Poemas de Raquel Gaio

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Raquel Gaio
Raquel Gaio

Textos de Raquel Gaio

construo um mioma no seio
enquanto penso em deus
o escuro de seu rosto possui
a boca úmida/espessa do transitório.
-terras e corpos em deslizamento-
o mioma é uma paisagem antiga
um espectro secular que contraí
de uma mãe paralítica.
uma mãe que forja o próprio leite,
e que exerce em silêncio,
o presságio de seu destino oco.


minha mãe com sua recusa não me ensina sobre o dano
tento aprender sobre o silêncio com ela, mas os gestos ainda chegam envergados em mim.
outro dia, soube que compartilhamos, além da inabitação, de nódulos no pulso
ela não diz, mas sei que foram as águas que sonhamos que ficaram incrustadas.
*
queria penetrar a boca de minha mãe/atravessar teus dentes/os anos de tua mudez /comungar com tua língua e com tua neblina/contar teus ossos/ter a fé extrema dos impronunciáveis.
*
quando consigo, abro minha boca na borda de sua sombra numa tentativa de que sua doença se dissolva em minha saliva.
*
a mãe é uma forma calada e ferida.


convocar o delito o corpo continental o repouso ausente consumindo imensos cavalos sou uma crosta incendiada pela tua mão, levo na vértebra a imagem de uma mulher tomada pelo Oco o cultivo de um punho rasurado um pasto antigo e translúcido, sou uma inclinada tombo entre o mar e a terra, eu que sou o método de uma imagem que despenca invento uma vigília uma promessa, eu mulher margem mulher que se rebenta eu mulher esquecida e cicatrizada falho sempre diante da precisão, _ quanto de pulmão ainda habita o meu nome?

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

na parte detrás de minha cabeça
há um bicho a construir a doença
e na parte mais alta
o rosto de um afogado coberto de margem

juntos, trabalham incessantemente
na espessura do buraco que me acompanha a face:
ora mais pai ora mais deus ora coisa nenhuma

quando a espessura de meu buraco
possui a forma de coisa nenhuma,
desabo dentro do corpo oco da mãe
onde enfim posso gritar

– deus pai, por que usas meu rosto?


abro-me na margem de um rio
há uma servidão em minha febre

nenhum meridiano me cala
oceânica tem sido a minha voz

***

Licenciada em Letras, atua nas áreas da poesia e artes visuais. Escreveu os livros de poesia “manchar a memória do fogo” (Urutau, 2019) e “das chagas que você não consegue deter ou a manada de rinocerontes que te atravessam pela manhã” (Editora Patuá, 2018). Desenvolve trabalhos entre a fotografia, a performance e o objeto investigando a esfera do íntimo, do tempo e do corpo como lugar de erosão e espanto. Possui poemas e trabalhos visuais publicados em revistas do Brasil, Portugal, México e Estados Unidos.

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Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, aos 31 de Maio de 1987. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos. Participou de várias antologias, revistas blog, jornais, colóquios, debates, festivais nacionais e estrangeiras. Tem colaborado com a plataforma mbenga de artes e reflexões fazendo conversas e divulgando textos de autores lusófonos. É co-redatora da revista portuguesa incomunidade. E colunista da revista galega palavra comum onde colabora com ensaios sobre a arte da escrita.

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