A performance de Mudungaze

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No interior do edifício da Companhia Nacional de Canto e Dança, na Avenida 24 de Julho, em Maputo, durante uma década, enquanto os moçambicanos recebiam anúncios televisivos e radiofónicos de novos espectáculos de dança ou músicas tradicionais, um jovem, Hélder Manhique, sem dar por isso, recolhia motivos para, mais tarde produzir a sua arte.

A performance desse artista tem como palco galerias, museus e outros espaços onde pode exibir as máscaras africanas – e o que está por vir – feitas – ou não – a base de resíduos sólidos reciclados com o foco no discurso da reinvenção que o Homem precisa de fazer para não danificar ainda mais o sistema ecológico.

Mudungaze, como assina Hélder Manhique, é nome de infância do último imperador de Gaza, Ngugunhane, escolhido justamente para simbolizar a relação do artista com as raízes moçambicanas, a partir da figura de um herói (controverso, é certo) nacional.

No princípio de uma tarde de inverno, com um sol ameno, nos sentamos para conversar no Centro Social da Associação Moçambicana de Escritores, na esquina entre as avenidas 24 de Julho e Amílcar Cabral.

“Eu não consigo me associar a [esta] classificação: artista plástico”, esclareceu nos primeiros instantes, enquanto ajustava a cadeira para sentar-se. O plástico enquanto composição química ao serviço das necessidades humanas, se justificou Mudungaze, hoje está contaminado com os signos da poluição dos mares, do meio ambientes, entre outras questões nocivas ao sistema ecológico a que prefere não se associar. Reconhece, porém, que quando o plástico apareceu era visto como o material mais versátil até então descoberto pelo Homem.

Mudungaze prefere “artista elástico”, por várias razões, entre as quais a de ser autodidata, experimentalista, e não pretender limitar-se a criação de máscaras africanas pensadas e a refletirem o contexto urbano.

“A partir da experiência que tive de recolha de materiais sobre ritos, danças e músicas tradicionais comecei a pensar mais a partir da base africana e o resto é o que vai surgindo à medida que vou trabalhando”, prosseguiu o artista.

Os sentidos do acaso. Mudungaze desenvolveu o hábito de colecionar resíduos sólidos. Vários anos após residir na cidade da Matola, se mudou para Marracuene, mais a norte da grande Maputo, onde se encontrava no hobby de juntar “lixo”, como garrafas pet, outros tipos de plástico, madeira e metal…para dar forma a essas “coisas”.

Subida ao palco

“Um amigo, certo dia, viu e sugeriu que eu mostrasse as pessoas e era algo que nunca me tinha passado pela cabeça, embora tenha trabalhado na companhia [Nacional de Canto e Dança], a minha experiência foi sempre atrás dos palcos”, contou com o cigarro aceso.

Por conselho desse amigo, em setembro de 2017, reuniu fotos dos seus trabalhos, redigiu um texto no qual explicava o conceito do seu trabalho e submeteu a proposta no então recém-criado Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), em Maputo.

Incrédulo, ao telefone, dias depois, em conversa com Féling Capela, então Gestor Cultural do CCMA, recebeu o convite para participar de uma colectiva com artistas como Butcheca, Nelsa Guambe, entre outros já reconhecidos e estabelecidos na praça.

“Os artistas foram perguntados se queriam trabalhar com um artista que não conheciam e aceitaram…de tal modo que no dia da inauguração as minhas obras estavam lá, mas ninguém sabia quem eu era nem que aquele era o meu trabalho”, conta.

Até aquele dia 16 de Setembro, as máscaras que produzia eram apenas o resultado de um processo pessoal e meditativo. Naquele dia se tornou público. Inclusive o pai de Hélder Manhique espantou-se com Mudungaze, ao conhecê-lo na exposição.

Ao olhar para as obras, espantado, Quito Tembe, director do Festival Kinani, perguntou: “o que é isto?”.  “Irmão, eu te conheço na comunicação e produção”, expressou. A seguir convidou-lhe para realizar outra exposição, no festival.

