta!

Não é saudável, nem aconselhável, que a gente ponha a arte na gaveta. Entre aceitar entrar para o mundo digital e fazer o festival ao vivo, eu, pessoalmente, disse que se tiver que ser digital, prefiro não mostrar a arte, porque não estaria a fazer o que predispus a fazer, quando criei esta plataforma.

O mundo digital é para os nativos digitais, não é para gente como nós que trabalhamos a arte ao vivo.

O digital, o vídeo, a televisão, ou seja lá como se quiser dizer, é para gente que trabalha nisso. Não vou acordar e pensar, de um dia para o outro, que posso substituir a posição de um cineasta ou de um realizador, porque não sou nada disso e respeito o quem faz, e bem.

Admiro a quem conseguiu, de alguma forma, capitalizar o mundo digital, a favor da arte performativa. Mas, para mim, uma coisa não substitui e nem complementa a outra. São duas áreas completamente distintas e há que respeitar estas fronteiras e aceitar a nova forma de expressão que veio da tentativa de usar o digital para a performance, ou vice-versa, não sei. Desta confusão, acabou emergindo uma nova forma de estar e apresentar-se na arte.

Neste momento em que integras o júri do Tazmess e a direção Artística Danse Afrique, será que podemos pensar numa maior mobilidade de artistas moçambicanos que participam do Kinani?

Todo o passo que vou dando acaba sendo, para mim, sempre, como uma janela ou oportunidade, para de cada edição do KINANI, da Semana da Dança, Dance L’Afrique Dance, Tazmess. Nem chegar ao Dance L’Afrique Dance é o meu auge, como chegar nesta maior plataforma de dança contemporânea, na Europa, é o meu auge. Olho, sempre, como uma oportunidade para daí a gente ver o que vem a seguir.

Mas quero esclarecer que não estou no Tazmess para programar o KINANI. Nem no KINANI para programar a Semana da Dança. Uma coisa não invalida a outra. Para cada edição e cada festival, tenho a minha linha, um pensamento e a minha irreverência de estar na arte a propôr o que vem na mente neste preciso momento.

Agora que estamos a falar, estou muito focado e direcionado para o KINANI e muito preocupado com a saúde da dança contemporânea pós-pandemia. Estou muito ansioso para ver o que esta pandemia trouxe para a dança.

Depois disso, sim, direi que com base no resultado da minha experiência no KINANI, posso me definir e afirmar que a minha contribuição no Tazmess será nesta filosofia, porque tive uma experiência que o KINANI me deu e que posso afirmar que por causa disso, a consequência será esta e devemos dar a voz nesta dimensão ou linha.

O risco que estou a tomar de programar e aceitar ideias desconhecidas, cenicamente, permite-me aprender e ver o que daí advém.

Na qualidade de presidente da OTHAMA, associação que integra os festivais Azgo e Mafalala, o Quito prometeu que os três megaeventos passariam a formar profissionais para o sector de produção. Teremos alguma formação no Kinani deste ano?

A OTHAMA é, para mim, uma organização pilar de tudo isto que estamos a fazer, que passa por apostar nesta questão da formação e transmissão. Surge, justamente, por isso. É verdade que se ressentiu, também, ao longo destes dois anos da Covid, que acabou estando quase a amainar, por força da imposição, ou não, ou pela inércia (ou não) da imposição, acabou estando por aí.

Não significa que ela deixou de ter o seu propósito, nem de existir. É exemplo disso que, para esta edição do KINANI, através da OTHAMA, vai surgir uma discussão conduzida por expert em videodance. O que é e como é que se trabalha o mundo da dança no digital?

Para mim, e para a OTHAMA, obviamente, é uma forma de contribuir para esta outra forma de profissionalização. Porque para estares no videodance, não precisa ser expert em dança ou em digital.

Então, o que vem a ser isto?

Vamos abrir outras janelas, porque o que a gente está a ver que vem aí, pós-covid, é uma nova forma de expressão. São novos festivais que se vão habilitar, quiçá, na videodança ou dança no digital.

Uma das consequências desta situação é o emergir de uma outra expressão artística que hoje ainda não tem nome. Há quem diga que é o pessoal da dança a fazer vídeos, ou o do vídeo a usar a dança. Gostaríamos de esmiuçar o que é isto e dar a oportunidade aos miúdos que têm celulares, câmaras e estão a dançar e a tentar combinar as duas coisas para dizer que há uma janela e profissão, a nível de formação.

Como consequência, a OTHAMA inovou-se para estas outras dimensões e novas formas de estar na arte.

Quem está a fazer a nona edição, está, também, imagino, já a pensar na décima. Será que esta mudança de paradigma curatorial estará presente na celebração d0s 20 anos?

Na verdade, eu não sei o que vão ser os 20 anos. Não estou, sequer, a pensar nem a imaginar isso, mas uma coisa é certa: a nível artístico, serão 20 anos de celebração. Penso que 20 anos de celebração é mais para vincar o que nós andamos a fazer ao longo deste percurso.

É a décima edição de uma bienal. Então, estamos a falar de quase 20 anos de estrada. Para mim, é mais este sentido de celebração de tudo isto que estamos a fazer.

Artisticamente, não sei o que vamos fazer. Mesmo a nível de curadoria, não sei o que vai ser, mas estou certo de que serão dez anos de mais celebração e não muito sobre curadoria.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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