Pekiwa: o historiador Tonga?

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Pekiwa. Fotografia de Júlio Marcos.

Em tábuas de madeiras velhas, Pekiwa esculpe rostos, expressa sentimentos e narra as vivências dos Tonga, um povo Bantu situado nas margens norte do Rio Zambeze. Os materiais são encontrados na histórica Ilha de Moçambique.

Nos últimos anos o artista tem ido regularmente a primeira capital moçambicana, à procura de materiais escultóricos, para servir de suporte das suas obras.

Com a exposição “Ntumbuluko”, inaugurada há dias, na galeria da Fundação Fernando Leite Couto (FFLC), Pekiwa propõe o regresso às origens, a bordo do hábito e costume de decorar, com desenhos esculpidos em portas e janelas das casas de madeira e colmo, uma práctica predominante nas  sociedades Tonga, conforme observa a curadora da mostra, Yolanda Couto.

A mostra é composta por 22 obras, cuja produção durou cerca de um ano, desde a aquisição dos materiais juntos às populações locais, o transporte à Maputo, até ao processamento final, que acontece no seu atelier.

A ideia é, explica Pekiwa, trazer a nossa origem africana de uma forma contemporânea. “Não é, propriamente, uma abordagem temática das tradições do povo do Vale do Zambeze, mas a técnica, pois, como se sabe, estes povos já tinham essa tradição de escultura em madeira”, disse o artista.

O amor, a espiritualidade, a resiliência e a unidade são algumas das impressões que podem ser encontradas na mostra. O artista descreve a mostra como “um sentimento misto de um ser humano que vive em sociedade e passa por várias situações, como o amor, a guerra e o ódio”.

Pekiwa também faz alusão a situações que marcam o presente da sociedade moçambicana. “Tem, aqui, uma obra em homenagem aos soldados que estão a lutar em defesa de Cabo Delgado, porque, como ser humano, não podia passar despercebido sobre o que acontece por lá”, explicou.

“Ntumbuluko” termo bantu que, quando traduzido para a língua portuguesa, se aproxima a “princípio”, “ancestralidade” e qualquer outra palavra que remete às origens, é, na visão de Yolanda Couto, um nome bem colocado para esta mostra.

A curadora interpreta as obras de Pekiwa como a junção do passado e o presente. Deste casamento resulta “um magnetismo que nos leva ao passado, pois lembramo-nos, com orgulho, do passado de um povo, através das tatuagens que se fazem na pele, que me parecem com as que estão na madeira”.

A procura pelos materiais, que já foram usados no tempo, acrescenta, mostram que o passado está lá. É um passado e um presente, através das obras do Pekiwa.

Filho de pai escultor, Govane, Pekiwa é o nome artístico de Nelson Augusto Ferreira. O artista começou a trabalhar com a escultura na sua infância, influenciado pelo seu progenitor, e expôs, pela primeira vez, em 1997.

Participou de vários eventos artístico-culturais, dentro e fora do país, com destaque para exposições individuais e coletivas.

A sua obra pode ser encontrada em Moçambique, Portugal, África do Sul, Botwana, Noruega, Dinamarca, Japão, Austrália, entre outros.

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