Intitulada Concret Jungle, a segunda apresentação de Mudungaze foi em novembro de 2017, no Prédio abandonado, na Olof Palm, em frente ao Ministério do Interior e ladeado, na diagonal pelo edifício da Companhia Nacional de Canto e Dança, em reabilitação há mais de cinco anos. A mostra estava composta por 36 obras.

Termina a exposição. Surge outro convite, para janeiro de 2018, que considera a sua primeira individual. Está tudo a acontecer tão rápido, nem dá tempo para o artista perceber de facto que destino está a tomar.

Entre Março e Abril de 20218, a 16 Neto acolhe “Second Chance-Máscaras africanas no contexto urbano. “A crítica foi boa, vendi todas as obras e isso marcou-me muito…ainda não tinha percebido essa cena de ser artista”.

Ainda no embalo de um percurso que começara bem projectado, em Outubro de 2018, inaugura, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, a exposição “Famílias Moçambicanas-Remédio da Lua”.

A curadora dessa mostra foi Frédérique Martin, para quem Mudungaze, como se pode ler no catálogo, naquele momento pretendia abordar os diferentes tipos de famílias que vivem lado a lado no país.

Na leitura da curadora, o artista reflecte sobre a condição do moçambicano, as raízes, os ritos e rituais que independem de classes sociais e, de certa forma, unem a nação traçando elementos comuns, tal é o caso, por exemplo, de “todos tomarem o remédio da lua em algum momento da vida, por várias razões médicas e crenças”.

Foi a primeira experiência de Mudungaze com a curadoria. “Olha, foi um processo de três meses, em que ficamos a trabalhar. O primeiro a desenvolver o que eu pretendia mostrar, noutros dois a fazer as obras”.

Aplausos fora de portas

Em 2019, no âmbito do apoio à mobilidade de artistas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) da Fundação Gulbenkian, Mudungaze integrou uma residência artística na Maria Augusta produções, da Companhia de Teatro de Braga, que resultou em duas exposições.

No mesmo ano, participou ainda numa residência no Hangar, em Lisboa, onde concebeu a obra que agora será apresentada no festival italiano, Views of society, que representava a perspetiva do autor sobre a crise social e de valores que o mundo atravessa.

Em Julho do ano passado, Mudungaze participou na edição online do Fuori Visioni 6, um festival de arte contemporânea, performance, dança e teatro, que se realizou entre os dias 11 e 15 de setembro. 

Estava convidado para a Expo 2020 Dubai, evento, entretanto adiada em virtude da pandemia provocada pela Covid-19.

A experiência em Portugal deu outra visão a Mudungaze. “A subjectividade que eles exploram é profunda, é uma proposta, uma reflexão a quem vê”, recordou a comparar com o que em Moçambique considera perto do óbvio. “[Há entre os artistas nacionais os que trabalham] obras que são face to face”.

Foi uma oportunidade para Mudungaze perceber que há muito mais por explorar na arte de fazer máscaras, trabalhar o metal… “quis me explorar mais, sair das máscaras e no fim os curadores disseram: saíste, mas continuas a ser tu mesmo”, concluiu.

Ivan Laranjeira e Mudungaze

Entretanto uma das melhores Residências Artísticas que teve, foi no Museu Mafalala, na periferia de Maputo, a convite do Ivan Laranjeira. Foi o primeiro artista a expor no primeiro museu construído no subúrbio no país pós-independência. A proposta era criar, enquanto o fotógrafo, director de vídeos e criativo Mário Cumbana fazia o registo. “Aceitei o desafio, levei o meu material e fui para lá”, ao chegar, o Ivan disse: “tu vens com o teu processo, mas vais ficar cá uns dias para produzires”. Essa imersão, as leituras de livros sobre o bairro e o convívio deu-lhe outro ângulo, noutra perspectiva. E contribuiu para a 0bra final.

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