A poética da inquietude, cepticismo e insatisfação em “Possíveis freios para caos”*

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Capa do livro “Possíveis freios para caos”

Escrito por Daúde Amade

Na edificação de uma cosmovisão possível tem-se, em todas as tradições e povos, a Palavra e a Fala como médiuns. Por intermédio das mesmas rompe-se com o silêncio do Caos reinante e edifica-se o lugar-nenhum, esse castelo no qual se alojam as verdades necessárias e instantes. A Palavra fala, proclama, aclama, aniquila e edifica, estes são alguns dos artefactos que ela forja. Mas diante do que advoga, não diz senão o que o Homem a delega. A fala da palavra não é senão a fala do Homem.

A palavra teria tido impulso quando se fez o Homem, esse deus-menor que lhe foi restante o logos após que o Demiurgo se isolou, nosso próximo mais próximo, nosso semelhante. Teria dito o filósofo alemão Martin Heidegger que “a linguagem é a casa do ser”, e porque a Palavra e a Fala são mónadas da linguagem, nelas o Homem, esse ser de inquietude, cepticismo e insatisfação, ergue barricadas como (em) “Possíveis freios para caos”.

O mundo nem sempre é o que ocorre, por isso existe o Poeta, a Palavra e a Fala para protestar o anti-movimento, seja da beleza ou fealdade do quotidiano. Britos Baptista é um destes seres que por bem se ligam a ele os conceitos – Poeta, Palavra e Fala – e confirma-se diante deste livro de estreia que ele é, como poeta, um ser que observa os passos do mundo em que vive; e como usuário da palavra, cria imagens como nominalização de fenómenos; e então, enquanto exorciza o caos cintilante, fala sentindo o sangue esvair-se diante do que pensa dessa inautêntica existência humana.

Lidar com o pensamento da maneira como a poesia se abre para fornecer a essência do mundo é o que este poeta se propõe. Mediante versos sobre a guerra que bebe cálices de sangue em Cabo Delgado, o silêncio que se alimenta com talheres de prata da palavra de qualquer um com medo, as esperanças que alcançaram a finitude quando ainda ansiavam pela mudança refasteladas na sombra do jacarandá, ou o fechar dos olhos dos sonhos quando se abrem as portas da morte; nestes poemas, Britos Baptista assume-se como um grave digger que, em vez de fechar os olhos e enterrar no sepulcro do inaudito tudo o que vê, faz escavações arqueológicas usando a palavra como pá, destapando as areias que cobrem os olhos das massas de ver o inferno que se instalou na casa.

E assim, com a palavra afiada e colocada em face a quem tocar nestes versos cortantes, a sátira, o sarcasmo e a ironia dão vida a um guerreiro da inquietude que proclama: “Vou tentando escrever tudo que/ vejo arder /nos olhos do mundo”. E, nessa poética de escrever tudo o que se vê arder nos olhos do mundo, essa casa do ser, o poeta coloca-se a examinar do mais próximo que se lhe possam aparecer, na arquitectura dos espantos, as humildes imagens da paz e estradas do passado do sossego, em que rememorando se reencontra, em seus devaneios, na intimidade das esperanças de uma casa que a ferrem os tornozelos e obrigam-na a estar em pé.

Mas, este tentáculo de colocar “Possíveis freios para caos”, toda esta intimidade que nos arrasta à inquietude do País, só é possível de ser experimentada com meio à cada palavra usada aqui, pois nela jorram as fenoménicas percepções do poeta. A palavra, neste livro, escreve-se como o que testemunha a vizinhança mais próxima do Homem para com a casa, este Mundo em que estamos. Portanto, colocar-se como usuário da Palavra não significará, agora e daqui em diante, conhecer a Palavra em si mas conhecer o caminho pelo qual ela nos possa arrastar, em meio a água turva da vida, até nós próprios, desvelando a nossa essência inessencial e abrigando-nos numa cumplicidade com os males, de Homem para Homem, quais Britos deslaça.

Estes poemas são de uma tal procissão para que não lhe chovam, da consciência que julga, os dedos como pingos e nem recaiam sobre si pedras de um possível pecado pelo silêncio. Daí ele põe-se à escuta e então se ouve: “casa vai desabando/ morre-se/ no silêncio do tecto quebrado/ na cegueira das paredes// na cumplicidade/ das janelas vermelhas/ abrem-se portas do meu pranto”.

Este pranto não segue só na fermentação das palavras como “Possíveis freios para caos”, dá-se a mão com um modo de existenciar-se como Da-sein, ou seja de estar-aí jogado na facticidade do mundo sem que se tenha pedido sequer um manual de instruções a priori para lidar com as chagas dos dias. E como um céptico, entenda-se essa palavra a partir da geologia conceptual helénica skepsis – o que indaga –, Britos incorpora em seus poemas os conceitos Deus e Hades, colocando-os face to face na sinuosidade dos fados que um Moçambique saído há pouco da incubadora independentista está a tomar e indaga a Deus: “se seu reino tombasse/ nas abas da dor/ lançada?// saberia ele/ que existe outro Hades/ debaixo de seus pés/ grávidos de línguas nacionais?”

O esquecimento propositado de sua gente pela entidade demiúrgica invocado nestes poemas, essa dor na qual seu povo vê-se lançado qual carne fresca aos leões, é que catalisa essa poesia de carácter resistente e insistente em sonhar um País. Em cada poema aqui presente, sente-se a alma do poeta caminhar na nudez de si, enquanto sangra, no interior das palavras. E este sangrar não é somente dele, porém ele faz-se aos versos como um advogado dos que ficaram afónicos, e, mapeando os gritos que foram comidos pelas armas e pela fome, vai a Cabo Delgado, Quissanga, Zambézia, Manica e Sofala, grafando os bocados de sonhos que ardem nas matas, no rio e na cidade e que nenhum bombeiro os acode.

A insatisfação estampada neste livro é tão humana que é a fala do poeta quando põe-se à escuta de si, quando não se coisifica pela guerra, pela indiferença, pelo egoísmo, mas sim questiona a diferença ou o limite que o faz distanciar-se das coisas que só satisfazem ao corpo e sua extensão. É uma insatisfação que dá impulso ao sentido pragmático da vida, sempre em refutação do ideal e afirmação do real como o único panfleto que deve ser erguido no quotidiano para depois, somente com a Arte e todos os impulsos vitais, deitar abaixo e instituir a utopia.

Este “Possíveis freios para caos” é, portanto, o compromisso com a Palavra e a Fala como modos autênticos de estar-no-mundo, como o lugar onde se recosta a humanidade e abre-se para os demais.

Daúde Amade

*Prefácio do livro “Possíveis freios para caos”

Maputo, 16/08/2021

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