À MANUELA SOEIRO

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Foto: DW

Por Obedes Lobadias

Mãe!

A dívida que tem este país

para com a senhora,

sabemos, não é oculta.

Nem é ilegal

tal se diz das outras.

ainda assim,

se nunca a merecemos

como a saberemos pagar?

Talvez nem gás, nem petróleo,

nem atum,

nem madeira, nem pedra,

nem terra há

que justifiquem um café.

E, cá entre nós, sequer sobra sonho

para uma comissão.

Pergunta-nos,

se no teatro do nosso teatro

já vimos peça maior

se nem a própria vida cabe,

para, pelo menos, ensaio

do grande espectáculo que és.

Ou, ensina-nos…

se agora que este país está um teatro

devemos ou não tirar as máscaras?

Se na cena de Cabo Delgado,

ali onde o protagonista matou

não era para ter abraçado?

Ali onde toda gente chorou,

não era para ter sorrido?

E, ali onde medo brotou

não era para a esperança

ser plantada e o sonho colhido?

…e na incomum vala

de cada coração apavorado,

de cada alma ferida,

de cada corpo tombado,

não havia ali um palco, aliás,

uma mina de felicidade

por ser explorar?

Diz-nos!

Se o figurino da paz não está tão rasgado,

se a luz do futuro não está mal regulada,

se a fala dos direitos humanos não foi esquecida,

temos ou não uma lástima de encenador?

Explica-nos!

Por que quando a morte faz espectáculo,

não pagamos bilhete?

Aliás, faz mais nada.

Apenas perdoa a nossa dívida, mãe.

Seja revista a constituição!

E, em decreto irrevogável

aprove-se e promulgue-se:

o hino, o emblema, a bandeira

a senhora

e todos que a estas palavras

apetece abraçar

e levantar-se

para uma vénia eterna,

como símbolos nacionais.

© Obedes Lobadias

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