Os solilóquios de Nick do Rosário

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Nick Rosário

Das conversas íntimas entre Nick do Rosário e o seu eu poético nasce a “Gaveta de Cinzas: Solilóquios”, seu livro de estreia, lançado há dias, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo. A apresentação esteve a cargo do escritor Marcelo Panguana.

A obra contém 45 monólogos ou conversas do autor dirigidas a si próprio, em formato de poemas, cujos objectos são as suas memórias, a infância, sentimentos, família e os factos que marcam a sociedade moçambicana.

Os textos estão distribuídos em três secções, designadamente: “A palavra nasce”, “o verso acontece” e a “A poesia acontece”.

Para escrever o livro, Nick do Rosário revisitou as gavetas onde estão armazenadas as suas lembranças compartilhadas com as pessoas que fazem/fizeram parte da sua vida. “A gaveta é o lugar onde guardamos os nossos objectos. Então, eu trago as cinzas como os meus sentimentos. Eu guardo os meus sentimentos nesta Gaveta de Cinzas”, disse.

Algumas pessoas presentes neste projecto, acrescenta, não estão mais aqui connosco, como “o meu pai, a mãe do meu pai e um amigo. Guardo um sentimento muito forte por essas pessoas, e essas são as cinzas que estão neste livro”.

Nick Rosário aborda, ainda, a violência, a dor, o silêncio e outros sofrimentos compartilhados no ser e estar coletivo. Neste título, o poeta apresenta os principais e valores que mais preza.

“Como livro de estreia, preferi apresentar os meus. As pessoas que fizeram parte da minha vida até hoje. Então, trago esta componente para que as pessoas possam conhecer o Nick do Rosário”, explicou o autor.

Em “Gaveta de Cinzas: Solilóquios”, Nick do Rosário mostra-se crítico face aos problemas da actualidade.

“Por exemplo, a gente pessoas que são violentadas fisica e psicológicamente, em silêncio. Então, eu convido as pessoas a falarem, porque o silêncio não conforta a ninguém”, detalhou.

Descobrimos um novo poeta para Moçambique

Encarregado de apresentar a obra, o escritor moçambicano, Marcelo Panguana, observa que a proposta poética de Nick do Rosário possui aspectos que vão enriquecer a literatura moçambicana.

“Esta literatura já está rica, por si, e o Nick do Rosário traz um livro de poesia escrito num estilo pessoal e escrita de própria de alguém que tem talento”, analisa o autor.

Descobrimos um novo poeta, prossegue, proveniente duma região que é o berço dos poetas moçambicanos (a Zambézia que, nos últimos anos, tem-nos oferecido grandes poetas) numa altura em que a literatura moçambicana ganhou asas e voa mais alto, através da conquista do Camões, por Paulina Chiziane.

“A minha conclusão, ao ler os textos de Nick do Rosário, é de que a poesia não se faz, necessariamente, de discursos longos. E a poesia curta é um estilo próprio de Nick do Rosário e se identifica neste aspecto”, avançou.

Para Panguana, a poesia moçambicana atravessa bons momentos, com o surgimento de jovens e novos autores, na mesma medida que nascem editoras e novos públicos.

“A poesia, a ficção narrativa e outras formas de produção literária moçambicanas estão numa fase muito rica, onde há muita ousadia. Posso afirmar que, no contexto das literaturas de expressão portuguesa, Moçambique surge como um país que vai ser, nos próximos tempos, a maior referência”, vaticinou.

Lê-se no prefácio da obra, assinado pelo professor de literatura portuguesa, Demétrio Alves Paz, que a primeira parte, composta por 14 poemas dedicados aos seus parentes mais próximos (avó, mãe, pai e filha), representa o nascimento e continuidade. Traz uma percepção do vínculo afetivo do sujeito poético com os seus ente-queridos, da mesma forma que expressa desejos disfarçados na penumbra que se instala no momento da escolha das palavras para expremir sentimentos. “O verso acontece”, a segunda parte do livro, com 11 poemas, incluindo o que dá título ao livro, apresenta poemas centradas no interior da gaveta (memória), onde o autor encontra a vida, no lugar da alegria.

Já a terceira parte, “A poesia acontece”, onde se encontram os restantes 19 poemas, onde a poesia ganha corpo. É aqui onde se encontra a poética pessoal. Para Demétrio Alves Paz, a soma das qualidades poéticas presentes na “Gaveta de Cinza: Solilóquios” tornam a obra versátil e potente, na medida concorrem para a procura de uma poética própria e autêntica

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