Viajar no My Love

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Escuta um pedido de desculpas de um homem que traíra a parceira. Ela soube por fofocas, não tem evidências…a estória toca alta numa kizomba. Está em pé no corredor do chapa dos atrasados e impacientes, um das 9 e tal.

Saca o IPhone do bolso para teclar no WhatsApp, uma forma de fintar o tempo colonizado pelo engarrafamento e (a)gentes a caça de refresco em meio a uma manhã de segunda-feira. Os status na rede social estão uniformes: um homem magro, estatura média, cabelos longos, totó rabo-de-cavalo é vilipendiado, atropelado, esmagado na unanimidade sobre a sua culpa. Ninguém duvida, o culpado é ele, namorado dela.

Seu corpo é atirado para frente de forma brusca e repentina na curva que o motorista descreve na rotunda a alta velocidade. Estão em frente as estátuas que separam as Avenidas da Libertação e de Moçambique.

Não se esparramou nas duas moças sentadas no banco duplo do Coaster por ter segurado no varão amarelo que serve de apoio aos passageiros em pé. Dói-lhe o cotovelo do braço esquerdo, a palma da mão que agarra a barra de ferro.

Ao recuperar o fôlego, observa as mexas longas, loiras com missangas transparentes nas pontas, óculos lilás, máscara azul oceano, pele escura de uma das moças sentadas. A da janela. Será? Se fosse ela, teria cumprimentado ao vê-lo. Os mesmos olhos-d’água por trás das grades redondas dos óculos. As maçãs no rosto, o traço. Do alto, em pé, confirma que ela calça 36 e repousa uma bolsa minúscula entre as pernas.

A notificação não tardara, o vídeo dos status chegou no grupo Actualizados: o tipo magro se envolveu com uma menor de 13 anos.

O blogger perguntou:

 – Mas não viste que era criança mesmo, você?

Com semblante sereno, respondeu: me disse que era uma mulher e fazia tudo mesmo.

– Tudo é o quê?

– Varria, lavava, cuidava da casa e de mim. E fazia tudo, tudo mesmo.

Interrompeu o vídeo quando recebeu a notificação do TikTok. O Alcy fez um meme. Cerca de 5 mil seguidores comentaram 🔥🔥🔥😂😂. Outros: aquele já nos deixou, está noutro nível.

No jornal, que recebeu em pdf no Telegram, lê que o tipo “viveu maritalmente com ela, entretanto passara discreto quando o caso veio a luz.

Este crime punível nos termos da lei, é uma realidade vivida país adentro. As estatísticas de ONG’s revelam uma situação preocupante.

O suspeito responde em liberdade condicional após o pagamento de uma caução que os activistas e a sociedade civil consideram irrisória para crimes desta gravidade.

Consta dos Autos que o suspeito é acusado pelos crimes de Pedofilia, Violação de menor, Contra os Direitos Humanos.”

Os olhos deslumbrados, escravos dos megabytes, contemplaram os detalhes superficiais do quadro. O gajo tinha escapado do (hahaha) escrutínio social, quando o caso veio à superfície pela primeira vez. Mas já tinham descoberto o gajo.

O chapa avança rumo ao Museu, entra para o interior do Chamanculo para contornar o engarrafamento, no Alto Maé, no meio da avenida Eduardo Mondlane, um maluco de camisa branca, calças azuis, sujo, dança com um saco azul nas mãos.

Tantas outras kizombas cantaram perdão por amores acidentados ou falidos, traídos, apaixonados… agora Phil Collins coordena a bateria e oferece a voz para levar os passageiros ao “Another day in Paradise”.

Será ela? a máscara estará a esconder aquele riso em flor? como o mundo fica mais lindo quando sorri. Consegue um banco para se sentar, atrás dela. A tem na mira. São muito parecidas, se não for ela. Mas o olhar dela parece triste, sem aquele brilho pelo qual se apaixonara, anos atrás, antes dela se casar.

Os gestos, as unhas com pontas sem verniz, partidas. A forma como ela coça a cabeça é igual. Igual. Está inquieta, vê dispersão no seu olhar. Cumprimentá-la?

No Ponto Final quando volta a cabeça para o alto, depois de se ter entretido com o IPhone nas mãos a ver cenas no Instagram, vê ela a caminhar do lado de fora. O Chapa inicia a marchar…será?

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