O sagrado nos irmãos Mabunda

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Friedrich Nietzsche matou Deus. Mas não a religião. No crepúsculo da modernidade, o filósofo alemão constatou que o Deus judaico-cristão visto como o centro da existência humana, da sua espiritualidade havia falido. Em aforismo nas obras A Guia Ciência e Assim falava Zarathustra reflectiu sobre o facto do Homem com as descobertas científicas do século XIX ter matado e enterrado Deus. Não se trata da acção de um homem em particular foi um acto colectivo não deliberado. E as igrejas, para Friedrich Nietzsche tornaram-se túmulos e mausoléus de um Deus morto. O que o filósofo reclamava era o esvaziamento da divindade.

A empresa religiosa com recurso a sua infraestrutura retórica, entretanto, não cessa de reabilitar Deus, de fazer updates adequados a circunstância. É o divino a serviço dos interesses mundanos.

Karl Marx, ainda neo-hegeliano, artigo Sobre a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, critica a religião, interpretando-a como um entorpecente social. Na fase mais madura que se pode designar marxista, na Ideologia Alemã e no Capital prossegue com esse pensamento olhando para a religião como uma alienação ideológica cujo propósito é manter o proletariado distraído e servil aos interesses da burguesia. É um alerta que dá seguimento a posição nietzscheziana no sentido da apropriação do sagrado para interesses do capitalismo – corrente que Marx ansiava aniquilar.

A comercialização da fé, objecto lucrativo em meio a desesperança – então achas que as pautas do Balanço Geral são fruto do acaso? -, é apenas um dos sintomas da instrumentalização do sagrado. Aliás, a crítica ao comércio das Indulgências feita por Martin Luther ia justamente nessa direcção. Este alemão tido como precursor da Reforma Religiosa, que deu origem a novas igrejas – ditas pelo Cristianismo protestantes – defendia que o perdão divino não tinha outro preço que não a fé em Cristo. É irónico que actualmente alguns evangélicos originários desse momento histórico e ideológico tenham na recolha do dízimo o centro da sua actividade religiosa.

Não precisa de nenhuma elaboração intelectual ou teóloga para recordar que o terrorismo se sustenta na “Palavra da Salvação”. Alegam defender o Alcorão para materializar a barbárie. E alguns evangélicos fazem o mesmo, através da Bíblia ao, por exemplo, retirarem o pouco das pessoas para benefício de pastores, profetas e toda a espécie de burla. Na verdade, em ambos casos, Deus é o Cavalo de Troia.

Com três técnicas distintas, escultura (Gonçalo), mista (Santos) e desenho (Rodrigo), os irmãos Mabunda, na exposição O PARADIGMA DA FORMA, na Fundação Fernando Leite Couto, participam deste debate não esgotado e cada vez mais urgente no século XXI. E é fruto do acaso, disseram-me.

A justificação desta casualidade pode ser o facto de terem crescido cristãos, guiados pela fé de que a Igreja e a Religião são uma espécie de suporte para o sofrimento e caminho para a salvação eterna. Mas a pergunta retórica que o Gonçalo me fez traz também a arte a cumprir uma das suas funções que é a de reflectir o seu tempo: Se o crente tem de pagar dinheiro (dízimo) pela salvação, como ficam os que não têm esse recurso?

Seja qual for o leitmotiv da exploração desta temática, trata-se de um lugar historicamente percorrido por vários outros artistas. A Igreja Católica, por exemplo, quando começou a se expandir ainda no início do século II, num contexto em que a maioria era analfabeta, para atingir mais gente recorreu às artes para representar os Anjos, Cristo, Maria e outras figuras que representam o divino. O que prosseguiu e alimentou (ou/e forçou) o imaginário medieval. Alguns artistas o fizeram por encomenda outros por necessidade de afirmação e outros ainda por crença.

O GRITO DE MAHINDRA

A simbologia cristã em Rodrigo Mabunda está patente na obra O GRITO DE MAHINDRA, na qual vemos a Igreja Nossa Senhora da Conceição, paróquia de Maputo, uma mulher nua com um terço pendurado no pescoço e uma taverna com bêbados e uma cruz. O profano ganha vida nestes dois últimos elementos, provavelmente a questionar o significado desses signos na mundividência. Esses motivos, disse-me, foi apreendendo nas viagens que fez por Veneza e Portugal, territórios secular e culturalmente cristãos.

Através da caneta azul sob o papelão, Rodrigo nos leva ao mundo que vê composto por desenhos minúsculos, entre os quais rostos que por trás tem outros mascarados, pois ele acredita que há sempre quem segue os nossos passos.

Santos Mabunda levou para exposição estórias sobre esta situação pandémica. A condição de reclusão domiciliar, os bares fechados, a atenção voltada para os noticiários como há muito não se via com a evolução da social media. Sua técnica consiste em desenhos e colagens no paspatur nos quais se evidenciam padrões têxteis e marcas de bordados, consequência natural da formação em Têxteis na Escola Nacional de Artes Visuais.

O símbolo do sagrado está num cemitério, representado por cruzes nas campas na obra ESTADO DE EMERGÊNCIA, a sua favorita da mostra. É que o mundo, disse-me, nunca viu tantas mortes simultâneas como as causadas pela Covid-19. E em contrapartida a morte nunca foi tão banalizada quanto hoje em que políticos em alguns lugares do mundo continuam a tratar esta situação com desdém e a media a reduzi-la a meras estatísticas.

Em meio a este quadro Santos continua a acreditar que as cruzes no cemitério libertam aos homens dos seus pecados e abre a porta para o paraíso eterno?

JESUS INDUBITÁVEL

Quando Cristo voltou ao mundo, no romance clássico Os irmãos Karamazov de Fiodor Dostoiévski, os sacerdotes de imediato enclausuraram-no. Ele vinha atrapalhar o negócio rentável que deu estatuto e vida luxuosa ao clero. Na mesma linha interpretativa segue Gonçalo Mabunda com JESUS INDUBITÁVEL, na qual o patriarca do cristianismo está crivado de balas, braços feitos de cano e coronha de uma AK 47, correntes de ferro, capacete militar a fazer o estômago e um laço vermelho no peito. Se a mensagem que os pastores, padres e afins apregoam é de humildade [wrong!] …eles andam com as velas na promessa de prosperidade. Será uma crise da Religião ou de Deus?

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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