Sandra Tamele, a tradutora de sentidos

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– Sandra Tamele, intérprete e tradutora, a propósito do dia do tradutor, que se celebrou a 30 de Setembro

Sandra Tamele é tradutora e intérprete ajuramentada, membro do Instituto de Linguistas Britânicos. Poliglota, fala português, inglês, italiano, alemão e mandarim. Moçambicana e natural de Cabo Delgado, em 2004 fundou a SM Traduções para responder à procura por serviços de tradução e interpretação fiáveis e de qualidade em Moçambique. Formou-se na Itália e Reino Unido. Incansável nas suas lutas, em 2018 fundou outra editora, a Trinta Zero Nove, que se ocupa na tradução para línguas nacionais de contos, romances, poemas, entre outros géneros literários.

Na esteira de 30 de Setembro, data em que se comemora o dia do tradutor, conversamos com a tradutora que tem vindo a impactar o mundo com o seu trabalho.

Celebra-se, no dia 30 de Setembro, o Dia Mundial do Tradutor. Conte-nos donde vem a sua relação com esta data a ponto de anualmente desenvolver uma actividade para marcar esta efeméride?

Sim, 30 de Setembro é, de facto, o Dia Internacional da Tradução (DIT) e celebramos não só os tradutores, mas também intérpretes. É um dos meus dias preferidos do ano porque é uma oportunidade única de sensibilizar a sociedade civil para a importância do trabalho realizado pelos tradutores e intérpretes, tendo em conta que existem mais de 6000 línguas faladas e mais de 200 línguas gestuais no mundo.

Quando é que começou a celebração da data em Moçambique?

Começámos a celebrar o DIT em 2010 quando um grupo de intérpretes experientes decidiu juntar-se para tentar criar uma associação de tradutores e intérpretes moçambicanos. Eu fiz parte da comissão responsável pela criação desta associação. Desde então nunca deixámos de celebrar o dia, inicialmente com um concurso de redacção para os estudantes de licenciatura em tradução, desafiando-os a explicar por que escolheram a profissão, conseguimos evoluir com o tempo, criou-se uma editora e este evento venceu um prémio internacional, numa estreia para Moçambique e para os PALOP.

Geralmente, quem traduz tem de ter uma base cultural muito forte da língua que está sendo traduzida. Como lida com esse desafio?

Muitos acreditam que maior domínio da sua língua de chegada, isto significa que a língua para a qual traduz, invés da língua de partida, é a chave para uma tradução bem conseguida. Traduzir literatura é sempre um desafio, porque não é só a voz dos autores, significa também encontrar a nossa própria voz e encontrar uma voz conjunta que usaremos e tentaremos transmitir a poesia do conto ou do romance em que estamos a trabalhar. É, na verdade, muito gratificante ver como as palavras funcionam e até as frases idiomáticas se traduzem de uma língua para a outra. Tanto que uma das minhas citações favoritas é de Anthony Burgess que diz que traduzir não se cinge apenas a palavras, mas sim tornar inteligível uma cultura inteira. Alguns estudiosos são contra o que eu faço algumas vezes: a tradução por falante nativo, o que significa traduzir de e para a minha língua materna. Mas este exercício é fundamental para um país como o nosso em que apenas três dos nossos escritores têm obras traduzidas e visibilidade nos mercados ocidentais.

Que armadilhas do processo da tradução ainda roubam o seu tempo enquanto traduz?

Há demasiadas para enumerar aqui. Eu gosto de apontar àquelas que participam nos “workshops” de tradução como os falsos cognatos que chamamos amigos da onça porque muitas vezes, quando se está a traduzir um texto, pensa-se que uma certa palavra tem um determinado significado quando não é assim. Rever é importante, ver e olhar para este texto sempre de uma perspectiva diferente, sempre com olhos frescos e depois de estar imerso num cenário muito diferente.

Como assim?

Por exemplo, se estou a traduzir contos, leio frequentemente poesia ou ouço música, para que quando voltar ao meu projecto original chegue com um ponto de vista diferente, uma postura diferente, posso dizer.

