Capturar o gueto para emoldurar na memória

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Fotografia de Ildefonso Colaço

Contar histórias é o propósito de Ildefonso Colaço e a fotografia foi a ferramenta que encontro para o fazer. Com a câmara sempre ao colo, este narrador apaixonado por viagens tem com o Gueto uma ligação umbilical. Aliás, acredita que uma das suas missões, enquanto artista, é inovar e criar condições para levar ao mundo as potencialidades das periferias, que podem ser dos traços mais subtis, aos que logo saltam à vista de quem por lá passa.

 Ildefonso Colaço é, também, um soldado que tem na câmara a sua arma de combate com a qual dispara rajadas sobre um pouco de tudo o que vê ao seu redor para eternizar em fotografias. Um traço indelével nos seus registos são as paisagens. Explora-as, incitando uma transposição para diferentes ambientes presentes nosso dia-a-dia.

“Tudo é Sempre Outra Coisa” é o título da sua primeira exposição individual, inaugurada ano passado, no Japão. O pretexto da mostra é mostrar as relações de causalidade entre os signos que a natureza oferece. A segunda, “Maputopias”, uma coletiva alojada num dos quartos do Hotel Carlton, em Maputo, explora locais de atração turística da capital do país, através de uma viagem temporal que descreve o processo de criação de utopias em seu torno.

Em “Corpo(r)ação”, uma mostra ainda patente na Galeria da Mund’Arte, no histórico bairro da Mafalala, Ildefonso Colaço casa a sua fotografia com os Xingufos (bolas de saco) do artista plástico Amarildo Rungo, formando um conceito que espelha a fusão, a ideia de movimento e ação. Ou seja, o corpo em ação, uma dualidade entre o estático e o animado que sugerem ideias, sentimentos e pensamentos.

As paisagens e os ambientes por onde passa são elementos muito presentes nos seus trabalhos. Por que razão gosta de fotografar lugares?

Bem. Eu gosto de fazer isso, porque gosto da ideia de guardar memórias, e a fotografia é uma boa ferramenta para tal. Eu posso visitar, sempre, essas memórias e fazer com que outras pessoas tenham acesso as mesmas. Então, é um arquivo visual, que vai servir não só para mim, mas para as outras pessoas. Claro, através dos meus olhos, da minha visão e da minha perspectiva, que eu quero que as pessoas percebam, mesmo que durante o processo as pessoas possam ter as suas visões, perceptivas e tal.

É muito sobre memórias, sobre ver e fazer com que as pessoas vejam essas memórias. Estou a partilhar a minha visão com o mundo.

Essas memórias são, muitas vezes, ligadas aos lugares por onde esteve. Quais os destinos que mais mexeram contigo?

Eu já estive em lugares interessantes, como Gurué e Ilha de Moçambique, por exemplo. Eu diria que esses dois locais, principalmente Gurué, são os que mais me marcaram. Mas, por algum motivo, tem um lugar que se torna mais importante, que é Maxaquene, o bairro onde vivo, actualmente. Vivendo e estando aqui, já há muito tempo, passo a ter uma visão do que é viver em comunidade. Poder documentar o quotidiano de um bairro como este é, para mim, muito impactante como artista, fotógrafo e alguém que está a documentar uma realidade. Todos os dias, são coisas novas. As pessoas são muitas e vivem situações diferentes. Conhecer novas pessoas, nesse processo de captá-las através das lentes, é algo que me muda, sobretudo quando tenho contacto com elas. Apesar de eu ter estado em sítios bonitos, como Gurué – que, já agora, é um local que acho que todo o mundo deve visitar – Maxaquene é um lugar especial para mim.

A Ilha de Moçambique por ser um lugar histórico. Estando lá, eu soube mais da história do país. Visitei a Fortaleza São Sebastião, um local onde é possível ter acesso a muita informação. Gurué é conhecido pelo chá. E estar naquele ambiente, perceber como é que tudo funciona, é espetacular. São dois locais que todo o mundo devia visitar, em algum momento das suas vidas, estando em Moçambique.

É possível notar, através das suas fotos, que tem uma forte ligação com o Gueto…

O Gueto, muitas vezes, tem uma conotação exagerada. Eu, estando inserido neste espaço e sabendo do que são feitas as pessoas destes locais, decidi retratar as suas vivências, através das minhas fotografias. É muito sobre registar os lugares e pessoas de onde eu venho e pertenço, porque como tenho dito, as pessoas, aqui, vivem e têm rotinas que mudam diariamente. Para mim, é importante registar e documentar isso, é uma necessidade que sinto e que, através dela, tiro algumas fotos para mostrar o Gueto para as pessoas que não tenham acesso, ou até mesmo para quem tenha, por trazer aspectos que passam despercebidos. Os becos, por exemplo, não são relevantes, para uma pessoa de fora do subúrbio, mas são caminhos que nos levam a lugares. Toda essa composição do que é um Gueto e suas gentes é importante registar, comentar e mostrar no final de tudo. É um amor que sinto por isso. Sempre tentar ter as pessoas e lugares representados através dos meus olhos.

Também reflecte sobre situações ou fases da vida (a infância, por exemplo). Faz isto no mesmo espírito de conservação de memórias?

