E AS OBRAS DE ARTE?

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Genitho Pinto Santana é Antropólogo-FCSH, expert em quarteirões culturais e migrações.

Escrito por Genitho Pinto Santana*

Acompanho o que de mais se fala em Moçambique, neste momento: o julgamento [das Dívidas Ocultas, considerado o maior escândalo de corrupção do país]! Depois de muita ponderação, não resisti a uma espreitadela à relação dos bens supostamente adquiridos pelos arguidos. Não era para menos! Imagine! Ali descrevem-se altos carros caros. Ainda procurei, sempre naquela, por um mero sinal de uma obra de Arte que, a par dos carros caros, simbolizam riqueza, nadinha de nada. Pensei no Malangatana, no Picasso, no Miro, no Banksy. E fiquei nu, de nações unidas. Aqui começa o contraste que me dá imensas dores.

Um ponto de ordem: não tenciono comentar o julgamento, mas a dimensão cultural ali reflectida. Voltando a baila. De todos os bens arrolados pelo Ministério Público, não há nem uma referência a pelos menos uma obra de Arte! É isso?

Do outro lado do Atlântico, em Angola, entretanto, soubemos que o empresário Sindika [Dokolo] da Isabel [dos Santos], investiu numa das maiores e melhores colecções de Arte Contemporânea Africana. Está exposta na cidade do Porto, creio. O mesmo sucedeu com Joe Berardo, em Portugal, e o investimento na sua coleção Berardo no CCB (cidade do Benfica ou Sporting, mais beleneses), considerada uma das maiores e melhores colecções de arte contemporânea.

Portanto, uma associação entre cultura e empresário reside no gosto pela Arte. Galerias como Sotheby’s são assediadas por empresários ricos porque a riqueza sem Arte é mesmo que beber vinho e não gostar de uvas. É aqui que nos parece útil reflectir se consentimos que uma sociedade possa criar um segmento de empresários que não valorizam a Arte enquanto parte do seu património, parte das suas relíquias. Esta deprimente observação leva-nos a uma outra reflexão. Podemos criar Indústrias Culturais, uma sociedade de consumo sem hábito de consumir cultura, tipo de visitar museus, contemplar uma exposição…?

Este julgamento demonstra que o foco na cidadania cultural pode ser a melhor via para desenvolver as Indústrias Culturais (mercado). Já que nas últimas décadas a lógica parece deslocar a cultura da cidadania para o mercado, é fundamental pensarmos assim: quanto mais cultura tivermos acesso, mais consumidores de cultura seremos, logo, a procura por bens e serviços culturais serão maiores.

É aqui que ganha corpo a ideia de indústria enquanto um mercado assente na procura e oferta de bens e serviços culturais. De contrário, teremos muitos e grandes empresários e pouco consumo de Arte. Não haverá indústria sem consumo. Em linhas descontínuas diríamos que um povo sem cultura é como uma árvore sem tronco, não fica em pé. O consumidor de Arte não é como o da cerveja, que prova, gosta, pede a segunda e leva algumas. O mesmo serve para quem goste de sumo ou de shoes. É mais exigente o processo do gosto pela Arte ou hábitos culturais de ir a exposições, leitura do livro… espero que a próxima geração de empresários compre cada vez mais Arte.

Nisto, para que no presente futuro os futuros empresários apostem em obras de Arte, parece-nos importante investir na formação de públicos de cultura, matéria-prima indispensável ao desenvolvimento das Indústrias Culturais. Não se olvide que tal se desenvolve sem incentivo a criatividade do artista. Para desmentir o que escrevi, tenho esperança de que durante o julgamento alguém diga que comprou uma obra de Arte! A minha! A arte de sonhar com um Museu Mankew (1934-2021). Agora entendo o legado do pintor que perdeu a vida ontem, dia 13. Descanse em Paz! Daí a dupla dor!

*Antropólogo-FCSH, expert em quarteirões culturais e migrações.

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