Uma cátedra e uma estátua para Craveirinha

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José Craveirinha. Foto de Sérgio Santimano.

A Academia moçambicana deveria criar uma Cátedra para sistematizar os estudos sobre o trabalho de José Craveirinha e o Estado já se atrasa para erguer uma estátua do poeta, jornalista desportivo e intelectual, defende o professor universitário e ex-reitor da UniLúrio, Francisco Noa.

Falando há dias numa palestra subordinada ao tema “Afinal, o que (não) queremos de José Craveirinha?”, na Fundação Fernando Leite Couto, disse que neste momento “há estudos dispersos e feitos de forma assistemática e uma Cátedra pode ser um bom ponto de partida”.

O cargo académico proposto por Noa, sustentou, possibilitaria ainda a produção de pesquisa que daria à luz a todas as facetas craveirinhescas que ainda não foram exploradas, como, por exemplo: o seu papel no jornalismo desportivo ou a sua contaminação pelo Renascimento Negro de Harlem.

“Ignora-se o facto de Craveirinha ser um grande erudito, alguém com profundos saberes que ajudariam a perceber uma parte da história deste país”, disse, a apontar algumas zonas de pesquisa que permanecem nas escuras.

Circunscrevendo-se a literatura, por exemplo, Noa destaca conhecimentos estéticos e linguísticos: “Uma das suas marcas foi a forma como casou o xironga, uma das suas línguas com o português. Ele naturalizou a condição de duas línguas maternas e se apropriou das mesmas para a sua estética”.

Francisco Noa

Olhando para o mundo, o docente universitário com vasta obra que discute Craveirinha, esclarece que em relação a figuras desta dimensão “nada é feito ao acaso”.

A dispersão da pesquisa, insiste Noa, é “o grande drama que aflige a obra de Craveirinha”. Reconhece o esforço e pesquisa desenvolvida por Fátima Mendonça, que trabalhou sobre poemas inéditos e contou que, quando produzia a sua tese de Mestrado, igualmente quis dedicar-se a isso, mas por desencontros acabou não o fazendo. Entretanto ainda sabe pouco.

Tendo como pedra angular a urgência de preservação da memória do poeta mor e actualização permanente do seu legado, Francisco Noa sugeriu igualmente a construção de “uma estátua de José Craveirinha nos lugares que ele mais representou, [como] a Mafalala [por exemplo], que abriria uma possibilidade na forma como se olha para esse espaço”.

A semelhança do que acontece noutros lugares do mundo, como no Rio de Janeiro em que Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, ou de Fernando Pessoa e Ribeiro Chiado em Lisboa, estão eternizados em bronze, uma do intelectual moçambicano abre espaço para reabilitação das narrativas sobre as periferias moçambicanas e o seu lugar na construção do país.

Noa falava, sempre levando em consideração que embora muitas vezes se reduza José Craveirinha ao poeta – onde bem se destacou – ele também esteve envolvido nos movimentos da clandestinidade para a libertação do país, circulou, influenciando – e deixando-se influenciar – pelos grupos que dão os toques modernos a música que depois veio a chamar-se Marrabenta, entre outras empreitadas que estão por se revelar.

“Estamos a preparar o centenário”, disse Francisco Noa, se referindo aos 100 anos do nascimento de Craveirinha que se celebra em 2022, esperando que nessa ocasião “se discuta as suas várias dimensões políticas, sociais, históricas” e que igualmente se publiquem depoimentos, fotografias entrevistas, entre outras formas de preservação da memória.

Preservar o legado deste mafalalense, prossegue o docente e crítico literário, tem na sua obra o seu próprio fundamento, como, por exemplo o facto de Craveirinha ter dito que escreve para não esquecer a história.

“A relação que tinha com a memória era visceral”, esclarece, explicando que a memória lhe ajudava a ordenar a realidade, “tinha uma função ordenadora da consciência”. E, igualmente, não deixou de repisar que o percurso do autor de “Xigubo”, em largos espaços de tempo, se confunde com a história deste jovem país.

A palestra que foi massivamente assistida por estudantes de Literatura da Universidade Eduardo Mondlane, foi animado pelas leituras de alguns poemas por Guilherme Mussane e contou igualmente com a presença de poetas como Léo Cote, Ricardo Santos, docentes universitários como Aurélio Cuna, entre outros.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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