O olhar de Sitoe para um mundo (A)braços com uma crise

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Obras de Sitoe

A exposição de pintura e desenhos de Sitoe, intitulada “Abraços”, a inaugurar hoje, às 18.00 horas, na Fundação Fernando Leite Couto, simboliza as privações de um tempo em que as nossas vidas se desvaneceram, e em que assistimos à clausura de uma sociedade onde os contactos são efémeros e proibidos.

De forma radical, observa a curadora da mostra, Yolanda Couto, no texto do catálogo: “ficamos a braços com uma nova realidade de critérios de confinamento, na qual os relacionamentos sociais e até familiares nos foram vedados”.

O mundo atravessa, prossegue a curadora, um deserto, vivendo, durante vários meses, a civilização do distanciamento.

Nas obras de Sitoe, as figuras, quase todas mulheres, cruzam-se em diversos universos e sentidos, descreve Yolanda Couto. As silhuetas femininas sem rosto saem da sua hibernação e refletem estados de alma que reclamam regressar aos relacionamentos reais, através do movimento e do gesto onde se lembra a fertilidade, a maternidade, o amor, a sexualidade, tal como acontecia na pré-pandemia.

“Ousarei dizer que, nas obras de Sitoe existe uma incomparável musicalidade de cor, uma interpretação sempre renovada num diálogo permanente com os outros, abrindo-se a partir do interior e desenvolvendo uma enorme pujança emocional”, lê-se no catálogo.

Os corpos, num abraço ao mesmo tempo próximo e distante, dão lugar a uma multiplicidade de posturas artísticas que se ligam à realidade social do quotidiano em que vivemos, impregnado de privações e de distanciamento, questionando e admitindo a necessidade de regressar ao abraço de verdadeiro afecto, conclui a curadora da exposição.

Silvério Salvador Sitoe é natural de Inhambane, Moçambique. Destaca-se pela sua obra Mural de Grandes Dimensões. É docente no Instituto Superior de Artes e Cultura (ISArC), em Maputo.Em 1985, concluiu com distinção o curso de formação de professores de Desenho, na Universidade Eduardo Mondlane, Faculdade de Educação, tendo ganho o Diploma de Emulação Socialista.

Em 1995, fez estágio de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Foi distinguido «PERSONALIDADE do ano em 2000 e 2001» – na categoria de artista do Ano em Moçambique.

O artista ganhou o 3º prémio da primeira Bienal das TDM, em  1991. Dirigiu, na qualidade de presidente, a Associação Núcleo de Arte, nos anos de 2004 e 2005. Participou em várias Exposições de arte dentro e fora de Moçambique, com destaque para Portugal, Berlim, Finlândia, Inglaterra, Egipto, Suécia, Zimbabwe, Áustria, Índia, Namíbia e Espanha.

Está publicado em vários jornais, revistas e brochuras. Publicou um artigo científico na Revista Moçambicana de Ciências de Saúde. Em 1999, realizou um programa cultural que o leva a Lisboa, Viena de Áustria, Baviera e Veneza, no âmbito do qual participou no simpósio cultural de Krems na Áustria, conjuntamente com representantes da África do Sul, Namíbia, Zimbabwe e Moçambique. No mesmo âmbito, orientou um workshop com crianças de uma escola de Viena. É membro fundador do Núcleo dos Artistas da Beira, cidade onde residiu. É também membro da Associação Moçambicana de Fotografia e também membro do Núcleo de Arte e membro do corpo técnico da Associação Cultural Kulungwana para o Desenvolvimento, sediada em Maputo. Possui inúmeras obras em colecções públicas e particulares, em Moçambique e no estrangeiro.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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