A busca pela infância de Mia Couto

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“A casa é uma espera, regressa apenas quem

nunca dela saiu”

Adriano Santiago

Mia Couto, escritor moçambicano com uma vasta obra, nasceu na cidade da Beira, centro do país, no ano de 1955. Viveu na capital da província de Sofala até aos 17 anos, altura em que se mudou para Maputo, então Lourenço Marques.

Mia eternizou, em livro, as suas memórias da infância, ligada à cidade da Beira. Em “O Mapeador de Ausências”, sua obra autobiográfica (não assumida), Mia Couto embrenha-se numa viagem no tempo, revisitando os lugares e revivendo experiências que formam o fio que coze a narrativa da sua vida.

É um romance que não se limita ao simples contar factos do passado. Apesar de ser uma história contada a partir dos anos setenta, já no fim da Luta de Libertação Nacional, foge de qualquer menção a heroicidades. Ou seja, não é uma epopeia, quer seja de um povo ou do seu libertador.

A ligação entre o homem e as suas origens é permanente. É um laço incessante, ainda que este tenha a necessidade de migrar e conhecer novos destinos. “(…)Tenho saudades do meu pai apenas quando a mim mesmo me falto (…)”, lê-se no romance.

A narrativa cruza dois períodos da nossa história, o pré e o pós-independência. Através deste exercício, Mia “satiriza” diversos aspectos do quotidiano, como, por exemplo, a questão do tratamento racial e identidade africana, mas sem recorrer aos neologismos semânticos, recurso a que o escritor já nos tinha habituado. Aliás, sobre este aspecto, o escritor já havia dito em entrevista à Viva, em 2013, reagindo à conquista do Prémio Camões, que pretendia se distanciar da prática de “inventar palavras”, por ter começado a pensar que “a história deve ser maior que as palavras.” E é esse o espírito de “O Mapeador de Ausências”. É uma prosa ficcional, inspirada em pessoas, episódios e factos reais, com o cuidado de garantir que nenhum destes aspectos se sobreponha à narrativa. 

O autor também faz menção de questão relacionadas com às mudanças que o tempo (o centro da história) opera na sua produção artística: “a minha escrita foi ganhando rugas com a idade”.

“O Mapeador de Ausências” é um livro de memórias, tal como o título sugere, no qual Mia ressalta momentos dramáticos, tristes e cómicos que experimentou na sua terra natal.

Mia Couto entra para o enredo como Diogo Santiago, filho de um jornalista e poeta português, residente na Beira. Adriano Santiago, seu pai, é o destinatário de provas de um massacre cometido pelas tropas portuguesas em Moçambique, no ano de 1973.

Diogo Santiago é um respeitado poeta e professor numa universidade, em Maputo, que se desloca a sua terra natal, Beira, pela primeira vez em muitos anos, de propósito para a sua homenagem, prestada pelas pessoas da sua cidade.

A viagem acontece em 2019, nas vésperas do ciclone IDAI, intempérie responsável pela destruição de boa parte da capital da província de Sofala e dos espaços onde parte desta narrativa decorre.

Na Beira, os caminhos de Diogo cruzam-se aos de Liana Campos, uma estudante e neta do antigo inspector da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) que, há mais de quarenta anos, prendera o seu pai, Adriano Santiago.

A história ganha vida enquanto Diogo vai folheando os arquivos da PIDE, diários, anotações e outros documentos de natureza pessoal, fornecidos por Liana Campos.

Diogo Santiago e Liana Campos têm em comum a pretensão de reencontrar o passado na Beira. Ambos, seguem suas próprias trajectórias entrelaçadas em diferentes momentos.

Liana segue o rastro da sua mãe, Ermelinda (Almalinda), que sobreviveu a um suicídio que engendrara com o seu namorado, enquanto Diogo, um menino branco, filho de um pai jornalista e poeta de quem guarda a recordação de duas viagens à Inhaminga, palco de terríveis massacres cometidos pela tropa colonial com o objectivo de exterminar a FRELIMO, a herança do gosto pela poesia e a sua perseguição e prisão pela PIDE.

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