O Jogo de Sedução em Animais do Ocaso

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Capa do livro

Escrito por Léo Cote

De Portugal chegou-nos às mãos o livro de poesia Animais do Ocaso de Álvaro Taruma. E é curioso verificar que é em torno do seu título que se organiza uma das peças do jogo de fingimento, quer aludido o passado quer aludindo o presente, sugerindo igualmente o que está em devir. Fixemo-nos, então, no facto desta colectânea de poemas retomar parte dos poemas de Para uma Cartografia da Noite (2016) e de Matéria para um Grito (2018), que a abrem e aderem entre si como unidade a obra. Assim se reabilitando como totalidade significante (fugindo assim do mero reconhecimento catártico), uma vez que, de página em página, estes poemas vão conquistando para Animais do Ocaso a adesão do leitor – quer através de crescendos golpes estéticos e de sentido, quer por processos estilísticos, que evoluem de camada em camada.

A multiplicidade tópica e estético-estilística de Taruma em Animais do Ocaso conduz a uma estrutura caleidoscópica em que as sucessivas transformações indicam uma estrutura, tensão e relação difusa e confusa entre o sujeito da enunciação e o mundo evocado, que projectam o seu modo de ver a realidade e de estruturá-la a partir das tensões e relações que se encenam no mundo de papel. A tónica dos poemas reunidos nestes cadernos é a da desmistificação do óbvio, ou do que parece sugerir, a se ver a consciência do poeta emergir ante o ambiente envolvente e as relações e tensões postas em interacção com a sua personalidade e as suas pulsões básicas ou de complexidade estético-reflexivas, no vai-e-vem ficticiamente social e/ou intersubjectivo. Fazendo do óbvio não apenas o engendrador de perplexidades, mas, sobretudo, o enigma que alimenta todo o tecido dos poemas. Assim, o poeta e o mundo evocado se diluem um no outro, num caleidoscópio que configura a dinâmica interna (do poeta e da obra) e os significados possíveis do óbvio, com o seu carácter simbólico que enfatiza a grande angústia do poeta. Afinal em Animais do Ocaso nenhuma cortina se fecha nem sequer a luz se apaga. Não é por acaso que nos surge uma síntese proposta pelo próprio poeta.

Mas fala-se também do puro instante da aparição, da vida regendo os sonhos, a língua, do manejo do verbo, da caligráfica ave, do oráculo da fala ou da poética gramática da escrita. Diz-se ainda de uma janela contemplativa, do alfabeto entregue em oferenda e do alumbro mágico de quem cria. Diz-se dessa palavra temperada: o sol, esse imenso latifúndio de luz, vindima da esperança. Diz-se da sua ramagem incendiária; a lavrada substância do fogo; favo do mel da claridade; o sol rasgando o homem resoluto das manhãs. (p. 36)

Álvaro Taruma

Numa súmula que o poeta procura traçar antes o seu encontro com a linguagem e/ou com o grande demónio que é a página em branco, que compulsa todo o acervo do poeta no processo de criação e o faz, de página em página, ir (re)criando os infinitos meandros do ser e do mundo, ao dar forma o artefacto literário, e dar um poente de repouso e de ressignificação Para uma Cartografia da Noite e Matéria para um Grito, no seu “mais árduo ofício: o lírico gume do silêncio”(p. 44), “minerável substância no interior dos versos esquecidos”(p. 46), que a obra dá novo corpo. E que o leitor tem a possibilidade de minerar e desconstruir. Assim, vemos surgir relações e tensões entre o olhar do poeta e sua relação com a realidade, que demanda signos subtis e permitem ambivalências em cada actante ou domínio, reforçadas por esse fundo simbólico que liga de modo profundo a arte à realidade. (Prado Coelho, 1987: 379)

“Exorcismo” representa essa irrupção não apenas com ou sobre a linguagem, mas sim da relação e tensão que o poeta trava com os seus vários alter ego e consigo próprio, que o faz ser igualmente o que é ou vai sendo, ao acionar a desatada loucura para não morrer lento e solitário, surgindo o amor como o ardil que o iliba, este que faz que a pulsão da morte venha depois, ante o dogma irrepreensível: “a linguagem, primeira obrigação materna” (p. 59). Desdobrando-se este signo na mãe que deve ensinar e no lugar onde se cinge o demónio e/ou os demónios do poeta (e não só), ao procurar se expressar ou dar vazão essa pulsão para o estético-literário, que é antes a mãe e a linguagem que lhe dão forma. Assim se interrogando o poeta enquanto afirma igualmente. Até porque o poema é, para o poeta, a “estranha pronúncia dos lugares desconhecidos”(p. 60), que a mãe ou a linguagem (que se implicam mutuamente) permitem descobrir “desde a topografia da memória a distante infância, as imagens, os símbolos, os signos, a oblíqua disciplina das palavras, o difícil apuramento das estradas e a solidão para a qual nos conduzem”. Porque afinal:

traz consigo um irrecusável encantamento, as crianças como uma secreta pirotecnia ardem a boca em informuláveis risos, antes da guerrilha dos dias e das noites, antes do perfil vermelho das casas abandonadas e dos odores fortes dos substantivos próprios de quem a morte os visita. (p. 60)

O poema, neste caso, chega devagar ao poeta e ao leitor igualmente, ao introduzir esse novo mundo e esse sujeito que o enuncia, onde “o poema trabalha o seu próprio corpo, o seu próprio barro de palavras, o chão, o pão, o coração, inapagáveis cinzas de vulcão ante o sopro da terra por sobre a costela de Adão” (p. 61). “Apontamentos” e “Princípio” reúnem tais ideias e tal olhar sobre a linguagem e o sujeito que a desenterra, em seus múltiplos conflitos inevitáveis ao se inquietar ante o “oceano: velho, cansado, relicário, porta-aviões de sílabas impossíveis”.

