Victória com sabor a derrota

0
144
OKJA

Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Bertold Brecht

Um velho poeta se hospeda em um hotel à beira do rio. Sentindo a morte cada vez mais próxima, embora aparentemente saudável, convoca a presença dos dois filhos, com quem tem uma relação distante. Simultaneamente, após ser traída pelo parceiro, uma jovem se instala no mesmo local com uma amiga. Quando ele vê a jovem e a sua amiga, fica profundamente tocado.
O enredo acima é da longa-metragem “O HOTEL ÀS MARGENS DO RIO” (HOTEL BY THE RIVER), dirigida pelo cineasta sul-coreano Hong Sang-Soo. E assim desperta o meu interesse pelo cinema daquele país oriental, que até aquele episódio desconhecia. Estávamos em Novembro de 2018, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro.
Prendeu-me a atenção o filme em preto e branco, no qual uma aparente simplicidade aeróbica de zooms dá luz a uma narrativa calcada em encontros, bebedeiras, refeições e divagações sobre os corredores, nem sempre iluminados ou com a luz falha, da vida. Esta, pelo que se percebe nos filmes “Noite e Dia” (2008), Hahaha (2010) e “Certo Agora, Errado Antes” (2015), assinados por Hong Sang-Soo, é uma marca já registada no seu ADN.
Este realizador, assim como Park Chan-wook, Na Hong-jin, Lee Chang-dong – presenças regulares e significativas em festivais importantes como o de Cannes ou Berlinale, arrecadando Óscares e Palmas de ouro desde os finais da década 90 do século passado – têm estado a introduzir outros tipos de narrativas, de discurso e imaginários no cinema.

Embora, em muitos casos, não causem estrondos de sucesso no ocidente e seus followers, lideram as bilheteiras na Correria do Sul.

O virar da página.

Com “Gisaengchung” (Parasitas), dirigido por Bong Joon-ho, que levou o Palma de Ouro em 2019 e em 2020 uns tantos Óscares, as atenções do “pop” – ou mainstream, tanto faz – viraram para uma produção “cult” que até aí era consumida, essencialmente, fora da Ásia, por cinéfilos.
As premiações confirmaram a relevância do trabalho de Bong Joon-ho que chega às salas da tela grande – relactivamente, no meu grupo de amigos, vimos no laptop e na Tv, com um flash – pela primeira vez com “Salinui chueok” (Barking Dogs Never Bite), em 2000, segue depois com “Memórias de Um Assassino” (2003), “Gwoemul” (O Hospedeiro/A caricatura), 2006, e as produções não param de surgir ano após ano.

Nesse percurso vai consolidando o seu trabalho sob os signos e significantes, ironia, acidez, crítica sociocultural, política tendente para a esquerda, e planos de suspense, elementos que já constituem a infraestrutura do seu cinema.
Na longa-metragem de Bong Joon-ho, disponível na Netflix (Okja, 2017), uma criatura gigante – um porco mutante – que Mikha (Ahn Seo-hyun), adolescente agricultora que a criou no alto das montanhas no interior da Correia do Sul, deu o nome de Okja. Mikha vive no isolamento com o avô desde que ficou órfã de pai e mãe. O porco é a sua fiel companheira, passam o dia juntos nos verdes da floresta, a alimentar-se de frutos silvestres, peixes nos riachos, cascatas e lagos que a natureza lhes pôs a disposição.
O destino de Okja já estava traçado havia 10 anos, desde que foi gerado. O porco que chegou as montanhas recém-nascido tem de voltar a Nova York para seguir aos talhos e nutrir os cardápios de fast food norte-americana.
Mikha parace não saber que outros 25 foram distribuídos por vários países, pela Mirando, uma grande empresa do ramo de venda de carne para supermercados, em quantidades industriais, cuja CEO é Lucy Mirando (Tilda Swinton).
Na apresentação amplamente mediatizada deste novo “produto” velado, ainda no início da pelicula, como uma forma de gerar uma nova espécie para equilibrar o ecossistema que vai se ressentindo de animais em extinção. Os animais estão a ser envidos para serem criados por agricultores de vários lugares e assim crescer na cultura do lugar. Este foi o caminho encontrado para escapar de ambientalistas e custos de produção nos Estados Unidos, através de mão de obra mais barata. O objectivo era introduzir porcos mutantes no mercado, cuja mutação consiste em dar-lhes mais volume, mais peso…enfim, “mais carne.”
Volvida uma década, Mikha desenvolveu uma relação de afecto com Okja. A Mirando, empresa proprietária do “super porco”, a toma de volta. Aqui a crise se instala.
Desprotegida, com algumas moedas da sua poupança, que guardava num cofre com formato de porco, contra a vontade do avô Mikha, desce para Seul, para recuperar a sua companheira. É, ao chegar, confrontada com a indiferença dos funcionários da empresa e acaba envolvida numa missão de resgate com um grupo de activistas ambientais que pretendem denunciar o que está por trás da operação anunciada como um manifesto de amor pelos animais.
Já neste filme, anterior ao “Parasitas” (2019), encontrávamos a caricatura de personagens do capitalismo, como, por exemplo, o apresentador de televisão que ganha seguidores por ser excêntrico e fingir que gosta de animais. Da empresária que se safa dos sarilhos que lhe surgem como uma boa estratégia de comunicação. E, se na longa “The Host” (O hospedeiro/ A Criatura) a figura animal de tamanho colossal é um monstro, neste é um porco dócil.
Manipulações da media – ainda mais eficiente com a nova media -, gestão de crise e o capital, no fim vence. Mikha retorna com Okja para as montanhas. Deixando para trás outros porcos, na fila de espera do abate. A sua conquista foi em troca de uma estatueta de ouro puro, maciço pelo animal. Os ambientalistas perdem, não obstante a denúncia.
Dois últimos detalhes:

  1. Para Lucy Mirando a adolescente Mikha e Okja são a mesma coisa: lucro.
  2. Na Correia do Sul, sonhar com Porcos, traz fortuna, traz sorte.

Artigo anteriorPak Njamena no WOMEX em Portugal
Próximo artigoAmor, crítica social, revolta e resistência n’O Parto dos Rios” de Pedro Baltazar
É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here