Zinder: um filme para me reencontrar com o meu passado

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Pisar o chão da infância, olhar para as ruas desordenadas, andar em círculos e perceber as miseras mudanças. Zinder ainda é Zinder. O mesmo gueto, o mesmo berço, o mesmo local que viu esta mulher determinada partir, o mesmo gueto que vê Aïcha Macky voltar para contar a história de seus moradores marginalizados por uma sociedade que os torna marginais.

Assisti o filme mais de três vezes. Confesso que perco o norte cada vez que assisto, saiu do Níger e navego, lentamente, para a minha infância e me vejo no bairro onde nasci, cresci e me fiz homem. Mas antes de avançar, quero localizar, quero me localizar, me encontrar geograficamente, me encontrar espiritualmente.

Nasci e cresci naMafalala, um bairro suburbano da cidade de Maputo, capital de Moçambique. O bairro é histórico, é o berço da consciência revolucionária que tornou o meu país independente. Nele nasceram personalidades que pela sua firmeza mudaram o rumo da história. Apesar de pequeno, nele muitas almas ganharam espaço e expuseram o seu pensamento.

O campo de futebol do bairro é minúsculo, mas nele formou-se Eusébio da Silva, um dos maiores jogadores de futebol de África e do mundo. Apesar de ter-se nacionalizado português, nunca negou as suas origens, nunca negou a Mafalala e está no top 3 dos maiores jogadores da história, ao lado de Pelé e Maradona. Cristiano Ronaldo tornou-se no que é inspirado no “Pantera Negra”, alcunha pela qual Eusébio é chamado. O primeiro presidente de Moçambique independente, Samora Machel, também morou na Mafalala.

Apesar da história revolucionária, o bairro também é malfalado, nele o crime fala todas as línguas e inspira mais que as personalidades revolucionárias. Uns dirão que estou a ir longe de mais, mas é a realidade. O bairro é marginalizado, como Zinder também é, e o fenómeno não é recente. Assistindo o percebo que os factores que criam esta marginalização são os mesmos.

Em Zinder a acção tem início com processo democrático no Níger na década de 1990, onde o fenómeno da violência acelerou-se e foi alimentado, em particular, por mudanças sociais. Essas mudanças incluem a desagregação da estrutura familiar, em particular, a desvalorização da autoridade paterna; abolição dos serviços nacionais, que garantiam a mistura social; aumento do desemprego juvenil e o “colapso” da escada social e guetização de bairros.

Mafalala também passou por isso, minimizaram oportunidades para os jovens, diluíram-se valores morais e os marginalizados multiplicam-se e atraem mais discípulos. Mas não é apenas isso que reparo quando vejo o filme, o documentário mostra que é necessário ouvir essa gente marginalizada para perceber os factos além das pesquisas quantitativas, perceber o que leva as pessoas a viverem à margem dos ditames da sociedade.  

Aïcha Macky tem o mérito de conseguir ter o equilíbrio necessário para voltar ao local onde nasceu e questionar sem julgar.

Não julgue

Confesso, a princípio fiquei em choque quando no filme vi o símbolo do nazismo a ser hasteado por jovens negros. Pensei, deve ser uma antítese. E não era. Vi jovens num ginásio informal, observei pessoas com sonhos de prosperidade marcadas com cicatrizes que narram a barbárie que são as suas vidas.

A câmara da realizadora Aïcha Macky é reconfortante, não julga, dá a oportunidade destes jovens desempregados, muitos querendo deixar o país por falta de opções melhores, para contarem a sua história. E eles a contam muito bem. Os jovens mostram porque ingressam nos gangues que semeiam a violência em Zinder, no Níger. É uma face da moeda pouco vista, mas que deve ser vista.

Aïcha Macky explora o lado humano da história, procura a génese do caos, que aos poucos está se espalhando por sua cidade natal e as possibilidades de escapar dela.

O documentário traz o quotidiano de uma subcultura, como suas particularidades, seus heróis, seus medos e anseios. Aqueles homens que se deixaram captar e aparecem na tela têm um ar de mistério simultaneamente transparentes, falam com um a vontade, como se não estivessem a ser gravados.

Aicha Macky consegue retornar a sua terra natal e retratar uma nova realidade. Como socióloga, ela emerge na subcultura, deixa as personagens desse mundo a vontade para contar o que sentem e o que realmente vêm no seu interior.

A vantagem de Aicha é a sua experiência em novos locais. Depois que deixou a casa, conheceu outros mundos. Retorna às origens com outros olhos. E ela tem outra visão, olhos que não julgam.

Sem julgar, ela mostra as provações que as pessoas passam, a falta de serviço, condições para o seu bem-estar.

Os olhos de Macky não camuflam a violência, retratam sem pudores; não teme o dia ou a noite, traz tudo ao pormenor; treme em momentos de medo de supostos ataques do Boko Haram.

Este comprometimento com os factos torna o documentário um retrato artístico desta subcultura. Mas como sabemos, quando uma pessoa emerge numa subcultura bebe os seus sentimentos e isso pode afectar o seu julgamento. Esperamos que não seja o caso de Macky.

Aïcha Macky

O RETORNO

Há semanas também retornei a Mafalala, sem câmaras de filmar, com os meus olhos de jornalista caminhei pelos becos do meu bairro, vi o tráfico de drogas a ganhar espaço. Vi o quotidiano do meu bairro, pessoas a mudarem de personalidade em cada linha que inalam, em cada partícula de droga que consomem. Porque o tráfico é um sistema que envolve a própria Polícia, as coisas continuam como estão. Mas sinto que essa gente do meu bairro também precisa de uma Aïcha Macky para se abrirem e contarem o que sentem, o que os leva a este submundo.

E Zinder?

Os jovens entrevistados por Aïcha Macky sentem-se excluídos da sociedade, o que leva à marginalização e à violência. O problema, então, é a lacuna entre uma norma de integração e a restauração de laços sociais, onde os laços parecem estar em declínio. A jornada desses jovens é dura, às vezes caótica e a maioria dela tem antecedentes criminais ou demissões. Para eles a prisão é uma segunda casa, onde não sentem o estigma.

Durante o documentário Aïcha Macky visita o centro de detenção de Zinder, onde traz a história de jovens presos, que compartilham um forte sentimento de rejeição por parte do Estado e das instituições judiciárias, que, para ele, perpetuam a violência.

Mas o que diferencia Aïcha Macky deles? A resposta é simples e é dita no filme por um dos personagens: Educação. Poucos dos jovens que crescem neste local carenciado teve oportunidade de estudar, não têm exemplos de pessoas a seguir e por isso vivem na lama, sem medo de ser o que são.

A felicidade é informal

Ao finalizar o filme percebi que ao seu jeito esta gente é feliz, pois a felicidade tem seus mistérios, tem sua constituição, não é algo padronizada, a felicidade é um sentimento que está além das posses. Um sorriso no final da jornada, um banho quente no final do dia, um prato cheio, duas colheradas de atenção e um sono tranquilo reanimam estes homens que de tudo fazem para comer.  E na Mafalala também é assim, ao passear pelo meu bairro vemos crianças alegres, a partilharem o mesmo espaço com os homens e mulheres que a sociedade moçambicana marginaliza, mas eles retribuem a indiferença mostrando que o bairro pode ser diferente do que é, porque um bairro é feito de pessoas com experiências diferentes e o que é necessário é gente que bebe outras experiencias, não de violência, mas de vitórias para retornarem e mostrar que é possível sonhar além da Mafalala, sonhar além de Zinder, sonhar com um berço melhor, criando assim um chão melhor para criar os nossos filhos.

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