SOU CONTRA ESPECIALIZAÇÕES

Existem vários géneros literários. Há quem se sente mais confortável a traduzir contos e outros poemas, por exemplo. Qual é a sua especialidade?

Na verdade, sou contra as especializações. Penso que o mais importante para o tradutor é dominar a língua de chegada ou materna e ter uma compreensão muito profunda do texto de partida. Quando se tem isto não é preciso especializar-se. Acredito que sendo muito versátil e, com o meu tipo de intelecto, por exemplo tenho dificuldades em traduzir o mesmo tipo de texto ou o mesmo género vezes sem conta, por isso mudo da poesia para o conto, e deste para o romance. Claro, os contos são mais breves, o que significa que a produtividade é maior quando se trabalha com este tipo de textos literários em comparação com os romances, mas a poesia é um texto mais breve, mas o desafio de traduzir poesia é diferente, porque é preciso prestar atenção ao ritmo e tentar reconstruir os versos numa língua diferente. Como qualquer mãe, porque todas as minhas traduções são como os meus filhos, não tenho favoritos.

A moçambicana Editora Trinta Zero Nove é a primeira editora dos PALOP a vencer o Prémio Excelência da Feira do Livro de Londres. Como foi o caminho até esta conquista e quais são as próximas projecções?

Sim, estou muito feliz por ser a primeira editora dos PALOP a vencer os Prémios para Excelência Internacional da Feira do Livro de Londres, mas também estou triste porque este evento já se realiza há 50 anos e isto significa que houve 49 oportunidades perdidas para editoras da nossa região.

É um prémio com um significado especial?

É muito gratificante e significa muito, não para mim pessoalmente, mas para o grupo de pessoas envolvidas neste evento ao longo destes sete anos. Não foi um caminho fácil, embora também não tenha sido planeado, o processo foi muito orgânico e como mencionei anteriormente evoluiu de uma reunião de tradutores para um concurso de redacções e deste evoluiu para um concurso de tradução literária onde tivemos um romance escrito em francês e inglês. Depois expandimos o número de línguas ao mesmo tempo que crescemos em termos do número de participantes e este ano tenho o prazer de partilhar que tivemos um número recorde de submissões, tivemos mais de 180 inscrições e das 55 propostas válidas que estão agora a ser avaliadas e estamos há dias de anunciar os vencedores da edição deste ano, onde traduzimos do francês para o inglês, mas traduzimos de seis países diferentes da SADC.

Quais são esses países?

Traduzimos mulheres da África do Sul, Madagáscar, Malawi, Zâmbia, Zimbabwe e Tanzânia. Estamos  realmente felizes por ver como este concurso cresceu devagar até se tornar neste evento pioneiro e vamos ver o que temos pela frente. Temos muitos projectos, muitas línguas e inúmeras opções para explorar, o que me entusiasma muito.

Recentemente publicou a tradução que fez de “A Morte e o Cavaleiro Real” do primeiro Nobel de Literatura (1986) africano, o escritor nigeriano Wole Soyinka. Como foi o processo?

Oh, “A Morte e o Cavaleiro Real”, que projecto! Lembro-me muito bem, há talvez cinco anos tentei entrar em contacto com o Jesse e o Alex, os fundadores da Ethale. Eu estava tão entusiasmada por ver alguém em Moçambique a publicar a tradução e tentei compreender o projecto e a linha editorial. Depois de um longo fio de mensagens fiquei super feliz quando eles me disseram que tinham dois projectos para o meu perfil, um deles “A morte e o cavaleiro real”, de Wole Soyinka. Não podia acreditar nos meus ouvidos, porque Soyinka foi um dos autores que conheci quando ainda era pré-adolescente e nunca pensei em um milhão de anos ver os nossos nomes juntos numa capa e agora tenho dois Prémios Nobel da Literatura Africanos no meu currículo.

Uau! Interessante!

É assustador e, ao mesmo tempo, muito gratificante porque nomes como Soyinka e Mahfouz são importantíssimos e eu uma tradutora de um dos países mais pobres do mundo.

Que magia aplica durante o processo de tradução?

