O cálculo da RAÍZ QUADRADA

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Dionísio BAHULE

Escrito por Dionísio BAHULE

Proposição I

«Da mesma forma que Ibis é o apedrejado por ter recusado obedecer a uma ordem de Alá, que ele considerava arbitrária, todos os descrentes estão condenados eternamente às torturas mais terríveis: Nós fizemos do inferno uma prisão para os descrentes.»

Marcien TOWA, 2015:31

Proposição II

«[…] a explosão da linguagem literária foi um facto de consciência, não um facto revolucionário. […] Ao menos, pela primeira vez, não é a escrita que é a literatura; a Literatura é expulsa da forma; já é só uma categoria; é a Literatura que é a ironia, a linguagem constitui aqui a experiência profunda.»

Roland BARTHES, 2006:65-74

«A reserva de juízos é uma questão de infinita esperança.» Dinho repetia isso umas tantas vezes. Lembro-me! Uma delas – disse-o dobrando o corredor da cozinha com a mão a inclinar a réstia de um segredo relutante para o bolso. Lembrei-me disso com a ponta de remorsos que sempre acompanha a nostalgia. Na altura – estava a terminar a Marcos Mabote com a Sufaida depois de cruzarmos vielas para darmos a estrada. «Confesso que repeti uma pintada de vezes esta parte do parágrafo.» Ficamos aí pendurados numa esquina que espreitava a antiga casa onde eu morava para espiarmos o ponteiro que nos empurrara para a madrugada. Foi depois de um espetáculo de conclusão do curso no Avenida. Khufene lembra disso. Adamugy também; Roda também. Ficamos ambos algures. Por que depois seguimos a noite pela estrada da Portagem para deixarmos a Yolanda – abertamente influenciados por aquela que aos olhos da Gertrude Stein – ficou conhecida como geração perdida – a juventude pós-primeira-guerra, exausta e tombada na contingência. «Isso é extremamente confidencial»; esta parte – dita ela desta forma – parece Thomas Bernhard a percorrer a ponte da oralidade com um retorno sempre fixo ao seu interlocutor Gambetti. Há nessa coisa toda de recurso à palavra enquanto acesso ao humano – um senso inconfessável de um lugar-comum; dessa coisa que ambos podemos chamar por locus social; ao lugar de caveira antropológica.

Certamente, poderão todos perguntar: mas como tudo começou? Onde entra a Sufaida; a esquina que esgota a Marcos Mabota; o Adamugy; Khufene; Roda. Será tudo isto real ou uma mera ficção? Estando eu também do vosso lado – obviamente, perguntaria. Afinal de contas: todo o exercício de contar alguma história traz consigo toda essa cerimónia de invocação ao tempo; ao lugar; a interrogativa que move o acto de contar e também – ao desdobramento do verbo – a esse exercício de revirar o cadáver para trazê-lo ao estágio de existência. Do lado da torneira para quem sobe em direção à entrada da casa – Alice contorce as mãos para sossegar o filho com os olhos de pena atirados a um montãozinto duro de área próximo a um conjunto de ferros que estruturam a miniatura de uma casa. «Quem conhece o lugar, sabe do que me estou a referir. Fakir, Mambuxo, Ventura, Leonel, Sánia, Tsuca […] conhece; os pontos também.» Um dia até falei sobre isso de cronotopos na companhia da Maria Atália, mas retorno para esta conversa um outro dia junto com o problema anunciado por Barthes da linguagem como categoria que estrutura o acto literário. A Teresa. Na verdade não estava feliz. Perguntei inclusive a ela sobre o motivo do aborrecimento. Na altura, eu vinha descendo pelos canteiros para a varanda com a mão encostada num imaginário desintegrado da avenida que cruza a Patrice Lumumba para dar a 25 de Setembro junto ao Banco e a antiga Livraria. Levantou os olhos; bateu com os lábios a zanga; continuou inclinada para uma bacia com roupa já molhada.

Isto – na verdade levanta um outro problema – o de lugar do narrador; o de saber aquelas coisas todas sobre a contaminação do acto pelo seu meio. Um dia chamei isso por pequenos nadas da arte. Harani leu sobre isso um dia. E se eu disse por exemplo: Nádio inclinou com recuso do efeito a única parte da garrafa que naquele final de semana havíamos deixado. É óbvio. Era forte. Fingiu depois de vomitar que a causa tinha sido o ovo cozido que havia comido. Novamente a pergunta sobre o lugar do narrador; da pessoa que conta é posta em causa. É possível tudo ser apenas um acto de imaginação? A questão é sempre a mesma ou, quase a mesma: sobre o problema do tom e do ponto de vista. Alice serviu a bebida ao Nádio. Eu e a Teresa estávamos juntos. Mas o dia do aborrecimento era outro. Mas para além disso – como é que funciona o símbolo; na perspectiva mesmo de Ricoeur – como figuras que resistem dentro de uma cultura e que a elas se reconhecem a si mesma. Geralmente, associo a interrupção desta conversa a essa mania do filho da Alice. Na noite anterior – depois de a Teresa fechar a porta e deixar-me sentado na sala para espiar os habituais momentos de cio – lembrei-me de uma conversa com a Paulina. Uma dessas em que transitamos a madruga entre a fumaça do cigarro e a lareira a despistar o cansaço do trabalho sem consensos. Mas naquele dia – ela chegou a dizer – e que eu concordo – que a sociedade moçambicana de hoje divise-se em dois mundos: o da escrita – que simboliza poder e um outro – o da oralidade – que representa a pobreza e a marginalidade. Mas o que ela pretendia dizer com isso? Uma única coisa: a pretensão de chegar ao mito vendido, principalmente pela Charrua – dela ser o desvio ao encontro de uma anatomia do povo nos moldes em que podemos procurar na interrogativa sobre a sagração de sua voz; de uma voz colectiva usurpada antropologicamente. Fiquei até em dúvidas; se realmente – aquela passagem cujo Flittse faz um salto para o braço de Mhum e Philla, num exercício contrário ao da companheira – segue para a nuca – não tenha isso sofrido a contaminação da Paula Fox de Desperate Characters. Óbvio. Pena é do Mhun; ao menos a Sophie cedeu alguma carícia ao gato a ponto dele subir o dorso até pendurar-se nas costas da mão. Não tem mal nenhum nisto. São ofícios da construção. D’ outro lado – um pouco depois do telhado emadeirado próximo a uma perturbante entrada para onde André costumada repousar um pervertido olhar em direcção a uma prolongada ruela que vai dar à Casa velha – Bila encontrou-me a busca dos mesmos propósitos. «Eu acabava de lembrar o trecho de um dos contos da Nadine Gordimer – Numa segunda-feira, de certeza ­– onde ela descreve o transtorno da Emma». «Perdoe-me». Laçou as rugas; voltejou as mãos entre os atacadores; disfarçou o transtorno de ter deixado a Mariza partir. Mas quem está em diálogo? Bila e eu? Ou a historia que geralmente a associo às manias do filho da minha irmã.

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