Amor, crítica social, revolta e resistência n’O Parto dos Rios” de Pedro Baltazar

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Sentado numa cadeira e de guitarra ao colo, Roberto Isaías aqueceu a noite fria de ontem com a sua voz a interpretar “Lalany”, o seu hit, no palco do Centro Cultural Brasil-Moçambique, na baixa de Maputo.

Isaías levou o público ao júbilo, a julgar pelos gestos esboçados pelos presentes, que acenavam a cabeça, mexiam o corpo e batiam palmas, em clara demonstração de sintonia. Iniciava, assim, a cerimónia de lançamento do livro “O Parto dos Rios”, obra de estreia do poeta Pedro Baltazar.

É um livro de poesia, no qual o autor discute, de forma crítica, os acontecimentos do quotidiano, tais como a corrupção, violência doméstica, o “lambe-botismo”, entre outros, da mesma forma que aborda sensibilidades humanas, quais o amor, a cumplicidade, ansiedade e desejos carnais.

Em 76 páginas, divididas em três partes ou cadernos (“Madrugada do Lúrio”, “Pôr do Sol no Save” e “Amanhecer no Zambeze”) Pedro Baltazar partilha as suas experiências e andanças pelos rios nacionais, mas também dedica um poema ao rio Kwanza.

Nesta proposta, Baltazar recorre ao tratamento figurado de aspectos que marcam a identidade sócio-cultural do país, relacionando-os às línguas locais.

Pedro Baltazar apresenta, no seu primeiro livro, uma série de denúncias aos problemas sociais. Explora a questão da exploração do Homem pelo Homem, bem como as desigualdades de género.

Ao “Mbenga”, o autor explicou que se trata de um engendrado na ideia de trazer à superfície a realidade muitas vezes ocultada. “Não faço parte das massas, eu sou a massa, por isso tenho de escrever sobre a minha realidade e, neste livro, escrevo sobre as massas das quais faço parte”, revelou.

Baltazar dedica a obra aos rios, que são importantes referências por onde tem estado nos últimos tempos.  Disse igualmente que o teor interventivo dos poemas que corporizam “O Parto dos Rios” representam o seu pensamento a respeito do status quo.

“Não critico, propriamente, o sistema, mas a forma pouco ortodoxa que está a ser gerido. Está a faltar, no nosso sistema, alguma forma de sustentação, por isso está a escorregar aos nossos pés”, declarou o poeta a acrescentar que a crítica, através das artes, corresponde a melhor forma para colocar os pés firmes no chão.

Um poeta abertamente crítico – Irene Mendes

“O Parto dos Rios” sai sob chancela da Gala-Gala Editores e foi apresentada, ontem, no CCBM, pela Profa. Dra Irene Mendes, para quem Pedro Baltazar distingue-se pelo facto de ser um poeta abertamente crítico.

“Fiquei surpreendida quando tive nas mãos ‘O Parto dos Rios’ porque nunca imaginara que um militar e alguém formado em Direito tivesse tanta sensibilidade para abordar um tema tão delicado como o amor”, disse.

Para Irene Mendes, Pedro Baltazar desempenha, nesta obra, um duplo papel social.

“Vemo-lo a assumir-se representante de dois grupos: artista e soldado”, pelo facto de o autor ter formação militar e, desta feita, propor uma viagem literária, onde mostra o lado chocante da sociedade e do país, em geral, como quando questiona os indivíduos que enriquecem de forma ilícita.

A beleza da obra, prossegue, manifesta-se logo através da personificação do rio, que o título “O Parto dos Rios” nos sugere.

Para o director editorial da Gala-Gala, Pedro Pereira Lopes, o tom de crítica trazido em “O Parto dos Rios”, lembra a poesia pré-nacionalista e de combate, pela leveza de escrita e abordagem que lhe é característica.

“São poemas de intervenção social, que ressuscitam José Craveirinha, Noémia de Sousa e Rui de Noronha, trazidos numa época onde, muito provavelmente, não se discute muito este tipo de poesia”, explicou.

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