Os itinerários propostos por Animais do Ocaso são sugestões que podem ser (re)combinadas a medida que vai surgindo uma nova estrutura e novos sentidos ou semas. Como a cultura contemporânea é a do feeling, esta obra não se furta a esse jogo de sedução, onde se vê organizar uma linguagem eufemística e lenitiva, ainda que, por vezes, incorporada de uma linguagem descarnada e quase objectal, num lifting semântico que se conforma com o seu realizar-se em texto. No jogo de atomização do social ou de representação ilusória do não-vivido se consubstancia esta obra como processo de transformação do real evocado e do sujeito da enunciação. É por isso que o sujeito poético engendra um certo distanciamento, um pôr-se à parte, mormente o tom lírico que o atrai a isso, se virando para si próprio à espreita da sua própria verdade, num jogo de persuasão que leva o leitor a aderir e a estabelecer empatia com o sujeito da enunciação e o mundo de papel. Como se procurasse atrair o leitor para esse exercício de expansão do sujeito, destruindo, ainda mais, os pilares das ideias das grandes finalidades do sujeito e da história, ao pôr-se o sujeito da enunciação no papel de sedutor interessado/desinteressado simultaneamente. Assim, desarmando o leitor. Até porque “a busca de uma identidade própria passa pela expressão e pelo confronto das experiências existenciais” (Lipovetsky, s/d: 31), que permite que o sujeito da enunciação e o leitor conjuntamente encenem uma oscilação em si mesmo, num fluxo que desloca a ideia de eu central ordenador do sujeito e da sua subjectividade, deluindo-a. O que problematiza a questão das identidades individuais e colectivas, negando as identidades estritas, onde “somos todos analisandos simultaneamente, interpretados e intérpretes numa circularidade sem portas nem janelas” (Lipovetsky, s/d: 32). Pondo em causa a própria ideia de literatura porque, afinal, “um poema também se sobressalta”. (p. 72)

É claro que há uma diferença entre as concretizações da obra de arte e as vivências de apreensão, onde se cruzam múltiplos actos de consciência e o leitor se vê “forçado a selecionar determinados aspectos em detrimento de outros” (Prado Coelho, 1987: 397). No entanto, como o leitor tende a esquecer que a obra de arte é “um objeto intencional e a aproximar-se da obra literária como se ela fosse um objeto real – é isto que permite que a literatura tenha uma força de sugestão e de intervenção no mundo” Prado Coelho, 1987: 399) e por ricochete o jogo de sedução. Fazendo o sujeito desconhecer os caminhos da floresta do eu, das identidades e das relações de grupo ante a realidade plural e plurissignificativa. Por isso essa polifonia de vozes no intertexto tarumiano, esse diálogo inevitável que procura escapar “a trágica emboscada do silêncio”. (p. 64).

Taruma ao incorporar Animais sem Cordas no Coração como a terceira peça desta selecta de poesia abre um novo capítulo, onde o poeta alça o seu voo último, ante a sensação de incompletude e de serem esses outros alter ego que, simultaneamente, ajudam a costurar o ser e o mundo intersubjectivo, na sua condição contraditória, trágica e plural. Até porque como sugere o poeta “Entrar no coração deste livro é  descalçar os sentidos”(p. 96), afinal tão habituados que estamos do conhecido e do repetitivo, a miséria quotidiana e dos sujeitos. Aqui projectados não apenas enquanto tragédia, mas enquanto nova realidade, onde ela e os sujeitos surgem enquanto nova possibilidade existencial como “Poema” nos dá mostra.

Estranho ofício

O de edificar o céu

Tendo por luz os andaimes

Nos dias que a noite

Adormece a aurora.

Passas a argamassa dos sonhos

E blocos inteiros de nuvens

Desabam sobre a tua cabeça de vidro.

Antevês, então, que não nasceste para pedreiro

Faz do teu insucesso um poema. (p. 98)

Pois o sujeito que se descobre inábil pedreiro pode tentar a sorte nos e com os versos, permitindo-o entrar ou ir ao encontro desse novo que lhe é próximo e congénito: a linguagem. Num jogo de libertação do sujeito e da realidade aparentemente óbvia e que, contudo, nos constrange.

Animais do Ocaso é sem dúvida uma belíssima selecta de poesia e da mais requintada que o Moçambique contemporâneo produz, onde Taruma procura se reinventar através desta, numa ginástica programada por ele. E o resto, como podemos dizer com Prado Coelho (1987: 432), “surge como o lugar de resistência onde o texto se ergue contra as redes da razão”.

LÉO COTE

Bibliografia

LIPOVETSKY, Gilles. (s/d). A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’água.

PRADO COELHO, Eduardo. (1987). Os Universos da Crítica. Lisboa: Edições 70.

TARUMA, Álvaro. (2021). Animais do Ocaso. Porto: Exclamação.

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