Eu acho que a infância é uma fase muito bonita das nossas vidas. Se, hoje, somos crescidos, é porque passamos por esta fase. Eu me vejo naquelas crianças que fotografo, porque fiz muitas das coisas que elas fazem e passei por aquela fase da vida. Ter esse registo é uma experiência única. Existe, por parte das crianças, muita espontaneidade, diferente de nós, os adultos. É muito fácil fotografar a “alma” delas. Tudo isso faz com que eu goste, mas goste muito mesmo, de registar crianças a brincar, correr, jogar ou, simplesmente, estando num certo lugar. É bonito. É uma fase bonita, que eu quero recordar. Eu me vejo nisso.

Falando em crianças. Numa entrevista que concedeu este ano, a que tive acesso pela internet, disse que as crianças do seu bairro costumam lhe interpelar, pedindo que lhes faça fotos. Se sente reconhecido ao nível do seu bairro?

Sim, me sinto reconhecido. Não é apenas a nível do bairro. Também dizer que não só crianças me interpelam. Vários adultos fazem o mesmo. O que acontece é que com crianças é mais, porque crianças são crianças. Elas são mais directas e não têm barreiras. Encontram-me e pedem fotos. Os adultos também fazem isso, de vez em quando. Mas, respondendo à pergunta, sim, sinto-me reconhecido, tanto ao nível da zona quanto no geral.

A pergunta anterior foi posta a pelo facto de percebermos o surgimento dos novos movimentos de artistas do gueto, para levar os seus trabalhos para a periferia, suas zonas de origem. De que forma se faz presente na sua comunidade, enquanto artista?

Para começar tendo a dizer que faço os meus trabalhos aqui. Junto de amigos, também artistas com quem, igualmente, desenvolvi habilidades, costumávamos criar ideias de trabalhos para a nossa comunidade. Em vez de levar a periferia para fora dela, mantivemos a coisa aqui, era algo interno. É este o meu pensamento, no geral, prefiro produzir e fazer com que as pessoas reflectidas nas minhas obras sejam elas mesmas a ter acesso. Posso dar exemplo da internet, mas sabe-se que nem todas essas pessoas têm acesso à internet. Então, eu tenho de repensar como eu quero distribuir as fotos que tiro, o trabalho que eu faço. Por causa da questão sobre como é que eu vou fazer com que as pessoas tenham acesso e outras, estou a desenvolver um projecto (que já está em implementação), que consiste em imprimir as fotos e colocá-las nas paredes das ruas, tendo lá uma legenda a explicar. Eu estaria a usar as ruas e os murros como se fossem galerias, para cobrir o problema do acesso aos espaços de exposição. Muitas pessoas não têm o hábito de visitar galerias, por vários motivos, que não interessa falar agora. Para já, tenho tentado fazer com que a arte esteja presente aqui onde é produzida. Que as pessoas possam vê-la aqui. Eu sou fotógrafo, por isso essa é a forma mais viável que encontrei para aproximar as pessoas dos meus trabalhos. Muitas vezes as pessoas duvidam do destino das fotos, pensam que queremos vender ou fazer dinheiro, mas se elas vêm isso, começam a perceber. É esta a experiência que tenho tido nos últimos tempos. Tem sido muito boa. É pegar a minha arte e mostrar às pessoas. Assim, não só pessoas da zona me conhecem, mas também as de fora.

Com isso, qual é o contributo das suas obras na sua comunidade?

Na minha comunidade, existem pessoas que fazem maning cenas. As pessoas não têm direcção, ou não nos levam à sério, são cenas da vida. Eu quero que as pessoas olhem para mim, ou para o que eu faço, e acreditem, sintam-se motivadas a fazer, que cheguem aos lugares onde eu cheguei, nas suas próprias áreas. Digo isso porque as pessoas se aproximam a mim e falam dos seus sonhos, dizem que me admiram, e eu procuro motivar, encorajar com frases do tipo “tu podes fazer”. Gosto muito da ideia de partilhar, não apenas literalmente. Quero que o meu trabalho não seja só para mim. Muito além de ver, quero que as pessoas façam, sejam influenciadas, olhem para aquilo que superficialmente é inútil e menos importante – como buracos na parede, becos, etc. Quero que as pessoas pensem, façam cenas, mudem de pensamento e aprendam. Vou fazendo isso, à minha maneira, através da fotografia.

Na sociedade, em geral, o discurso continua o mesmo. Não pretendo ser o melhor fotógrafo, ou algo do tipo. Quero que o meu trabalho tenha peso ou influência na vida de alguém, de forma positiva. Quero que as pessoas abracem os seus sonhos. Que o maior número possível de pessoas veja o meu trabalho e se sintam iluminadas por essa vontade de fazer.

Está a querer dizer que o objectivo é inspirar e activar o espírito criativo que há em todo e qualquer indivíduo

Exacto. E digo mais. É, também, para que as pessoas que não são artistas possam entender o que é a arte. Conheçam os seus limites e objectivos. Saiibam o que um artista faz e o seu papel. Tudo isto acontece nesse processo de fazer a minha arte. Quando saio para fotografar e as outras pessoas fazem o mesmo. É sobre isso…

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