Conheça os livros de Virgílio de Lemos e Rui de Noronha publicados pela Gala-Gala

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Rui de Noronha e Virgílio de Lemos

A editora Gala-Gala traz a superfície dois livros novos de poemas de dois autores moçambicanos, distintos em termos de linguagem e do aparato estético. São eles Virgílio de Lemos e Rui de Noronha cujo contributo literário os coloca no que poderíamos considerar o Olimpo moçambicano.

Passamos a publicar nos próximos parágrafos as apresentações dos editores de ambos livros:

“Um coração de gozo – poemas eróticos de Virgílio de Lemos”

Aponta Américo Nunes, em a “Dimensão do Desejo” (2009), que “Virgílio de Lemos foi (e continua a ser) um poeta […] rebelde e um anti-conformista de espírito libertário”. Deve-se, cremos, a esse espírito inquieto e libertário, a sua experimental e multi-personificada poesia.

Virgílio, poeta de várias vozes, usou e, como se ousa dizer, abusou da heteronímia. Ele chamou-lhe de “constelação telúrica”, uma teia de aranha sem centro, partilhada, como hóspedes, por vários poetas: Duarte Galvão, Lee-Li Yang, Bruno dos Reis e ele próprio, o sujeito de enunciação “Virgílio de Lemos”.

Dos três mais famosos heterónimos do Virgílio (fala-se da existência de outros), Lee-Li Yang, uma diva oriunda de Macau, a quem António Cabrita caracteriza como “uma mulher desenvolta e precursora das irredentas liberdades femininas que ganhariam cidadania uma década depois, nos anos 60, nos países desenvolvidos”, escreveu, essencialmente, poemas de um amor erótico. São poemas de uma abordagem sensual, carnal, que se faz, como disse o próprio Virgílio, “arma política de libertação feminina”.

Duarte Galvão, amante da Lee, e o próprio Virgílio, também escreveram poemas eróticos. Em análise, Américo Nunes chamou a sensualidade em Virgílio de uma “experiência simultaneamente lúdica e trágica, erótica e profundamente desassossegada”. Esta é a experiência que levamos até si, leitor ou leitora, neste volume de poemas que é apenas um retalho da imensa obra deste poeta da “moçambicanidade”.

Como não tinha que deixar de ser, o subtítulo desta edição, “Um coração de gozo”, é um poema de Lee-Li Yang, que, como assevera António Cabrita, é “um dos raros exemplos de erotismo na poesia em língua portuguesa daquele tempo” e deste tempo.

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“Por eu amar-te tanto – poemas para os apaixonados”

Figura singular da literatura moçambicana, Rui de Noronha não viu a sua poesia publicada em livro, que teve edição póstuma, mas tanto em “Sonetos”, de 1946, como em “Os meus versos”, de 2006, o amor é um dos motes mais importantes. É, por isso, o epíteto “um poeta de amor e de morte”, atribuído por Francisco de Sousa Neves.

Mas não seria, afinal, a própria poesia, um acto de amor? Em Noronha, a poesia amorosa é mais do que uma poesia cujo tema é o amor. De uma sinceridade extraordinária, ela é o espelho das relações amorosas, do seu “amor desesperado”.

Os textos que compõem este livro, sonetos, odes, trovas, quadras e oitavas, estilos clássicos, atestam a genialidade de um poeta jovem, ora apaixonado, “Se te amo! Pergunta à madrugada”, ora amargurado, “Ninguém te amou como eu te amei outrora”. E há mais. Há, nestas páginas, a manifestação do desejo, o impulso erótico, a entrega cega, a despedida e a efemeridade das relações – como se pode esperar das histórias de amor: “curvas mortais”.

Esta publicação, que acontece 77 anos depois da morte de Noronha, é uma tentativa, que se espera não ser vã, de reviver alguns dos seus versos mais marcantes e levar aos mais jovens e aos eternos apaixonados o que acreditamos ser o melhor da poesia de amor de Moçambique. E, um pouco a lembrar o próprio poeta, “No grito/ dos poetas/ Há lágrimas de vidas incompletas”.

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