Quando começo a traduzir estas obras tento ver apenas as palavras como música, vejo o ritmo e tento distanciar-me um pouco do peso da responsabilidade da tarefa. Estou feliz e entusiasmada por estarmos a receber críticas construtivas e positivas neste nosso primeiro projecto conjunto.

O facto de sermos falantes de português, língua isolada no continente, talvez justifique que se desconheçam autores africanos de outros países, os anglófonos e francófonos. Vê na tradução uma possibilidade de mudar esse cenário?

Sem dúvida, a tradução serve de ponte entre línguas e culturas e é fundamental que comecemos a fazer isto mais vezes. Não só traduzir os nossos vizinhos ou de outras línguas para as moçambicanas, mas também traduzir dentro de Moçambique. Penso que é importante que divulguemos a nossa literatura também noutras línguas moçambicanas. Por exemplo, o macua tem mais falantes do que o português e o changana juntos, por isso a tradução é definitivamente a chave para mudar este cenário.

Podemos esperar por mais traduções de autores?

Sim, desde a nossa primeira colecção de três títulos em 2019 aumentámos o nosso catálogo para mais de trinta este ano. E, tirando o britânico Raymond Antrobus, o americano Lawrence Schimel e a marroquina Amina Alawi com dois títulos no catálogo, todos os outros autores são novidades na nossa lista, numa tentativa de mostrar a diversidade presente na literatura hoje.

TODOS OS LIVROS SÃO

DIFÍCEIS DE TRADUZIR

Qual foi o livro mais difícil que traduziu e porquê?

Essa é uma pergunta muito difícil porque não acredito que houvesse um único livro difícil, todos eles são difíceis. São simples, depende realmente do meu estado de espírito no dia, do tipo de projecto que estou a enfrentar nesse dia, por isso é muito difícil escolher um.

Algum conselho a quem se está a iniciar no mundo da tradução?

Sim, formação é importante, não me refiro à formação formal, porque não tinha uma quando comecei a traduzir literatura em 2007. Talento e vocação, porque se não vai fazer isto por amor não acredito que vá perseverar porque, infelizmente, a tradução literária não paga tanto em comparação com a tradução comercial ou outros trabalhos que estão disponíveis para tradutores e intérpretes. Ler muito para se cultivar e aprender todos os dias.

Afinal, qual é a primeira coisa que um tradutor deve captar no livro, para que o trabalho saia com qualidade?

A voz do autor claramente, se não se consegue transmitir o que é o estilo e o que chamamos a voz do autor, então é um fracasso épico, por isso é essa a única coisa que não se deve mudar num livro ou texto, nunca.

Qual é o maior desafio de traduzir em Moçambique?

Moçambique é um país de muitos desafios, por isso acredito que os tradutores não enfrentam desafios particulares que sejam diferentes dos desafios enfrentados pelos outros profissionais, por isso, traduzir em Moçambique: primeiro não compensa em termos monetários, é difícil viver apenas de traduzir literatura. Aliado aos baixos níveis de literacia e de leitura, e quando traduzimos literatura precisamos que as pessoas leiam os nossos livros. Como editora independente preciso de muito apoio e não me refiro ao apoio governamental ou público, mas sim à própria sociedade civil, temos de pensar que se as pessoas não têm uma estante de livros em casa será muito difícil para nós editores prosperarmos. Creio que ter leitores que pagam pelos livros é fundamental para nós construirmos um negócio sustentável e podermos crescer.

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Encontrou na escrita o tubo de escape para a vida. Nasceu no Posto Administrativo de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza. Foi lá onde deu os primeiros passos da vida. Formado em Jornalismo pela Escola Superior de Jornalismo e em História pela Universidade Eduardo Mondlane, é membro da Plataforma Mbenga Artes e Reflexões desde 2014. Além de escrever, também edita e sonoriza o programa radiofónicos desta plataforma, intitulado Conversas ao Meio Dia, que vai ao ar todas as sextas-feiras, na Rádio Cidade. Pretilério Matsinhe colabora igualmente com muitos outros jornais da praça!

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